ILHA

Pacientes do único hospital de Fernando de Noronha sofrem para conseguir transferência para o Recife

Homem de 56 anos que precisava ser transferido com urgência esperou 36 horas para ser levado até a capital pernambucana

Marcelo Aprígio
Marcelo Aprígio
Publicado em 12/02/2020 às 13:30
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Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem
População e trade pedem melhorias na infraestrutura e no modelo de turismo da ilha - FOTO: Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem
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Atualizada às 19h04

Depois que um fiscal do Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio) precisou ser transferido de Fernando de Noronha para o Recife por problemas de saúde, veio à tona o drama de quem precisa do Salva Aéreo, como é conhecido o avião de salvamento na ilha. 

O servidor público é Damião Rabelo da Silva, de 56 anos. Ele deu entrada no Hospital São Lucas, o único de Noronha, às 20h20 da segunda-feira (10), com sintomas de infarto. A equipe médica, então, solicitou a transferência do paciente para a capital pernambucana, em caráter de urgência. Apesar da solicitação dos profissionais de saúde, o paciente só foi transferido às 7h desta quarta-feira (12).

O paciente foi levado para o Pronto Socorro Cardiológico de Pernambuco Prof. Luiz Tavares (Procape), no bairro de Santo Amaro, área central do Recife. Segundo a família, os médicos afirmam que o estado de saúde do homem é estável e até esta quinta-feira (13) ele deve passar por um procedimento de cateterismo.

Ao JC, a sobrinha de Damião, Jenyffer Rabelo, 29 anos, afirmou que, segundo a administração da Ilha, a demora no procedimento se deu porque a empresa Easy Táxi Aéreo, que presta serviços de locação de aeronaves para o Governo de Pernambuco por, em média, R$ 41 mil por viagem, estava com a aeronave em manutenção. 

Apesar disso, Jenyffer disse que a família de Damião não ficou satisfeita com a explicação da administração da ilha e entrou em contato com a empresa responsável pela aeronave. Foi neste momento que a família ficou sabendo que a Easy Táxi Aéreo, cuja sede fica em Fortaleza, precisaria terceirizar o serviço por não ter condições de ofertá-lo no momento. Para realizar a transferência do servidor público, a empresa cearense contratou a Brasil Vida Táxi Aéreo, que atua em Goiás, Bahia e São Paulo. 

Quando tudo parecia estar resolvido, Jenyffer recebeu da nova prestadora do serviço que o pagamento referente ao voo ainda não havia sido feito pela Easy Taxi Aéreo e que por isso, não seria possível programar os horários para a transferência de Damião.  

"Oi, Jenyffer, falei agora com o pessoal da Easy e eles ainda não conseguiram realizar a confirmação, pois o pagamento foi negado. Estão em contato com a administradora do cartão, que bloqueou o pagamento devido ao alto valor", disse um funcionário da Brasil Vida em mensagem por WhatsApp a Jenyffer. 

"Somente após a confirmação do pagamento deles que poderemos programar os horários", dizia outra mensagem.

Segundo a sobrinha de Damião, a administração de Noronha não comunicou essas dificuldades à família. Ainda de acordo com ela, as informações que receberam falavam apenas que depois de localizar um avião, foi identificado um problema mecânico nele. Em seguida, após a falha ser solucionada, e decolagem ser autorizada, uma pane na iluminação na pista do aeroporto de Fernando de Noronha impediu o vôo.

O problema de iluminação foi confirmado pela Brasil Vida  a Jenyffer, também pelo WhatsApp. "A questão agora é operacional, pois envolve questões de segurança de vôo e o pessoal do aeroporto não quer aprovar, porque é realmente arriscado operar com o balizamento, luzes na pista de pouso, debilitado", dizia a mensagem.

Outros casos

Na quarta-feira (5), outra paciente precisou do mesmo serviço e, a exemplo de Damião, sofreu com a espera. A idosa Ana Martins da Costa, de 87 anos,  deu entrada no Hospital São Lucas por volta das 21h daquele dia com um quadro de problemas respiratórios que poderia se tornar insuficiência respiratória e, por isso, precisou ser transferida para o Recife com urgência. A espera, porém, durou 20 horas.

Segundo Iana Costa, neta de dona Nanete, como é conhecida a idosa na ilha, dada a gravidade do caso de sua avó, ela foi entubada na unidade de saúde para aguardar a transferência prevista, inicialmente, para acontecer na manhã da quinta-feira (6). No entanto, dona Nanete só foi trazida para o Recife no Salva Aéreo às 17h. “Nós só autorizamos o procedimento porque fomos informados que a UTI aérea chegaria aqui na Ilha ainda no horário da manhã”, disse Iana.

