Adaptação

Feminismo e humor ácido dão o tom de 'A Mulher Que Escreveu a Bíblia'

Espetáculo protagonizado por Inez Viana ganha sessões na Caixa Cultural Recife

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 25/05/2017 às 12:28
Divulgação
Espetáculo protagonizado por Inez Viana ganha sessões na Caixa Cultural Recife - Divulgação
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A história da humanidade como conhecemos parte de um recorte muito específico e majoritariamente machista e eurocêntrico. Dessa forma, as narrativas das minorias costumam ser ocultadas, situação que tem (ainda que lentamente) se transformado nas últimas décadas. É com grandes doses de ironia que essa questão é abordada pelo autor Moacyr Scliar no livro A Mulher que Escreveu a Bíblia, cuja adaptação para os palcos protagonizada por Inez Viana retorna ao Recife, a partir de quinta-feira (25), na Caixa Cultural.

Durante uma sessão de regressão, a personagem de Inez Viana descobre que era uma das 700 esposas do rei Salomão. Considerada a mais feia delas, era menosprezada por sua aparência, porém sua intelectualidade e sagacidade chamavam a atenção em meio a uma sociedade machista. Única capaz de ler e escrever, ela recebe a missão de colocar no papel a história de seu povo. Porém, sua visão crítica da sociedade e do papel da mulher nela provoca a ira de conservadores.

“O interessante é que ela conta sobre o que está ao redor a partir do seu ponto de vista e ela é uma feminista, então é natural que tenha uma percepção crítica. Ela começa a questionar os fatos da Bíblia, enquanto os anciões querem ditar a história, que, infelizmente, acaba prevalecendo e é a versão machista que a gente conhece. A história é machista, como podemos perceber pela ausência das mulheres, negros e outros minorias nos grandes relatos”, reforça a atriz que interpreta dez personagens em cena.

Dirigido por Guilherme Piva, o monólogo adapta o livro de Moacyr Scliar sem adicionar palavras, apenas enxugando o necessário para dar dinamicidade à encenação. Essa missão ficou a cargo de Thereza Falcão.
Com humor ácido, o espetáculo circula o país há dez anos e tinha entre seus admiradores Ariano Suassuna, com quem Inez manteve forte ligação profissional. Em 1999, ela dirigiu o documentário Cavalgada à Pedra do Reino, além de fundar o Festival Ariano Suassuna, levando também aos palcos a peça As Conchambranças de Quaderna.

TRILOGIA

Prolífica, Inez Viana dirige a companhia Omondé (RJ), cujo repertório aborda com ênfase questões sociopolíticas, a exemplo de Nem Mesmo Todo Oceano, ambientada na ditadura militar. Outro trabalho de destaque é Mata Teu Pai, adaptação de Medeia escrita por Grace Passô, estrelada por Débora Lamm e dirigida por Grace.

“O espetáculo é um soco no estômago. Medeia é um símbolo muito forte porque ela demanda direitos que ela não tem. É um trabalho importante para discutir questões relacionadas ao papel da mulher na sociedade”, explica.

A paixão de Inez pelo texto é tamanha que ela pretende desenvolver uma trilogia a partir da dramaturgia de Passô, composta, além da peça, por um espetáculo de dança e uma ópera.

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