CÊNICAS

Morre aos 91 anos a crítica teatral Barbara Heliodora, no Rio

Ela estava hospitalizada desde o dia 21 de março no Hospital Samaritano

Nelson de Sá
Nelson de Sá
Publicado em 10/04/2015 às 11:17
Guga Melgar/Divulgação
Ela estava hospitalizada desde o dia 21 de março no Hospital Samaritano - FOTO: Guga Melgar/Divulgação
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A crítica de teatro Barbara Heliodora morreu aos 91 anos, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada na manhã desta sexta-feira (10/4) pelo hospital Samaritano, onde ela estava hospitalizada desde 21 de março. A causa da morte ainda não foi divulgada.

Uma das críticas mais temidas do teatro, Heliodora é considerada a maior especialista em William Shakespeare do Brasil e traduziu várias de suas peças.

Começou a carreira como crítica teatral, foi diretora do Serviço Nacional de Teatro e professora de história de teatro no Conservatório Nacional de Teatro e no Centro de Letras e Artes da Uni-Rio.

TRAJETÓRIA

Quando deixou a crítica, em janeiro de 2014, Barbara Heliodora afirmou ter nascido para ser público. Declarou-se fã do talento criador, acrescentando que ela mesma não tinha, "infelizmente". Não que não tenha tentado, aqui e ali.

Filha de Anna Amélia Carneiro de Mendonça, tradutora de Shakespeare e fundadora com Paschoal Carlos Magno da Casa do Estudante do Brasil, no Rio, Heliodora chegou a interpretar a rainha Gertrudes na histórica montagem de Hamlet pelo Teatro do Estudante do Brasil (TEB) de Paschoal, em 1948.

Também foi no TEB que ela viu aos 15 anos Romeu e Julieta, em 1938, seu primeiro Shakespeare, dramaturgo que seria uma paixão de toda a sua vida. Traduziu, entre outras peças dele, Sonho de uma noite de verão e O mercador de veneza, mas não Hamlet, por considerar insuperável o trabalho da mãe.

O autor inglês também inspirou sua principal obra teórica, A expressão dramática do homem político em Shakespeare, de 1978, em que analisa as chamadas peças históricas e as considera um gênero criado pelo próprio Shakespeare.

Mas foi como crítica de imprensa que Heliodora se tornou mais conhecida. Começou em 1957 na Tribuna de Imprensa, de Carlos Lacerda, e pouco depois se transferiu para o Jornal do Brasil.

Sua geração de críticos teatrais no Rio, que contava também com Paulo Francis, no Diário Carioca, e Henrique Oscar, no Diário de Notícias, foi mais exigente e agressiva do que a anterior, liderada por Paschoal no Correio da Manhã, então o maior jornal do país.

BANDEIRAS

Em 1964, dois meses depois do golpe, ela foi nomeada pelo governo Castello Branco para dirigir o Serviço Nacional de Teatro e deixou a imprensa. Ficou três anos no SNT, chegando a dar aulas de teatro aos censores.

Passou também a ensinar teatro no Conservatório Nacional e depois na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). Só voltaria à crítica regular depois de quase duas décadas, em 1985, primeiro na revista Visão, em seguida já no jornal O Globo, onde permaneceu até 31 de dezembro de 2013.

Na segunda fase de sua trajetória como crítica, bateu-se por maior respeito ao texto e contra a onipotência do diretor, mas também assumiu bandeiras inusitadas, como a defesa persistente que fez do besteirol, no final dos anos 1980 e início dos 90.

Passou a ser questionada pela virulência com que escrevia contra espetáculos que a desagradavam e por supostas preferências, por amigos como Fernanda Montenegro e Miguel Falabella. Mas persistiu, comparecendo estoicamente aos teatros, inclusive para ver peças de grupos iniciantes.

"Vejo coisas horríveis", contou ela, rindo, às vésperas de deixar a crítica. Até poucos anos antes, ainda era possível vê-la caminhando, sozinha pelas ruas, entre um espetáculo e outro na maratona do Festival de Teatro de Curitiba.

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