Pinturas

Renato Valle celebra sua trajetória com obras inéditas

Artista visual abre 'Revisão da Pintura' na Arte Plural Galeria

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 15/10/2019 às 12:59
Leo Motta/JC Imagem
Artista visual abre 'Revisão da Pintura' na Arte Plural Galeria - FOTO: Leo Motta/JC Imagem
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Olhar sua carreira em retrospectiva é, para Renato Valle, um processo não só de avaliar a construção de uma técnica (ou, no caso, várias, já que sua obra é múltipla e transita pelo desenho, pintura, fotografia e escultura), mas também de temáticas que atravessam quatro décadas de criação. Em Revisão da Pintura, exposição que abre terça-feira (15), às 19h, na Arte Plural Galeria, o artista visual utiliza esse material poético para apresentar 19 obras inéditas e carregadas de símbolos caros à sua trajetória.

Essas reflexões sobre a passagem do tempo ganharam força em 2018, quando o artista completou 60 anos de idade e 40 de sua primeira exposição. Naquele ano, sua filha também completava 20 anos. Ainda que se diga pouco ligado às questões numerológicas, Renato não deixou de ficar intrigado com as datas redondas.

“Mexeu muito com a minha cabeça. Comecei a pensar nas coisas que fiz e não gostei e também nas que fiz e gostei. Nisso, resolvi trabalhar esse lado mais otimista porque, não sei se sou realista demais ou pessimista muitas vezes, mas eu disse: fiz 40 anos da minha primeira exposição, nunca trabalhei em outra coisa, nunca tive outra atividade. Então, por mais que tenha havido dificuldades, sou privilegiado. Chegar aqui inteiro, vivo, trabalhando no que sempre quis, é um privilégio”, reflete.

Muito da produção de Renato Valle nos anos 1980 e 1990 foi com pintura em tinta óleo. Mas essa faceta é pouco conhecida por muita gente, como ele mesmo ressalta. Ele pontua que algumas pessoas se surpreendem quando sabem de suas pinturas, pois acham que sua obra é majoritariamente em desenho.

Nesta exposição, ele produziu exclusivamente pinturas a óleo. Entre as obras, em tamanhos diversos, há dois polípticos, um composto por quatro telas e outro com doze, baseados na série Cristos e Anticristos (que aqui não tem conotação religiosa, como uma dicotomia do bem e do mal, mas da disposição das imagens: umas estão voltadas para cima, outras, para baixo), apresentada em 2012.

Outros exemplos são a obra Máquina de Fazer Fumaça, que evoca a exposição Objetos Inúteis, que ocupou a Galeria Vicente do Rego Monteiro em 1996, e duas telas que evocam a mostra Escritos Sobre Pinturas Ruins, na qual ele reuniu trabalhos dos quais não gostava e, neles, inseriu textos, ressignificando-os.

Essa preocupação em dialogar com temáticas como a religiosidade, o humano – no sentido da figura como também da subjetividade – está impressa em todas as obras, como a impressionante imagem de um bebê retratada na tela Solaris.

TRAÇOS E CORES

Perfeccionista, Renato Valle conta que trabalha sua pintura em camadas. Demora-se em cada tela e trabalha em várias obras ao mesmo tempo. O que pode parecer uma atenção fragmentada, na verdade, é parte de seu processo para oxigenar as ideias, não viciar o olhar. O cuidado com seu trabalho, refletido também na sua busca obstinada pela concretização de sua visão. Trabalha a cor e o traço até atingir o ideal, em uma entrega total ao seu fazer.

“Fico observando, volto para uma tela, trabalho ela, depois deixo em um canto e vou para outra. Já cheguei a ter cinco, seis telas ao mesmo tempo”, lembra. “Sou muito monástico: moro e trabalho no mesmo lugar. Estou sempre pensando no trabalho, às vezes acordo durante a noite, vou beber água e, no caminho, vejo uma tela e tenho uma ideia, começo a trabalhar nela”.

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