Tivemos que usar a fé e orar para que ela melhorasse.

José Renato, neto de paciente

Outra idosa precisou que a família a trouxesse para o Recife em um vôo comercial. Maria Conceição de Oliveira, 89 anos, foi levada para o Hospital São Lucas em 31 de janeiro de 2020 com um quadro de insuficiencia renal cronica, visto que, desde a infância, ela só tem um rim. Segundo seu neto, José Renato Oliveira, a idosa "chegou bem mal" à unidade de saúde na tarde daquela sexta-feira (31). 

Ainda de acordo com ele, diante das condições de saúde da sua avó, a equipe médica recomendou a transferência dela para o Recife, por volta das 19h, após uma série de exames. O procedimento, porém, não aconteceu.

"Inicialmente nos disseram que o Salva Aéreo chegaria na manhã do dia 1º, não chegou. Alegaram problemas técnicos e nos deram a manhã do domingo (2 de fevereiro de 2020) como a nova data. Mais uma vez não aconteceu", contou José Renato. 

"Tivemos que usar a fé e orar para que ela melhorasse. Graças a Deus, minha avó teve uma melhora significativa e pagamos uma passagem para levar ela para o Recife em um avião comercial", disse ele.

Melhorias no aeroporto 

Desde novembro de 2019, estão previstos recursos de cerca de R$ 8,5 milhões em emendas parlamentares que serão usados na requalificação do aeroporto de Fernando Noronha. Atualmente, a ilha já recebe voos noturnos emergenciais. As operações comerciais à noite, contudo, ainda não estão autorizadas. 

Além da Azul, a Gol tem frequências regulares para Fernando de Noronha.

Contratos da Easy com o Governo

A Easy Táxi Aéreo possui contratos com o Governo de Pernambuco desde 2009. Desde então já foram pagos cerca de R$ 36,1 milhões. 

O ano em que houve mais gastos com a empresa foi 2013, na época, o então governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), morto em um acidente aéreo em 2014, se envolveu numa polêmica ao ver a oposição ao seu governo na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) protocolar um pedido de informação para ter acesso ao detalhamento dos gastos de sua gestão com deslocamento em helicópteros e aviões fretados. 

A iniciativa teve como base os dados divulgados, na coluna JC Negócios, indicando que o governo estadual destinou R$ 5,173 milhões à cobertura desse tipo de despesa desde 2012.  De acordo com os registros do Portal da Transparência, foram desembolsados R$ 3,1 milhões ao longo de 2012 e R$ 4,3 milhões em 2013.

O que diz a Secretaria de Saúde do Estado?

"A Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE) informa que mantém contrato com empresa de taxi aéreo para realizar, com segurança e seguindo todos os fluxos assistenciais, transferência de pacientes do Arquipélago de Fernando de Noronha para o Recife. O paciente, quando é admitido no Hospital São Lucas (HSL) em situação de emergência, é avaliado por uma junta médica. Nos casos onde há a necessidade de avaliação, monitorização, ou quando não há condições de transferência por meio de voo comercial, a equipe médica do HSL entra em contato com a Central de Leitos e solicita uma vaga no hospital de referência no Recife. Em seguida, a Central de Leitos verifica a disponibilidade de vaga e é feita a solicitação de salvamento aéreo.

No caso do paciente citado, na tarde da última segunda-feira (10/02), foi solicitada a transferência do mesmo para o Procape. De imediato, a SES-PE acionou a empresa para efetivar a remoção. No entanto, a aeronave encontrava-se em manutenção. Desde esse momento, a SES-PE, que mantém repasses regulares à empresa, fez gestão para solucionar a situação no menor tempo possível. E, na própria tarde de ontem (11/02), uma aeronave foi encaminhada para o Arquipélago, mas não teve condições de pouso. No início da manhã desta quarta-feira (12/02), foi possível cumprir o plano de voo e o paciente foi transferido para o Recife. O mesmo está em observação na emergência do Procape e seu estado de saúde é estável.

Por fim, a Secretaria Estadual de Saúde ressalta que o paciente recebeu toda a assistência necessária no Hospital São Lucas e não teve seu quadro clínico prejudicado pela espera da aeronave. Além disso, a SES-PE informa que está com credenciamento aberto para que outras empresas de taxi aéreo possam prestar este serviço."

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