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Morre, aos 80 anos, a historiadora e educadora Marieta Borges

Como historiadora, Marieta Borges escreveu a mais completa obra sobre o arquipélago de Fernando de Noronha. Ela faleceu neste domingo (15)

Mariana Dantas
Mariana Dantas
Publicado em 15/12/2019 às 12:24
Foto: Acervo JC Imagem
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A educadora, historiadora e poetisa Marieta Borges Lins e Silva faleceu neste domingo (15), aos 80 anos, vítima de câncer, no Hospital Memorial São José, no Recife. Ex-secretária de Educação e também de Cultura de Olinda, Marieta era a responsável pelo resgate documental da história do arquipélago de Fernando de Noronha. O velório será nesta segunda-feira (16), a partir das 7h, na Igreja do Carmo, em Olinda, e será aberto. Às 11h será celebrada uma missa. Já o sepultamento será às 14h na Ordem Terceira da Igreja de São Francisco, também no Sítio Histórico, reservado à família e aos amigos mais próximos. 

A historiadora Marieta Borges escreveu a mais completa obra existente sobre o arquipélago de Fernando de Noronha. O livro “Fernando de Noronha, Cinco Séculos de História” foi lançado inicialmente numa edição comemorativa pela Companhia Energética de Pernambuco e depois republicado, de forma ampliada, pela Editora Universitária da Universidade Federal de Pernambuco. Com quase 600 páginas, a obra detalha não só as belezas naturais mas também toda a história do conjunto de ilhas que já foi presídio, base de guerra, destacamento militar, território nacional e atualmente é distrito estadual de Pernambuco. O administrador do distrito de Fernando de Noronha, Guilherme Rocha, decretou luto oficial por três dias na ilha.

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Foi em 1974 que Marieta iniciou sua pesquisa sobre o Noronha. A princípio seu objetivo era subsidiar as aulas de história dos professores da Escola Arquipélago. Aos poucos apaixonou-se de tal forma pelo lugar ­que mergulhou a fundo no levantamento, reuniu imagens e documentos até na Torre do Tombo, em Portugal; entrevistou ex-presos políticos, antigos moradores e pessoas que serviram na ilha. O projeto de pesquisa contou com o apoio de várias instituições ao longo dos anos - Secretaria de Educação do Estado, Universidade Federal de Pernambuco, Forças Armadas e desde que o arquipélago foi anexado pelo Estado de Pernambuco, ganhou uma divisão especial na Administração do Distrito Estadual de Fernando de Noronha, onde Marieta exercia a função de encarregada pelo resgate documental da história da ilha.

Seu primeiro livro sobre o tema foi “Fernando de Noronha, Lendas e Fatos Pitorescos”, que serviu de enredo à Estação Primeira de Mangueira no Carnaval de 1995. Também organizou o Memorial Noronhense, museu localizado na Vila dos Remédios, centro histórico da ilha principal; além de ter mapeado os principais monumentos e trilhas do local; reunindo documentos e imagens históricas no acervo existente no Escritório da Administração do Distrito Estadual.

Foto: Acervo JC Imagem
Historiadora, Marieta foi responsável pelo resgate da história de Fernando de Noronha - Foto: Acervo JC Imagem
Foto: Acervo JC Imagem
Escreveu a mais completa obra sobre o arquipélago: “Fernando de Noronha, Cinco Séculos de História” - Foto: Acervo JC Imagem
Foto: Acervo JC Imagem
Em sua carreira, foi secretária de Educação e de Turismo e Cultura de Olinda - Foto: Acervo JC Imagem
Foto: acervo pessoal
Marieta trabalhou ao lado de Dom Hélder Câmara, desde os tempos das Obras de Frei Francisco - Foto: acervo pessoal
Vaticano
Em junho, Marieta realizou o sonho de encontrar-se com o papa Francisco, no Vaticano - Vaticano

Além do trabalho com pesquisa histórica, Marieta dedicou a sua vida profissional à educação. Foi Secretária de Educação de Olinda, durante o governo de Germano Coelho iniciado em 1978. Em 1994, quando o professor Germano voltou à prefeitura, ela foi chamada para assumir o cargo de secretária de Cultura e Turismo da cidade. Ensinou nos cursos de magistério de várias escolas particulares do Grande Recife (Santa Maria, Agnes, Regina Pacis, entre outros), foi fundadora e professora da Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso), trabalhou na área técnica da Secretaria da Educação e Cultura do Estado e ainda coordenou os cursos de formação profissional da extinta associação dos bancos públicos estaduais (Asbace). Era integrante do conselho do Centro De Integração Escola-Empresa (CIEE), e do Instituto Histórico de Olinda.

