JOÃO GUIMARÃES ROSA

"Grande Sertão: veredas" ganha versão em quadrinhos

Clássico da literatura nacional, o romance foi adaptado pelas mãos de Eloar Guazzelli e Rodrigo Rosa e virou edição de luxo

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 18/01/2015 às 4:52
Rodrigo Rosa/Divulgação
FOTO: Rodrigo Rosa/Divulgação
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Assim como o Sertão, o romance Grande Sertão: veredas, obra-prima do mineiro João Guimarães Rosa, também é o mundo, é em toda parte, é dentro da gente, é sem lugar, é o sozinho. Uma das narrativas mais tocantes e trabalhadas da literatura brasileira, o volume é tão amado quanto respeitado – e, justamente por isso, considerado quase irretocável. Recriar ou inventar em cima de um livro tão icônico parece, na melhor das hipóteses, risco desnecessário.

Viver, no entanto, é muito perigoso, e a vida quer da gente coragem. Dois quadrinistas gaúchos, Eloar Guazzelli e Rodrigo Rosa, aceitaram o desafio proposto de contarem em HQ a história de Riobaldo, da guerra entre jagunços, o amor por Diadorim e a existência do diabo. Grande Sertão: veredas – graphic novel (Biblioteca Azul) foi publicado no final ano passado, em uma edição caprichada e com tiragem limitada de 7 mil exemplares. Uma versão ousada, com qualquer adaptação do clássico teria que ser.

No volume, com 180 páginas, reduz bastante as mais de 600 do romance – a principal dificuldade, segundo o roteirista Eloar Guazzelli. Experiente em adaptações, ele precisou, para poder cortar com coerência, colocar os acontecimentos em ordem cronológica, em oposição às deliciosas idas e vindas do pensamento de Riobaldo. Não sem uma boa dose de sofrimento, boa parte das elucubrações do personagem-narrador foram postas de lado, assim como algumas histórias paralelas. “Eu tive que cometer o crime de retirar coisas da obra”, define Eloar.

Rodrigo Rosa/Divulgação
Páginas da adaptação para os quadrinhos de Grande Sertão: veredas - Rodrigo Rosa/Divulgação
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Páginas da adaptação para os quadrinhos de Grande Sertão: veredas - Rodrigo Rosa/Divulgação
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Páginas da adaptação para os quadrinhos de Grande Sertão: veredas - Rodrigo Rosa/Divulgação
Rodrigo Rosa/Divulgação
Páginas da adaptação para os quadrinhos de Grande Sertão: veredas - Rodrigo Rosa/Divulgação

 

A adaptação, no entanto, não transfigura a obra. A linguagem do autor mineiro está presente, em diálogos e na narração de Riobaldo. “Se você se deixa entrar, entende porque o livro é um dos melhores já escritos. Não acho uma prosa difícil, é mais o gesto de se acostumar a um sotaque, a uma voz”, conta o roteirista. “Adaptá-lo é um grande problema e uma grande responsabilidade. Eu tinha a opção de recusar – a tentação era de largar o projeto porque era muito difícil. Mas o próprio livro é sobre a coragem, sobre tomar uma decisão, e ele me deu a resposta que eu precisava”, conta. “Homem?”, diz o romance, “É coisa que treme”.

Ele compara a estrutura de Grande Sertão: veredas à de outro clássico da literatura, Dom Quixote – ambos têm uma trama mais ampla, a travessia de um personagem, mas com vários episódios paralelos. “É um tratado filosófico, um tratado sobre o brasileiro e sua cultura e condição. E também é um western magnífico”, define Eloar. Num dos enfrentamentos de jagunços, Guimarães Rosa descreve o circundar da confusão: “O senhor sabe: quando bala raciocina”. Compor a narrativa com imagens, também permitiu fazer sequência e cenários bonitos, interpretações que fazem da HQ uma obra com força própria. “Foi o caso de aceitar a ideia sem sacralizar, porque se não eu travaria”, comenta.

Eloar considera o momento das HQs nacionais “um dos melhores da história”. “Existe uma quantidade grande de lançamentos, e as adaptações aqueceram o mercado e o deixaram mais profissional. Não é Paris, mas é melhor que há duas décadas – e olhe que sou extremamente crítico”, avalia. Para este ano trabalha em duas adaptações, além de projetos pessoais: O Bem-Amado, de Dias Gomes, com roteiro e desenhos seus, e Vidas secas, de Graciliano Ramos, parceria com Arnaldo Branco e ilustrações suas.

O quadrinista Rodrigo Rosa, responsável pelos desenhos do volume, precisou encarar a criação de quase 200 páginas – uma verdadeira travessia. “O fato de haver muitas cenas com tropas de cavaleiros (cavalos são sempre um problema para desenhar) e ter de dar muita atenção aos aspectos das mudanças de paisagens também exigiram bastante”, analisa. Em compensação, por se tratar de uma obra relativamente contemporânea, foi mais fácil achar imagens que ajudassem a compor cenários e roupas.

O desenhista também encarou um desafio imenso: o de criar uma imagem de Diadorim, jagunço amigo de Riobaldo que se revela uma mulher no decorrer da obra – ela, conta o narrador, é sua “neblina”. Rodrigo tentou capturar a dubiedade da personagem, evitando também que se parecesse com Bruna Lombardi, protagonista da minissérie da Globo baseada no livro. “Foram várias tentativas até que o personagem saísse com seu aspecto andrógino e ao mesmo tempo belo, como se refere o livro. Um visual que deixasse a dúvida...”, explica. “A mesma coisa vale para a presença do diabo, sempre mais sugerida que revelada. Manter a ambiguidade da obra era essencial para o sucesso da adaptação.”

Do roteiro, Eloar guarda só um arrependimento: ter cortado a história de uma carta que uma prostituta manda para Riobaldo, por meio de um tropeiro, que vai a esmo no Sertão procurar o jagunço. “O livro não diz muito sobre ela, mas é genial um homem precisar percorrer o Sertão para entregar uma carta”, narra. A HQ é uma bela realização – sintética e particular, é claro – do romance, e também funciona como uma prova da sua força: mostra que na obra de Guimarães Rosa até as histórias quase insignificantes cativam completamente os leitores.

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