Maracatu

Caboclo de lança, guerreiro do maracatu, desperta fascínio no Carnaval de Pernambuco

Há três décadas o caboclo de lança foi alçado a uma das figuras de maior destaque do Carnaval pernambucano

Debora Bruna Oliveira
Debora Bruna Oliveira
Publicado em 07/02/2020 às 14:27
Especial
Foto: Luiz Pessoa/JC Imagem
Há três décadas o caboclo de lança foi alçado a uma das figuras de maior destaque do Carnaval pernambucano - FOTO: Foto: Luiz Pessoa/JC Imagem
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Ele se veste para a guerra. Pesado surrão nas costas, cabeleira de tiras reluzentes, gola de lantejoulas coloridas e uma lança com mais de dois metros de comprimento. Há três décadas, o caboclo de lança foi alçado a uma das figuras de maior destaque do Carnaval de Pernambuco. Mergulhado em simbologias, o guerreiro do maracatu de baque solto desperta fascínio e medo. Quem é esse ser cheio de força, mas que também tem a habilidade de enfeitiçar as pessoas? No meio da folia, eles atraem e afugentam. Há quem suba a calçada quando eles passam com seus ruidosos chocalhos e quem peça para fazer selfie com eles. Nas peças de turismo e do período momesco do Estado é improvável não ver o caboclo de lança.

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O guerreiro de origem indígena surgiu na Zona da Mata Norte de Pernambuco dando vida ao maracatu de baque solto. “No começo eram só os caboclos de lança, o arreiamá (índio que traz a paz para o maracatu) e as baianas de toalhas, que eram homens. Depois surgiram outros personagens. O caboclo de lança é um índio guerreiro que está ali para proteger seu povo”, conta o presidente da Associação de Maracatus de Baque Solto de Pernambuco, Manoelzinho Salustiano. Com a diáspora de trabalhadores da cana para o Grande Recife, os grupos deixaram de concentrar-se apenas na Zona da Mata. Hoje são 106 em atividade no Estado, com destaque para a cidade de Nazaré da Mata, considerada a Terra do Maracatu com 22 grupos.

Quem se acostuma a ver o caboclo de lança no meio da folia, como figura carnavalesca, não faz ideia dos segredos que envolvem o personagem. Os desavisados dos mistérios podem se perguntar, por exemplo, como conseguem dançar debaixo de fantasias que pesam 25 quilos e parecem sorver o calor do Sol. Em Nazaré da Mata, durante o Carnaval, os termômetros chegam a marcar 40° C. Além de bater chocalho, espécie de treino que eles fazem a partir de setembro, andando pelas cidades com o surrão nas costas, a resposta está na preparação espiritual.

No maracatu de baque solto, uma madrinha espiritual faz a preparação coletiva e individual do grupo. A brincadeira tem a Jurema Sagrada como base da sua religiosidade. Os indígenas acreditam no poder do chá e do tronco da jurema preta, além de usar a fumaça de cachimbo e charuto para conectar-se com mestres e caboclos.

“O caboclo de lança tem uma forte simbologia mística e religiosa. O cravo na boca, o galho de arruda, a alfavaca de caboclo têm sentido de proteção e fechamento do corpo. Eles são preparados para receber o espírito e sair atuado (como eles dizem), possuídos por uma força com alteração da percepção”, explica a jornalista e pesquisadora do tema Maria Alice Amorim. Além da preparação espiritual, os caboclos de lança precisam fazer um resguardo sexual, que dura de três a 21 dias, dependendo de cada um. Se desobedecerem ao regime, acreditam, começa a acontecer uma série de problemas e o maracatu se desmantela. O carro quebra e eles não conseguem chegar ao local de apresentação, o grupo tem uma diarreia coletiva, acontecem brigas.

Caboclo de lança do Cambinda Brasileira – maracatu centenário que recebeu o título de Patrimônio Vivo no ano passado – Luiz Fernando da Silva diz que segue um resguardo sexual de 21 dias. “Eu faço isso porque me sinto mais protegido, mas cada caboclo tem o seu próprio regime. Além disso, tomo meus banhos de ervas, faço minhas rezas, acendo minhas velas e fumaçadas de cachimbo e charuto”, conta o caboclo, que começou a brincar no maracatu com 6 anos e hoje está com 20. Fernando também integra a geração de novos artesãos de gola.

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No início da formação do maracatu de baque solto, os caboclos saíam para se enfrentar. “A lança, que hoje é toda de madeira, antigamente tinha uma ponta de metal, mas depois foi proibida pela polícia. As pelejas físicas existiam, mas com o tempo foram sendo regradas e hoje a violência é apenas simbólica, não se concretiza no corpo a corpo. A coreografia é de um guerreiro, com agachamento, saltos em direção às pessoas e movimentos com a lança como se fosse transpassar alguém”, detalha Maria Alice.

MULHERES

Por causa do ambiente violento e de questões culturais e religiosas, durante muito tempo o maracatu de baque solto foi lugar de homem. Nos registros orais, os mais velhos contam que no Engenho Bringa, em Nazaré da Mata, aconteceram confrontos com mortes entre grupos rivais. Esse foi um motivo para o afastamento das mulheres, que se limitavam a realizar tarefas como costurar ou cozinhar para os brincantes. Depois, as mulheres tiveram permissão para brincar como baiana, rainha e índia. A menstruação também foi outro tabu. Para os grupos, as mulheres menstruadas estavam com o corpo aberto e poderiam atrapalhar a brincadeira.

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A primeira mulher a quebrar esse impedimento, depois de quase um século de existência do baque solto, foi Maria José Marques dos Santos, de Nazaré da Mata. Há 19 anos brincando como catita, ela quis enfrentar o desafio de brincar com uma arrumação (fantasia) de caboclo de lança. “Bati na porta de cinco a seis maracatus, mas ninguém me aceitou. Depois fui no Leão Formoso, de Nazaré, que o dono era Seu (Antônio) Pacheco, falecido. Ele consultou os outros caboclos e o grupo me aceitou. Em 2004 desfilei como a primeira cabocla do Estado, com uma gola bordada com a imagem de Joana D’arc. Foi um sucesso. Saiu matéria em TV, jornal, em tudo o que foi lugar. A partir disso, outras mulheres aumentaram o grupo feminino no baque solto. Graças à vontade que essa Cabocla Zefinha teve de se desafiar”, orgulha-se.

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