CINEMA

Clima esquenta em Cannes com novos filmes de Loznitsa e irmãos Safdie

Good Time e Krotkaya animaram os debates e a fé no bom cinema

Ernesto Barros
Ernesto Barros
Publicado em 25/05/2017 às 11:47
Divulgação
Good Time e Krotkaya animaram os debates e a fé no bom cinema - Divulgação
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No Festival de Cannes também é assim: basta um dia com uma noite no meio para as esperanças no cinema renascerem. Nesta quinta-feira (25/5) não foi diferente, com as sessões dos longas-metragens Good Time, dos irmãos Josh e Ben Safdie, e Krotkaya, do bielorusso Sergei Loznitsa – crias de Cannes que deram uma sacudida no marasmo da Seleção Oficial.

Good Time pegou a plateia ressabiada de tantas pedreiras e se deu bem. O filme é realmente muito bom e traz uma surpreendente interpretação de Robert Pattinson, o rapaz que é mais conhecido pela saga Crepúsculo. Os irmãos Safdie estiveram na Quinzena dos Realizadores por dois anos seguidos, no final da década passada, e voltaram direto para a Seleção Oficial.

De certa maneira, eles aliam a antropologia das ruas de Sidney Lumet com a adrenalina visceral dos filmes de Samuel Fuller, para contar a história dos irmãos Connie (Pattinson) e Nick (Ben Safdie, também ator e roteirista). Não sabemos muito sobre eles, com exceção de que Nick é intelectualmente prejudicado. Connie arranca o irmão de um teste de capacitação e, juntos, tentam roubar um banco do Queens à luz do dia.

O plano dá errado e eles acabam se separando, com Nick preso e Connie em fuga. O sentido de imprevisibilidade que Josh e Ben imprimem a partir do roubo deixa os espectadores sem fôlego e sem capacidade de adivinhar a próxima cena. A velocidade da narrativa acompanha a fuga de Connie, suas tentativas de encontrar o irmão e os erros se acumulam pelo caminho. Os irmãos cineastas fazem bonito até o fim, sem dores e sem arrependimento.

SERGEI LOZNITSA

Em Krotkaya, pela primeira vez, Loznitsa lida com uma protagonista. Na verdade, ele se inspirou numa história de Dostoiévski, já utilizada por Robert Bresson, em 1969, cujo título no Brasil é Uma Mulher Delicada. Sem dúvida, a mulher sem nome do filme é simples e delicada, calada e tranquila. A atriz Vasilina Makovsteva, estreante nas telas, está perfeita em sua composição serena, que mais reage do que age.

Não se trata de um filme de fácil degustação, mas quem aguentar o banquete até o fim não terá do que reclamar.  Sergei Loznitsa, tanto em seus documentários quanto em suas ficções, é um cineasta que preza pela a verdade acima de tudo. Em Krotkaya não é diferente. Mas o cinema dele não é só discurso. É técnica também, que se traduz num filme de extrema modernidade, com um olhar muito ligado à pintura. Oleg Mutu, o diretor de fotografia dos seus três longas e de quase todos os grandes filmes romenos, mais uma vez dá um show ao impedir que os espectadores não fechem olhos nem diante da dor nem da beleza.

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