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Após dois meses, sobreviventes de tragédia em Dois Unidos começam a receber auxílio do Governo de Pernambuco

Sobreviventes do deslizamento de barreira que matou sete pessoas ainda esperam respostas. Investigações da Compesa e da Polícia não foram concluídas

Maria Lígia Barros
Maria Lígia Barros
Publicado em 28/02/2020 às 15:25
Foto: Leo Motta/ JC Imagem
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Mais de dois meses depois do deslizamento de barreira que matou sete pessoas em Dois Unidos, Zona Norte do Recife, os 11 sobreviventes começaram a receber ajuda financeira do Governo de Pernambuco. Durante três meses, as pessoas afetadas direta ou indiretamente pela tragédia vão receber uma ajuda de custo de dois salários mínimos (R$ 2.078,00). De acordo com a secretaria Estadual de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude (SDSCJ), a primeira parcela foi paga nesta sexta-feira (28). Membros da pasta fizeram duas reuniões até agora com as vítimas para tratar de possíveis reparações.

  Segundo o motorista de aplicativo Erivaldo Barbosa, um dos contemplados pela medida, o dinheiro deverá servir para ajudar as famílias a se organizarem enquanto os acordos avançam. O grupo pede uma solução quanto à moradia. Duas casas foram destruídas no incidente. 

 A SDSCJ frisou que esta primeira concessão recebida não é uma indenização. Em nota, explicou que trata-se de um "benefício eventual em decorrência de vulnerabilidade temporária", previsto em lei aprovada em 2013. A secretaria disse que o valor é o máximo permitido pela legislação. 

 "O Governo do Estado continua em contato com as famílias das vítimas do acidente para articular a viabilização de outras demandas, como assistência psicológica e novas moradias", garantiu.

Ninguém ainda foi responsabilizado pelo caso

Passaram-se dois meses, mas, para Alexsandra de França, 46, o tempo não andou. “Me sinto igual”, disse. A sobrevivente recebeu a reportagem do Jornal do Commercio em casa, a poucos metros dos escombros da residência onde morava o filho Emanuel Henrique de França, morto aos 25, seu neto Érick Júnior, de 2 meses, e a nora Érica Virgínia, 19 anos. Os três foram vítimas fatais da tragédia. 

Alexsandra abraçava as roupas do filho. Entre elas, peças que não foram lavadas, “para poder sentir o cheiro dele”. Todos os pertences que restaram da família são mantidos em uma sacola, dentro do armário. Camisas do rapaz, a manta estampada do bebê e até o vestido que a nora usou durante o pré-natal. Dentro dos sapatinhos que comprou para o neto, guarda a pulseira que ele usou na maternidade.

Foto: Leo Motta/ JC Imagem
Dor da perda angustia os dias de Alexsandra - Foto: Leo Motta/ JC Imagem
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O deslizamento atingiu duas casas em Dois Unidos - Foto: Leo Motta/ JC Imagem
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Uma casa foi completamente destruída e outra, parcialmente - Foto: Leo Motta/ JC Imagem
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Técnicos realizam trabalho de perícia no local - Foto: Leo Motta/ JC Imagem

No dia 24 de dezembro de 2019, na véspera de Natal, a encosta de um morro desmoronou sobre duas casas onde se reunia uma família. Os moradores dizem que a causa foi o rompimento de um cano de água da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa). Até agora, no entanto, não foi apontada um motivo para o desabamento, nem por parte da Compesa, nem da Polícia. 

A falta de respostas é mais um motivo de sofrimento. “É uma tortura”, comentou.

Perícias não concluídas

Questionada, a empresa deu a mesma declaração que no final de janeiro, quando expirou o prazo para apresentar um laudo com explicações sobre o motivo do incidente. A Compesa disse ainda não ter chegado a uma conclusão definitiva, mas que um documento preliminar da terceirizada contratada para realizar os estudos identificou “ligações clandestinas ao longo da tubulação rompida e a presença significativa de água no solo”. 

Ela justificou o tempo estendido dizendo que será “necessário um aprofundamento das análises com a realização de 18 ensaios geotécnicos e geológicos”. 

 Na visão de Erivaldo, no entanto, a demora mostra que a Companhia não tem intenção de ajudar. “Ela não quer um acordo. O laudo preliminar é totalmente vazio. Falou de umidade do solo, mas ele estava úmido por causa do vazamento do cano. Sobre ligações clandestinas, realmente, em qualquer comunidade existem, mas não no cano mestre, que é o que teve problema.”, afirmou.

“É um cano de 100 milímetros, de diâmetro grande, que cava 3 metros dentro do solo. É impossível ter uma conexão para fazer uma ligação. Ele tem uma pressão enorme, a pessoa que mexer naquele cano vai fazer um rio de água. Só quem tem acesso é a Compesa mesmo”, defendeu. 

Nesta sexta-feira (28), o JC verificou a presença de técnicos realizando a perícia no local.

Já a Polícia Civil de Pernambuco afirmou que o caso segue em investigação pela Delegacia do Alto do Pascoal. Uma peça do inquérito policial foi encaminhado ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE) pedindo aumento do prazo para a sua conclusão. “A PCPE aguarda o laudo pericial do Instituto de Criminalística (IC), que é de fundamental importância para a finalização do inquérito policial.”

O IC disse, através da Secretaria Estadual de Defesa Social, que a perícia está demandando mais tempo por causa da “especificidade de detalhes”. “O perito precisou visitar o local mais de uma vez, para realizar pesquisas tanto em campo como em literatura”, falou, em nota.

A previsão é que “o laudo sairá nos próximos dias e será entregue a autoridade policial responsável pelas investigações.”

Veja nota da SDSCJ na íntegra

"O Governo de Pernambuco iniciou, nesta sexta-feira (28), o pagamento do benefício eventual em decorrência de vulnerabilidade temporária a 11 pessoas envolvidas do deslizamento de terra que vitimou sete pessoas, no mês passado, em Dois Unidos, Zona Norte do Recife. A concessão, prevista na Lei nº 14.984, de 13 de maio de 2013, foi aprovada por unanimidade, no dia 17 de fevereiro de 2020, pelo Conselho Estadual de Assistência Social e prevê o pagamento máximo permitido pela lei, que é de dois salários mínimos (R$ 2.078,00), e será feito durante três meses. A primeira das três parcelas foi paga hoje. Vale destacar que não se trata de indenização."

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