MOSTRA DE CINEMA

Cinema alemão em destaque no Cinema da Fundação

Sala do Museu, em Casa Forte, recebe mostra de três filmes recentes da cinematografia alemã

Ernesto Barros
Ernesto Barros
Publicado em 31/05/2019 às 6:02
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Instituto Goethe/Divulgação
Sala do Museu, em Casa Forte, recebe mostra de três filmes recentes da cinematografia alemã - FOTO: Instituto Goethe/Divulgação
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A pequena mostra Especial do Cinema Alemão, desta sexta-feira (31/5) até domingo (2/6), no Cinema da Fundação/Museu, em Casa Forte, em colaboração com o Consulado Alemão, é composta por três longas-metragens, dentre os quatro que representaram o País na Berlinale 2018. Embora a imprensa alemã tenha lamentado a falta de prêmios naquele ano, a seleção teve forte recepção da crítica, tanto internacional quanto da Alemanha, com um dos filmes – Em Trânsito (Transit, 2018), de Christian Petzold – tendo sido exibido em vários países, inclusive o Brasil.

É verdade que três filmes, mesmo que tenham participado de um festival como a Berlinale, não conseguem dar uma visão completa de uma cinematografia. Mas, individualmente, cada um tem seu valor e merecem ser vistos, ainda mais que serão exibidos uma única vez na tela grande e com entrada gratuita. Entretanto, pelo menos dois têm algo em comum: a presença de ator Franz Rogowski, que protagoniza tanto Em Trânsito quanto em Nos Corredores (In den Gängen). Uma das jovens estrelas do cinema alemão, o ator parece um híbrido entre Joaquin Phoenix e Vincent Gallo – como disse o cineasta americano Sean Baker, de Projeto Flórida (The Florida Project, 2017) e Tangerina (Tangerine, 2015).

O primeiro a ser exibido, às 20h, é o drama social Nos Corredores, de Thomas Stuber, que retrata o universo de operários de um supermercado de uma área oriental de Berlim. O cenário principal, onde empregados e fregueses circulam, são os longos corredores, onde tudo parece viver sob as leis da ordem e no seu devido lugar.

O personagem central do filme é Christian (Rogowski), um jovem calado – tão calado que sua afazia enerva os colegas –, que é contratado para renovar os estoques de bebidas. Thomas Stuber apresenta o personagem sempre no começo de um novo turno, a partir de detalhes de um ritual onde ele arruma a vestimenta de trabalho para cobrir suas tatuagens nos braços e no pescoço. A rígida concepção visual do filme, quase matemática, em que planificação, ritmo e interpretação estão inextricavelmente interligados, parece se estender à despersonalização imposta pelo trabalho.

Durante o período de experiência, a despeito de toda a imposição do espaço frio e impessoal, Christian abre-se mais em virtude da amizades que estabelece com Bruno (Peter Kurth), que lhe ensina o difícil manejo das empilhadeiras, e da aproximação com Marion (Sandra Hüller, a workaholic de Toni Erdmann), que trabalha no corredor de doces e inicia com ele uma relação de intimidade. Rico em observações e dotado de uma linguagem peculiar, Nos Corredores é um filme incomum e surpreendente.

Ao contrário de Nos Corredores, Em Trânsito, que vai passar no domingo (2/6), às 18h, é o retrato da imprecisão. Christian Petzold desenvolve a narrativa, capitaneada por Georg (Rogowski), um homem que tenta fugir da França ocupada, ao se deslocar de Paris para Marselha, sem avisos prévios aos espectadores. É quase um choque para se perceber que o filme, embora conte uma história situada em 1940, se passa no momento atual, sem que cenários, carros, roupas ou adereços remetam ao passado.

Essa estranheza, entretanto, é justamente o efeito que Petzold queria criar, ao adaptar a história da escritora francesa Anne Seghers: mostrar como aqueles personagens só existem no interstício da espera, enquanto sonham com um trem que irá levá-los para algum lugar seguro, onde outras pessoas, amantes ou amigos, estariam lhes esperando.

A possibilidade da história de amor entre Georg e Marie (Paula Beer), mesmo que ele tenha ficado com o nome e o salvo conduto do marido que ela esta à espera, é uma polaroide dos tempos incertos, já evocados pelo diretor em Fênix (2014) e Bárbara (2012), que formam uma trilogia à sua maneira.

ROMY SCHNEIDER

O terceiro longa-metragem, que será exibido amanhã, às 20h05, é o tocante 3 Dias em Quiberon (3 Tage in Quiberon), de Emily Attef, a reconstituição de uma entrevista que a atriz Romy Schneider deu a dois jornalistas da revista Stern, durante um período em que estava internada numa clínica de reabilitação, na costa francesa, em 1981. Imersa numa depressão profunda, logo após o suicídio do marido e entregue ao álcool, Romy tentava retomar a carreira e o convívio dos filhos, ainda crianças.

Ainda vista com maus olhos pela imprensa alemã, desde quando abandonou o país para se radicar na França, ela é colocada no canto da parede pelo jornalista Michael Jürgs (Robert Gwisdek), que a obriga a revelar a situação em que estava: “Uma infeliz mulher de 42 anos”, diz. A atriz Marie Bäumer, uma sósia de Romy, faz valer cada minuto do filme.

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