CINEMA

Cláudio Assis é vaiado em Brasilia, mas Big Jato triunfa

Bêbado de paixão e rock´n roll, filme é para ser visto com o coração sangrando e ouvdos abertos

Ernesto Barros*
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Ernesto Barros*
Publicado em 20/09/2015 às 3:09
Ernesto Barros/Especial para a JCImagem
Bêbado de paixão e rock´n roll, filme é para ser visto com o coração sangrando e ouvdos abertos - FOTO: Ernesto Barros/Especial para a JCImagem
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Quem esperava o óbvio na primeira exibição de Big Jato, de Cláudio Assis, no Festival de Brasília, na noite deste sábado (19/8), nunca esteve tão certo. Assim que subiu ao palco do Cine Brasília, acompanhado da grande equipe que participou do filme, uma plateia intolerante não deixou o cineasta pernambucano falar, com gritos de “machista”, “não passarão” e uma vaia ensurdecedora. A confusão em que Cláudio, ao lado de Lírio Ferreira, ambos bêbados, se meteram durante um debate com a cineasta Anna Muylart, após a exibição do filme Que Horas Ela Volta?, no Cinema do Museu, no dia 29 agosto, virou caso nacional.

Cláudio, além de banido de qualquer ação da Fundação Joaquim Nabuco, foi transformado agora em Judas da Semana Santa. Para contornar a situação, o ator Matheus Nachtergaele, protagonista do filme, chamou o elenco jovem de Big Jato que, segundo ele, estava dando seu primeiro voo no cinema. A boa retórica do ator surtiu efeito e ele foi bastante aplaudido. Claudio ainda tentou falar no final, mas foi novamente impedido. Sob qualquer ângulo, esta não poderia ter sido a melhor maneira de o público dar o seu veredicto ao comportamento do cineasta. Seria melhor não vir à sessão e deixar o cinema vazio.

Apesar desaprovação inicial a Cláudio Assis, quando o filme terminou os aplausos foram superiores às vaias. Durante a projeção, o público não se manisfestou negativamente uma vez sequer, mas riu das mazelas da tresloucadas família de Xico (Francisco de Assis Moraes, na infância; Rafael Nicácio, na adolescência), um menino apaixonado e metido a poeta, que ajuda o pai, Francisco (Matheus Nachtergaele), a limpar fossas na pequena cidade de Peixe de Pedra.

Fictícia, a cidade é um símbolo da vida agreste dessa família condenada a se eternizar como fóssil. A paisagem da Vila de Cimbres, em Pesqueira, e do Parque Nacional da Serra do Catimbau, antigo Vale do Catimbau, no agreste pernambucano, dão ao filme uma identidade única.

Ao contrário de Amarelo Manga e Baixio das Bestas, ambos marcados por uma grande quantidade de personagens, numa estrutura quase coral, Big Jato é um filme irmão de A Febre do Rato, o penúltimo filme de Cláudio Assis. Em ambos, o mundo é visto pelos olhos de um poeta. Adaptado do romance homônimo de Xico Sá, pelas mãos hábeis de Hilton Lacerda e Ana Carolina Francisco, temos agora um poeta em formação. Zizo e Xico, poetas penalizados pela paixão, o sexo e a palavra. Graças a arte do cinema, os verdadeiros Xico e Zizo se reencontram no tempo e no espaço, como se habitassem a calçada da Livro 7 (antiga livraria do Centro do Recife) ou um corredor do CAC – Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Filho caçula, Xico, além de acompanhar o pai, morre de adoração pelo tio Nelson (Matheus Nachtergaele), um radialista boêmio que inventou uma mentira sobre Os Betos, uma banda de rock da região, que teria influenciado os Beatles. A canção Let it Lie serve como moto perpétuo dessa herança musical. Impulsionado por esse tio anárquico e roqueiro, Xico percebe que aquele lugar não é para ele. Paradodiando uma máxima nordestina, Nelson diz para o sobrinho que “sertanejo forte é quele que parte, não o que fica”. Mas até tomar uma atitude, Xico enfrentará o pai, um alcoólatra inveterado, e sofrerá pelo amor não correspondido de Ana Paula (Pally Siqueira).

Por baixo de pesados óculos de grau, Xico enxerga o mundo com lentes distorcidas, além de ver figuras que só habitam a sua imaginação, como o imponente Ribamar da Beira Fresca (o cantor Jards Macalé), que discute com ele poesia e outros absurdos. Homenagem a um personagem mítico de Juazeiro do Norte, no Ceará, cuja fama chegou até o Crato, terra natal do escritor e comentarista de TV cearense Xico Sá, o Ribamar do filme, na verdade, tem caracteristica também de Aroldo, o poeta, um escritor recifense que tinha como musa uma poeta portuguesa morta há mais de 100 anos.

Um filme bêbado de paixão e rock´n roll, Big Jato é o mais esperançoso filme de Cláudio Assis. Assim como o Antoine Doniel de François Truffaut, em Os Incompreendidos, Xico só completará seu ciclo quando se vê diante do mar. Com o olho clínico de sempre, o cineasta nunca erra ao escalar o seu elenco. Interpretando dois personagens, Matheus Nachtergaele é um forte candidado ao Candango de Melhor Ator. Marcélia Cartaxo, como a mãe de Xico e mais três filhos, também foi outra escolha perfeita. Tecnicamente, Big Jato é irreprensível. A fotografia de Marcello Durst, que já havia trabalhado com Cláudio em Soneto do Desmantelo Blue, no começo dos anos 1990, é de uma beleza arrebatadorra, ainda mais perceptível porque foi capturada em película. Mas quem costura toda essa trama de desejos, amores, álcool e rock´n roll é o DJ Dolores, com uma trilha hipnótica, irreverente e rica em tessituras. Embebido de prosa e poesia, Big Jato é um filme para se ver com o coração sangrando e ouvidos abertos. Let it Lie!!

* O repórter viajou a convite da organização do Festival de Brasília.

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