CINEMA

Kleber Mendonça Filho faz barulho em Gramado

Cineasta apresentou seu primeiro longa-metragem em um festival brasileiro

Ernesto Barros
Ernesto Barros
Publicado em 18/08/2012 às 13:14
Cineasta apresentou seu primeiro longa-metragem em um festival brasileiro FOTO:
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A expectativa em torno da exibição de O som ao redor no Festival de Cinema de Gramado era tanta que nem mesmo a interrupção da sessão oficial do filme, na noite de quinta-feira (16/08), atrapalhou sua calorosa recepção. Uma caixa de som estourou a cerca de 40 minutos do final e centenas de espectadores - uma das maiores plateias de todo o festival - ficaram com um gosto de decepção na boca.

Na sexta, o longa-metragem de estreia do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho foi à forra: ganhou duas exibições no Palácio dos Festivais - uma às 10h e outra às 14h - quando finalmente pôde ser ovacionado pelo público presente (na sessão da manhã, a plateia era formada majoritariamente por jornalistas e pessoas ligadas aos outros filmes que estão participando das mostras competitivas).

Antes de chegar a Gramado, O som ao redor fez uma longa peregrinação pelo mundo. Desde janeiro que o filme vem angariando prêmios e elogios nos mais distintos festivais internacionais de cinema - da Holanda à Austrália, da Suíça aos Estados Unidos, onde estreia comercialmente na próxima sexta-feira com direito a duas páginas de destaque no jornal New York Times.

Se o público e a crítica estrangeira foram os primeiros a ter acesso à visão crítica de Kleber em relação à disputa de classes, à violência atávica e ao crescimento desordenado do Recife, isso não diminuiu o impacto que o filme causou em Gramado durante a sua primeira exibição no Brasil.

As várias tramas que compõem o mosaico social de O som ao redor captam o aqui e agora do Recife da mesma maneira que uma radiografia descobre uma doença. Com o rigor de cirurgião, Kleber expõe, sem meios termos, o tecido social gangrenado de uma sociedade verticalizada onde o poder do mais forte não está mais imune às revoltas do extrato humano que sempre viveu de cabeça baixa.

RACISMO

Durante a coletiva de imprensa, que contou com Kleber e parte da equipe do filme – entre eles a produtora Emilie Lesclaux e os atores Irandhir Santos, Lula Terra, Maeve Jinkings e W.J. Solha -, questões sociais que estão na ordem do dia – seja no Recife ou em qualquer grande cidade do Brasil - estiveram em exposição devido ao teor político de O som ao redor. “Sou filho de uma historiadora que estudou o fim da escravidão no Brasil, no final do século 19, e viu que a sociedade brasileira da época não se preparou para receber estes novos cidadãos. A sociedade brasileira é racista sem nunca usar a palavra racismo”, afirmou o cineasta.

A visão das ruas do bairro de Setúbal, onde se passa a maior parte da trama, e do seu contraste com os arranha-céus de Boa Viagem também foram debatidas por Kleber. “Há vários bairros interessantes no Recife, mas Setúbal não é um deles – trata-se de um’ “"não-lugar"’ com pessoas. O filme é fruto da minha observação. Como fotografo muito, eu já tinha a ideia de onde colocar a câmera. Atualmente, como o Recife em geral, Setúbal é um canteiro de obras. Mas, o que acho mais legal é que o pessoal ligado às artes está contra este estado de coisas”, comentou.

A próxima parada de O som ao redor no Brasil é no Festival de Brasília, onde vai ganhar uma exibição especial. O filme será distribuído pela Vitrine Filme, mas ainda não tem data de estreia. Para a sua trajetória junto ao público e de olho na bilheteria, pela urgência do seu tema, quanto mais cedo entrar em cartaz, melhor.

 O jornalista viajou a convite da produção do Festival de Gramado

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