CANNES

Aquarius: os desvios do capitalismo pelo destino de uma mulher

"Aquarius fala do fato de viver sua vida como se quer, sem seguir as ordens daqueles que têm interesses comerciais", declarou Kleber Mendonça Filho

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Publicado em 17/05/2016 às 17:10
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"Aquarius fala do fato de viver sua vida como se quer, sem seguir as ordens daqueles que têm interesses comerciais", declarou Kleber Mendonça Filho - FOTO: Valery Hache/AFP
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Em "Aquarius", apresentado em competição em Cannes nesta terça-feira (17), o brasileiro Kleber Mendonça Filho se questiona sobre os excessos do capitalismo no Brasil pelo retrato de uma mulher livre, com opiniões próprias e rebelde, vivida pela atriz Sônia Braga.

O filme acompanha o destino da sessentona Clara, uma crítica de música aposentada. Viúva e mãe de três filhos, ela vive em Recife, em um prédio dos anos 1940, o "Aquarius", cercada de suas lembranças e de seus velhos discos de vinil.

Mesmo depois de uma construtora comprar todos os apartamentos do edifício, ela ainda se recusa, obstinadamente, a vender o seu. Entra em uma guerra com a empresa, que busca fazê-la ceder de todas as maneiras.

"O filme fala do fato de viver sua vida como se quer, sem seguir as ordens daqueles que têm interesses comerciais", declarou Filho, de 47, em entrevista à AFP.

Esse é seu segundo longa desde "O som ao redor", de 2012.

"Clara é uma mulher forte, que vive sua vida e deve enfrentar a pressão de pessoas que têm seus projetos", acrescentou.

"Ela está no caminho delas, mas tem uma personalidade forte e um forte senso da história e do patrimônio", completou.

No filme, a personagem-título, que se define como "uma velha dama e uma criança, às vezes os dois", busca preservar seu estilo de vida.

"A situação, na qual ela se encontra, a pressão, a luta, as imposições de 'não fazer isso', eu vi muito isso, no Brasil e na minha vida. É uma mistura das nossas duas personalidades", disse Sônia, de 65 anos, à AFP.

Com esse retrato, construído em três etapas, Kleber Mendonça Filho se questiona, indiretamente, sobre os desvios do capitalismo no Brasil contemporâneo.

"Seu papel no filme é muito político, mas não acho que ela discuta política abertamente no filme", analisou o diretor.

"É um filme político, mas não no sentido clássico, porque ele fala de coisas em uma escala muito pequena", acrescentou.

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