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Crítica: Magiluth faz seu Hamlet antropofágico na peça Dinamarca

Grupo pernambucano cria peça com identidade própria e trata de questões urgentes

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 03/08/2017 às 14:13
Bruna Valença/Divulgação
Grupo pernambucano cria peça com identidade própria e trata de questões urgentes - FOTO: Bruna Valença/Divulgação
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Um dos grandes ensinamentos que a noite pode propiciar é o de que a festa, uma hora, tem que acabar. Porém, muitas vezes, ainda que nossos instintos nos digam que está na hora de pedir o uber e ir para casa; que nosso corpo fatigado avise que já não é mais possível dançar, que não há mais piadas a serem ditas, flertes a serem lançados e recebidos, insistimos. É numa festa onde os convidados não sabem a hora de se recolher que é ambientado Dinamarca, espetáculo do Magiluth que estreou ontem, no Teatro Marco Camarotti.

Assim como já é característico nos trabalhos do Magiluth, em Dinamarca o público penetra no espetáculo no instante em que põe os pés no espaço cênico. A audiência é parte integral daquele jogo. A música pop toca nas alturas enquanto os anfitriões, sorridentes, distribuem espumantes para os convidados que acabam de chegar.

Estamos na Dinamarca. Mas onde fica a Dinamarca, o que é a Dinamarca? Os anfitriões não sabem especificar. Aliás, geografia não é algo que importa muito pois ser dinamarquês, no espetáculo, significa pertencer a uma estirpe diferenciada, top, de primeiro mundo.

O grupo brinca com essas construções sociais a todo instante e esse é um dos aspectos mais interessantes do trabalho. Os atores encaram a plateia afirmando “somos brancos”, “temos olhos azuis, cabelos ruivos”. O que se vê é completamente distinto, mas na contemporaneidade, quanto da verdade não é legitimada pelo discurso? “Se eu digo, eu sou?”, parecem instigar.

DNA PRÓPRIO

Apesar de não ser uma adaptação literal de Hamlet, a peça do grupo pernambucano faz referências constantes à escrita de Shakespeare. O príncipe que nunca foi, a festa que esconde o que já está putrefato, os fantasmas que assombram: está tudo lá, só que mastigado e transformado em uma obra singular, cheia de referências pop e sotaque pernambucano.

O elenco, formado por Giordano Castro, Mário Sérgio Cabral, Lucas Torres, Erivaldo Oliveira e Bruno Parmera tem vigor e transita entre os diferentes humores propostos pela dramaturgia e pela encenação com naturalidade. Pedro Wagner, na função de diretor, mostra segurança e domínio cênico, construindo imagens simples, mas impactantes.

Durante a maior parte do trabalho, a dramaturgia de Giordano consegue inserir as questões de forma incisiva. Essa sensação só começa a se esvair perto do final, quando se prolongam temas que o público já assimilou, mas que vão sendo retomadas com um certo didatismo.

Em um paralelo com o Brasil contemporâneo, Dinamarca mostra que, para as elites, o banquete pode continuar contanto que não se discuta política, religião, questões de gênero, injustiças sociais e raciais, entre outros assuntos. Lá fora, há um tumulto, princípios de uma revolta, mas não importa, porque, na cabeça deles, “a massa”, os não-dinamarqueses, jamais ocuparão os salões. Uma hora, porém, a festa sempre acaba.

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