Saúde

Microcefalia avança em Pernambuco

De seis a 10 recém-nascidos têm chegado todo dia ao Hospital Universitário Oswaldo Cruz com tamanho da cabeça menor que o normal

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 11/11/2015 às 7:24
Guga Matos/JC Imagem
De seis a 10 recém-nascidos têm chegado todo dia ao Hospital Universitário Oswaldo Cruz com tamanho da cabeça menor que o normal - FOTO: Guga Matos/JC Imagem
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O Ambulatório de Infectologia Pediátrica do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc) tem recebido de seis a dez recém-nascidos diariamente com microcefalia, condição em que o tamanho da cabeça é menor do que o normal para a idade. Só na tarde de ontem, quatro famílias foram até a unidade de saúde na esperança de descobrir o que pode ter levado os bebês a desenvolverem essa anomalia congênita.

Leia no Casa Saudável: Microcefalia: Ministério da Saúde e Opas auxiliam Pernambuco na investigação dos novos casos

De agosto até outubro, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) teve conhecimento de 90 recém-nascidos com microcefalia. E desde 27 de outubro, quando foi instituída a notificação compulsória imediata dessa anomalia em Pernambuco, a plataforma do Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde de Pernambuco (Cievs/PE) já tem cadastrados 141 bebês nascidos este ano com microcefalia. Em comparação aos últimos anos, esse número é expressivo (de 2011 a 2014, a média era de nove registros por ano).

“Estamos empenhados numa investigação criteriosa para identificar possíveis causas da alteração no padrão de ocorrência de microcefalia no Estado. Os exames de imagens dos bebês acompanhados mostram que há lesões que fogem do padrão da microcefalia de caráter genético. Identificamos que existem calcificações no cérebro dessas crianças, o que sugere uma anomalia de cunho infeccioso”, explica a pediatra do Huoc Regina Coeli, à frente da investigação epidemiológica na unidade. O Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) é o outro hospital de referência selecionado para o estudo. 

O trabalho segue um protocolo clínico, que foi finalizado ontem para estabelecer critérios de análise dos novos casos. O documento, de 28 páginas, detalha como deve ser o atendimento do recém-nascidos com microcefalia, a fim de uniformizar a investigação. O protocolo, elaborado pela SES e pelo Ministério da Saúde, define o fluxo de atendimento, o diagnóstico, a vigilância e o acompanhamento dos bebês. “O passo seguinte é elaborar, em caráter de urgência, um protocolo para as gestantes que, durante um ultrassom, já receberam a informação de que o filho apresenta o tamanho da cabeça menor do que o normal para a idade gestacional”, diz a a secretária-executiva de Vigilância em Saúde de Pernambuco, Luciana Albuquerque.

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Os dados que a SES tem reunido atualmente levam em consideração só os bebês já nascidos. Ainda não se sabe quantas gestantes, no Estado, já têm conhecimento de que o bebê que esperam provavelmente nascerá com microcefalia, uma condição que pode ser detectada nas ultrassonografias do pré-natal. “Também começamos a estruturar uma rede de atendimento focada no suporte psicológico que precisa ser oferecido a essas famílias. Além disso, pensamos na reabilitação desses bebês, que precisam ser acompanhados por uma equipe interdisciplinar. Para isso, entramos em contato com algumas unidades de saúde, como a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD)”, informa Luciana. 

Apesar de infecções congênitas (aquelas transmitidas pela mãe ao filho durante a gravidez, como toxoplasmose, rubéola e citomegalovírus) entrarem na lista de hipóteses que podem explicar o aumento na incidência da microcefalia, especialistas acreditam que outro agente esteja por trás da atual situação em Pernambuco e investigam uma possível relação entre os casos com a infecção pelos vírus da dengue, chicungunha e zika durante a gestação. Uma nota técnica da Secretaria Executiva de Vigilância em Saúde informa que parte das mães relatou presença de exantema (erupção cutânea com pontos vermelhos) em alguma fase da gestação, mas isso não é o suficiente para fazer relação da microcefalia com as doenças transmitidas pelo Aedes aegypti, especialmente pela zika, que tem o exantema como uma das características.

“Nesse momento, precisamos considerar todas as hipóteses possíveis. Certamente, vamos descobrir o que tem levado a esse aumento no número de casos”, assegura a chefe do Setor de Infectologia Pediátrica do Huoc, Ângela Rocha. A médica ressalta que é difícil indicar agora as possíveis complicações que esses bebês com microcefalia possam apresentar no futuro. Alguns podem apresentar comprometimento cognitivo ou motor, mas isso depende muito de cada caso. 

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