Religião e vida pessoal de Marieta Borges

Muito católica, Marieta trabalhou lado a lado de Dom Hélder Câmara, desde os tempos das Obras de Frei Francisco até a criação do Instituto Dom Helder Câmara, organizado após a morte do arcebispo emérito de Olinda e Recife. Marieta atuou em várias paróquias da arquidiocese, era irmã terceira da ordem franciscana em Olinda e foi uma das idealizadoras do grupo que lutou pela restauração do Convento do Carmo da cidade, hoje totalmente recuperado e que voltou a abrigar frades carmelitas em formação. Era fiel frequentadora das missas das 11h do domingo celebradas naquele templo.

Dona de uma voz marcante e potente, era conhecida na igreja como organizadora de missas e procissões. Ela é autora da letra do hino da padroeira de Fernando de Noronha, Nossa Senhora dos Remédios, e também do hino do Padroeiro de Olinda, São Salvador do Mundo. A fé e vida de cristã praticante poderiam explicar a forma sempre positiva como a pesquisadora encarou a doença. Diagnosticada pela primeira vez com câncer em 2004, mesmo ano em que ficou viúva, Marieta voltaria a enfrentar a doença outras três vezes - nas mamas, no pâncreas e no sistema linfático.

Em junho deste ano, realizou o grande sonho da sua vida, quando encontrou-se frente a frente com o papa Francisco, durante o congresso mundial da Renovação Carismática, de que participou com a delegação da Obra de Maria. Logo depois, teve um AVC e descobriu-se que o câncer de pâncreas voltara de forma agressiva, atacando o sistema linfático. Ela estava internada no Hospital Memorial São José desde o dia 2 de dezembro, quando foi socorrida após levar uma queda em casa.

Marieta Borges, cujo nome de batismo era Maria José Borges Lins e Silva, nasceu no Recife, em 16 de novembro de 1939. Filha de pai português e mãe paraense, cresceu numa família de músicos. Seu irmão, Fernando Borges, já falecido, foi maestro de uma das orquestras mais conhecidas da cidade. Era percussionista, tendo o bongô como seu instrumento favorito. Um dos passatempos preferidos da escritora era fazer poesias, com livros publicados pelas Edições Paulinas ("Cantando o Amor o Ano Inteiro"), e algumas edições independentes e vários livros em literatura de cordel.

Formada em pedagogia, com especialização em história, Marieta casou-se com o também professor Fernando José Lins e Silva, com quem teve três filhas, Maria Luiza, Luciana e Ana Carolina. Adotou ainda uma sobrinha, Andrea, que criou desde bebê. Deixa além das quatro filhas, quatro netos.

Prefeito de Olinda emite nota de pesar

O prefeito de Olinda, professor Lupércio, emitiu nota de pesar pela morte da historiadora Marieta Borges. "Neste momento difícil de perda e dor, quero deixar o meu abraço fraterno para a família e todos os seus admiradores. O seu trabalho valoroso a manterá sempre viva no coração de cada olindense”, disse o gestor. Leia a íntegra da nota: 

O prefeito de Olinda, Professor Lupércio, recebeu com grande pesar, neste domingo (15), a notícia do falecimento da historiadora Marieta Borges, mulher de vanguarda, que deixa um grande legado cultural para a Cidade Patrimônio da Humanidade. Dona de um olhar atento sobre as desigualdades sociais, Marieta construiu, ao longo de toda a vida, uma obra de estudos e pesquisas, participando de movimentos políticos e estudantis. Foi secretária de Educação de Olinda, a partir de 1977, retornando, em 1994, para assumir o cargo de secretária de Cultura e Turismo da cidade. Na sua linha do tempo, orgulhava-se por ser educadora, amante da cultura popular, poeta, cordelista, compositora, percussionista, escritora e palestrante. Uma mulher à frente do seu tempo, que conseguia apaziguar contendas e promover a fusão entre diferentes pontos de vista. Marieta atuou na essência do Carnaval de Olinda, com orquestras e blocos tradicionais da cidade. Também somou forças para a restauração do Convento do Carmo. “Neste momento difícil de perda e dor, quero deixar o meu abraço fraterno para a família e todos os seus admiradores. O seu trabalho valoroso a manterá sempre viva no coração de cada olindense”, solidarizou-se Lupércio.  

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