Aedes como gatilho

Estudo investiga relação entre AVC e arboviroses como a dengue

No Hospital da Restauração, dos 160 pacientes com doença neurológica e confirmação de infecção por arboviroses, 20 apresentaram derrame cerebral

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 30/05/2019 às 8:16
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Neste ano, já foram registrados 45.209 casos suspeitos de dengue em 183 municípios pernambucanos - FOTO: PIXABAY
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Novos dados do primeiro estudo científico sobre as complicações neurológicas associadas a chicungunha, zika e dengue revelam uma ampliação na lista de doenças neuroinvasivas que podem ter como gatilho a infecção pelos vírus da tríplice epidemia (anos de 2015 e 2016), também conhecido como vírus da dengue, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti. Nessa relação, está o acidente vascular cerebral (AVC), segundo a chefe do Serviço de Neurologia do Hospital da Restauração (HR), Maria Lúcia Brito. A informação foi compartilhada nesta quarta-feira (29) com profissionais das unidades de urgência e emergência do Estado durante capacitação realizada na Secretaria Estadual de Saúde (SES), no Bongi, Zona Oeste do Recife.

“Os casos de AVC que vimos no HR são referentes à faixa etária mais avançada. Pacientes relatavam infecção viral de sete a dez dias antes do quadro agudo compatível com um AVC. A investigação mostrava uma isquemia e, em alguns casos, hemorragia cerebral. Os exames foram positivos para arbovírus (como zika e chicungunha) e sempre retestados. Entre as manifestações, dificuldade para falar e deglutir”, salienta Maria Lúcia.

A médica explica que os acidentes vasculares têm associação com processos inflamatórios e que essa característica pode levar à compreensão da possibilidade de os vírus terem provocado uma inflamação que desencadeou o quadro de AVC. “O que não sabemos é por que uma pessoa (após a infecção por zika ou chicungunha, por exemplo) evolui com um AVC e outra desenvolve uma neuropatia periférica (como uma doença do sistema imunológico que ataca os nervos das extremidades do corpo). Isso depende da genética de cada um ou da resposta imunológica? É isso que estudamos agora”, esclarece Maria Lúcia.

Ela exemplifica essas particularidades com o caso em que quatro pessoas de uma mesma família adoeceram com quadro de arboviroses. “Três delas tiveram só manifestações clínicas (sintomas como manchas vermelhas no corpo, dores e febre). A outra teve ADEM (sigla para encefalomielite aguda disseminada), seguida por novos episódios e que hoje diagnosticamos como esclerose múltipla. O que ela tem de diferente? É o que investigamos”, acrescenta.

Outros casos

Esse caso de esclerose múltipla não foi o único no HR. “Há outros sete pacientes, pelo menos, que eram sadios, tiveram um quadro que inicialmente chamamos de ADEM e, em seguida, de cinco a sete meses depois, durante o acompanhamento no hospital, tiveram novas queixas neurológicas e foram submetidos à ressonância magnética, que mostrou outras lesões. Isso é que despertou o pensamento para uma possível esclerose múltipla iniciada na vigência de um quadro infeccioso”, frisa a neurologista.

Atualmente o HR continua a receber pacientes com sintomas agudos de arboviroses e outros que, mesmo sem queixas expressivas, apresentam complicações neurológicas. “Uma parte desses casos já tem resultado de positividade para zika ou chicungunha, mas ainda não temos os percentuais. São pacientes com encefalite, ADEM e síndrome de Guillain-Barré. Continua, então, a frequência alta de todas essas condições que, até a tríplice epidemia, não eram muito comuns”, conclui Maria Lúcia.

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