Temporada

Gregorio Duvivier apresenta Uma noite na lua no Recife

Em cartaz na Zona Sul, texto é obra-prima do pernambucano João Falcão

Bruno Albertim
Bruno Albertim
Publicado em 04/12/2014 às 5:08
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Em cartaz na Zona Sul, texto é obra-prima do pernambucano João Falcão - FOTO: Divulgação
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Não foi apenas pela já costumeira falta de pauta nos teatros do Recife que Gregório Duvivier, herói do humor rock’ n’ roll e acidamente sociológico do fenômeno Porta dos Fundos, não trouxe antes seu mais recente espetáculo ao Recife. Só quando conseguiu patrocínio para uma temporada verdadeiramente popular, encampou o estágio de Uma noite na lua na cidade.

O monólogo foi escrito e dirigido pelo sogro pernambucano João Falcão. “Eu sou muito a favor de ingressos populares, o teatro ficou caro, distante da plateia, e meu sonho é formar plateias. O teatro deve ser para as multidões”, diz o artista, militante. Com patrocínio da mesma Petrobras onipresente no noticiário político do País, Duvivier apresenta, amanhã e sábado, com sessões duplas a cada dia, no Teatro Luiz Mendonça em Boa Viagem. O ingresso custa R$ 20 a inteira e R$ 10 a meia entrada.

“Eu e João queríamos muito vir ao Recife, demoramos um pouco para conseguir pauta e só queríamos vir se fosse para fazer direito, num teatro bom. Recife é uma cidade pela qual eu tenho muito respeito, com uma tradição bem forte de teatro”, diz o ator e escritor, amigo e fã de locais de outras áreas como Tibério Azul, Victor Araújo e Kléber Mendonça Filho. “Gosto muito desse cinema político feito no Recife, preocupado com a verticalização excessiva, que faz contraposição aos tubarões imobiliários. É uma briga meio perdida, mas importante”.

Cria do teatro antes de estourar na internet e, mais recentemente, na TV, Duvivier tem nas experiências mais democratizadas suas melhores memórias afetivas de artes cênicas. “Vi coisas incríveis do (grupo mineiro) Galpão na rua, todo mundo junto, até mendigo assistindo. Como também as peças nas temporadas populares dos teatros municipais do Rio de Janeiro. Antes, a gente enchia uma sala para mil pessoas. Hoje, são cinquenta pessoas numa sala para mil. Acabou virando um círculo vicioso, de que o teatro deve ser para gente rica. Não é isso, teatro bom é teatro lotado. Como quando João Falcão fez A máquina, diz. Duvivier tinha apenas 12 anos quando Marco Nanini encerrou a temporada de quase sete como a voz e o corpo da primeira montagem de Uma noite na lua. Não viu. “Mas ele veio me ver no teatro e foi muito emocionante para mim”, diz ele, dono de um prêmio de melhor ator da Associação de Produtores Teatrais do Rio de Janeiro, em 2013, pelo espetáculo com o qual circula o País há já três anos.

Diretor habituado a talhar o talento de gente como Marieta Severo e Andrea Beltrão, responsável também por dar de presente ao Brasil os atores Lázaro Ramos e Wagner Moura depois de A máquina, foi o próprio João Falcão quem sugeriu o texto a Gregório Duvivier. “O João me falou que o texto era minha cara, li e achei o melhor texto que eu já tinha lido em toda minha vida”, diz. “Passa pela comédia, pelo thriller, pelo suspense, por todos os gêneros teatrais. Pensei: meu Deus, como é que eu não escrevi isso! Já que não escrevi, resolvi que faria como ator”. Após três anos de estrada, peça chega ao Recife com produção local da Luni. A sensação de Divivier é mais ou menos a mesma a do personagem no texto: um escritor martirizado por não ter escrito nada genial depois de Shakespeare ou Beckett. Que se sente traído, aliás, pelos gênios terem aparecido antes dele. Numa noite, numa festa, oferece um texto a um ator mais ou menos conhecido. Mas não tem peça nenhuma e vive o martírio de escrevê-la às pressas, também para impressionar a ex-mulher, sobre constante de sua memória afetiva.

“A peça é uma reflexão sobre o teatro, mas também uma história de amor. João Falcão é o melhor dramaturgo que conheço, não apenas porque é meu sogro (risos), mas ele não tem nenhuma peça que não seja muito inovadora, muito revolucionária, nunca vi ele fazer uma peça normal”. Depois de anos de improvisos a partir do próprio umbigo, o espetáculo é a primeira oportunidade de Gregório investir na atuação sobre um texto dramatúrgico mais elaborado e não autocentrado. O que não significa o abandono do stand-up que, de Porchat a Paulo Gustavo, é a marca distintiva de sua geração. “O stand-up é muito franciscano, mais barato, fácil de produzir e de viajar, vai continuar por muito tempo”, diz. “Mas nem por isso é mais fácil, é grande a responsabilidade do ator de ter que também escrever e manter toda a atenção em si”, diz ele. Solicitado como nunca, Gregório se disciplina pelo relógio. Toda semana, escreve uma crônica para a Folha de S.Paulo e três esquetes para o Porta dos Fundos. Sua última contribuição para a TV aberta foi a redação do seriado global Louco por elas. “Só funciono bem se tiver prazos”, diz ele, que se preocupa sempre em escrever algo com validade além do dia da publicação. “Procuro, assim, pensar sempre no que pode ter alguma graça não apenas no dia da publicação, mas tempos depois”, diz ele, adepto do expediente de compilar textos de ficção e crônicas posteriormente em livro. Amanhã à tarde, na Cultura, ele autografa Put some farofa, editado pela Cia. das Letras, sua nova uma coletânea de inéditos e já publicados.

As ameaças judiciais de setores religiosos e políticos mais radicais fizeram o Porta dos fundos manter um atento departamento jurídico. Mas não intimidaram o processo criativo. “Não me preocupo com as sanções, a gente se preocupa mais com nosso critério pessoal e nosso bom-senso, quando a gente faz uma coisa que tem tanta aprovação da opinião pública, com cinco milhões de acesos, assim, estamos meio respaldados. Mas não nos preocupamos com o jurídico, por que assim não poderíamos jamais falar o nome de deputados, de figuras religiosas, de marcas”, diz o ator que, nestes dias do Recife, dá um tempo no riso mais polêmico para exibir seu estágio na lua.

Uma noite na lua, com Gregório Duvivier. Texto e direção: João Falcão. Teatro Luiz Mendonça, Parque Dona Lindu. Av. Boa Viagem, s/nº. Amanhã, 20h e 21h30; e sábado, 19h e 21h. Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), na Avesso (fone 3441-1241) e na bilheteria do teatro nos dias dos espetáculos a partir das 14h.

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