Violência

''Ele prepara o terreno'', diz psicóloga sobre características de religiosos abusadores de mulheres

Em Pernambuco, um ex-pastor está sendo acusado por oito mulheres de cometer atos libidinosos e, em um dos casos, praticar o crime de estupro

Bruna Oliveira
Bruna Oliveira
Publicado em 28/02/2020 às 18:00
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Foto Ilustrativa: Diego Nigro/Acervo JC Imagem
Ao menos cinco mulheres denunciaram o suspeito - FOTO: Foto Ilustrativa: Diego Nigro/Acervo JC Imagem
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Mulheres vítimas de crimes sexuais guardam na memória a lembrança de um ato covarde e cruel que pode ser praticado por pessoas desconhecidas e até mesmo próximas. Nessa quinta-feira (26), o Jornal do Commercio revelou que oito mulheres acusaram um ex-pastor de uma igreja evangélica na Zona Norte do Recife de cometer atos libidinosos e, em um dos casos, praticar o crime de estupro. De acordo com as investigações, para cometer as violações o homem manipulava as vítimas e dizia que os atos sexuais faziam parte de um processo de “cura, libertação espiritual e psicológica”. O caso é semelhante ao do médium João Teixeira, conhecido popularmente como João de Deus, que em 2018 foi acusado de cometer abusos sexuais durante atendimentos individuais de suas pacientes.

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Em ambas situações os dois homens utilizaram a condição de líderes religiosos para cometer os crimes contra as fiéis. De acordo com a coordenadora de psicologia do Hospital da Mulher do Recife, Eduarda Pontual, a fé é algo importante em vários aspectos da vida das pessoas, mas como em todas as esferas, da mesma forma que pode ser utilizada para o bem, também pode ser utilizada para o mal, já que vai de acordo com o caráter de cada um.

“Esse tipo de agressor normalmente utiliza do poder da palavra, ele é diferente de um agressor desconhecido e que age com violência. Geralmente são pessoas amigáveis, comunicativas, em que as próprias vítimas ficam assustadas de que elas foram capazes de cometer os crimes.”, explica.

Ainda de acordo com Pontual, na maioria dos casos, antes de cometer o crime, o agressor constrói uma relação de confiabilidade e de dependência afetiva da vítima junto a ele. “Não é algo do dia para a noite, ele vai preparando o terreno para que depois possa cometer o crime”, conta.

Para a delegada Bruna Falcão, responsável pela Delegacia da Mulher que recebeu a denúncia das oito mulheres, esse tipo de crime é caracterizado como forma semelhante a de um empregador que se utiliza da sua condição de chefe para conseguir favores sexuais. No caso do ex-pastor, ele foi indiciados por diversos crimes, já que ele praticou diferentes tipos crimes contra as vítimas.

“Todos os casos têm em comum o crime de assédio sexual. Além disso, com uma das vítimas ele praticou estupro, que é quando o agressor utiliza a força física ou a ameaça para consumar o ato”, declara a delegada.

De acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FSP), em 2018 o País atingiu o recorde de registros de estupros, com 66 mil vítimas. O número equivale a 180 estupros por dia.

Quando uma mulher é vítima de um crime sexual, ela pode fazer um boletim de ocorrência contra o agressor em qualquer delegacia do estado em que mora e, segundo a delegada Bruna Falcão, é importante que seja feito o mais rápido possível. “Há crimes sexuais que não deixam vestígios e que não tem como fazer uma perícia, então cada investigação é feita de uma forma diferente”, diz.

Assistência às vítimas 

O Centro de Atenção à Mulher Vítima de Violência Sony Santos, localizado no Hospital da Mulher do Recife, na na BR-101, no Bairro do Curado, na Zona Oeste da cidade, acolhe pessoas do sexo feminino, a partir dos 10 anos, vítimas de violência. O local é aberto durante 24h e funciona de portas abertas, ou seja, a vítima não precisa ser encaminhada para o local através de uma delegacia, posto de saúde ou pelo Instituto Médico Legal (IML). Também não é necessário que a vítima possua um registro de boletim de ocorrência. 

A assistência contempla atendimento e acompanhamento de médicos e outros profissionais como psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros.

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