MERCADO DE ARTE

Livro sobre o marchand Carlos Ranulpho é lançado pela Cepe

Carlos Ranulpho, o Mercador da Beleza é uma reportagem biográfica escrita pelo jornalista Marcelo Pereira

Márcio Bastos
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Márcio Bastos
Publicado em 25/08/2018 às 10:04
ALEXANDRE GONDIM/ACERVO JC IMAGEM
Jornalista Marcelo Pereira - FOTO: ALEXANDRE GONDIM/ACERVO JC IMAGEM
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Não é exagero dizer que o mercado de arte em Pernambuco se divide entre o antes e o depois de Carlos Ranulpho. O marchand com 50 anos dedicados à comercialização e promoção da arte, foi figura fundamental na profissionalização da atividade em Pernambuco e, nesse processo, incentivou a produção de artistas consagrados como Vicente do Rego Monteiro, Wellington Virgolino, Reynaldo Fonseca, entre outros mestres. A trajetória desse empreendedor nato é, portanto, indissociável de um momento pulsante das artes plásticas, como revela o livro Carlos Ranulpho, o Mercador da Beleza (Cepe Editora, 247 páginas, R$ 80), escrito pelo jornalista Marcelo Pereira, que é lançada quinta-feira (30/8), às 19h, com uma exposição comemorativa com 24 artistas.

Como o título da obra bem captura, a reportagem biográfica ajuda a traçar o perfil de um homem cuja vida foi dedicada à sua atividade profissional. Desde a infância, revelava um tino comercial, revendendo gibis, bolas de gudes e rifas juninas, por exemplo, instinto que seria aperfeiçoado ao longo da vida.

"Seu pai, J. Ranulpho, apesar de ser um artista conhecido no Recife, tendo atuado como cartunista em vários veículos, não tinha muitas posses. Quando ele adoeceu por conta da tuberculose, Ranulpho precisou começar a trabalhar ainda adolescente para sustentar a família. Ele tinha um espírito nato para os negócios e é o que podemos chamar de um self-made man", explica Marcelo.

Ranulpho cresceu no centro de um Recife de comércio e vida cultural efervescentes. Seguindo a tradição da cidade dos mascates, começou a atuar como prestamista, vendendo cortes de tecidos e, posteriormente, passou a comercializar relógios e joias. Muito habilidoso, logo ganhou a confiança dos fornecedores e criou uma clientela fiel, especialmente de funcionários de repartições públicas.

"Apesar dessa vocação, Ranulpho não se construiu sozinho. Ele contou sempre com o apoio de Maria Dulce, sua esposa. Casaram-se jovens, aos 21 anos, e ela tem um papel importante na carreira dele, pois tinha muito bom gosto, o que viria a ser um trunfo nos empreendimentos dele", reforça.

Os negócios prosperavam: ele estabelece-se em um ponto fixo, no Edifício Tereza Cristina, às margens do Capibaribe, onde abre a It Presentes. Lá, encontrava-se joias, cristais, pratarias, entre outros produtos refinados. O sucesso do empreendimento leva Ranulpho, Maria Dulce e o filho do casal, Filipe Carlos, a morarem no Rio de Janeiro, e lá ele adquire o hábito de frequentar galerias de arte e leilões. Nessa época, adquire o primeiro quadro, uma obra de Lula Cardoso Ayres.

"Ranulpho era sagaz. Entendeu a importância de fidelizar a clientela, investiu na mídia, inclusive na televisão, que ainda não era tão popular. E também se arriscou, como mostra sua inserção no mundo da arte, expondo quadros do pintor primitivo cearense Chico da Silva. Depois, faz uma coletiva e não para mais. Ele entendeu que vender quadros era um negócio tão interessante quanto comercializar joias", pontua o escritor.

O MARCHAND

O Recife tinha um mercado de arte incipiente quando Ranulpho realizou a primeira exposição como galerista. A partir dele, a atividade de marchand ganha caráter de profissionalização. Ele nunca tentou assumir o papel de mecenas, deixando claro seu lugar de "comerciante da arte".

Isso, no entanto, não faz com que sua relação com as obras e os artistas seja estritamente comercial, inclusive com o estabelecimento de relações de amizade e incentivo com alguns deles, como ressalta Bete Gouveia, professora da UFPE, no prefácio do livro. Com particular interesse pelo modernismo, por sua galeria passaram nomes como Vicente do Rego Monteiro, Lula Cardoso Ayres, Teruz, Reynaldo, Brennand, Virgolino, José Cláudio, pintores naïf, como Alcides Santos, além de artistas populares, a exemplo de J. Borges e Mestre Dezinho. Paralelamente, ele não deixou de abrir espaço a novos artistas, como Rinaldo Silva, Edson Menezes, e, mais recentemente, Raphael Guerra.

"Ranulpho foi criticado por trabalhar com muitos artistas de fora, como o gaúcho Carlos Scliar, mas isso se dava porque os daqui o viam com desconfiança por ele ser um 'comerciante' e não 'do mundo da arte'. Aos poucos, essa visão mudou. Ele é muito correto em sua relação com os artistas e não gosta de com consignação, prefere comprar as obras. Ranulpho também investia muito na promoção de seus artistas, como no caso de Virgolino e Vicente, e os promovia nacionalmente", enfatiza.

Ao longo de sua trajetória, Ranulpho possuiu galerias em Boa Viagem, nos Jardins, em São Paulo, e, desde 2001, ocupa um casarão no Bairro do Recife. Sobrevivente das mudanças do voraz mercado de arte, Ranulpho, aos 89 anos, continua ativo, inquieto e criativo em suas atividades de galerista.

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