OBITUÁRIOS

Quando o jornalismo utiliza a morte para falar da vida

Os obituaristas são figuras tradicionais no jornalismo e já ganharam até coletâneas e status literário

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 12/04/2015 às 7:39
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Os obituaristas são figuras tradicionais no jornalismo e já ganharam até coletâneas e status literário - FOTO: Divulgação
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Todos dos dias, logo depois de preparar o seu café da manhã, o repórter Alden Whitman, do New York Times, dava início a rotina de ler jornais. Metódico e calmo, o jornalista só levantava as sobrancelhas de leve ao ver notícias sobre a doença ou o sumiço de uma pessoa famosa. Anotava esses fatos mentalmente e partia para a redação. ?A morte está na mente de Whitman enquanto ele vai de metrô rumo a Times Square?, descreveu Gay Talese, mestre do jornalismo literário, em um perfil dedicado ao repórter. Sim, todos os dias, Whitman se sentava em sua cadeira e começava o interminável trabalho de escrever sobre a morte dos outros.

Ele era um obituarista, ou seja, um repórter que se dedica exclusivamente a criar ? às vezes, com antecedência ? os textos que noticiam a morte de alguém, condensando sua importância, seus maiores feitos e sua personalidade. O gênero, que tem tratamento especial nos grandes jornais americanos e ingleses, é cercado por todos os lados da ideia de morbidez (o título do perfil de Talese citado acima, não por acaso, é Sr. Má Notícia), ainda que raramente seja sensacionalista ou intrusivo demais. Possui até espaço fixo em veículos impressos lá de fora; muitas vezes, uma das páginas mais lidas de qualquer edição.

A editora Três Estrelas reuniu alguns do melhores textos brasileiros do formato no volume Um dia, uma vida ? Seleção de obituários da Folha de S. Paulo, organizado por Leão Serva. Alternando entre fatos pouco conhecidos da vida de famosos, mostrar a beleza e a tragédia de vidas quase anônimas, a obra traz 150 histórias fundamentais sobre ? e o editor do livro faz questão de ressaltar isto ? a vida.

?O obituário não é um texto sobre a morte. Ele celebra uma biografia interessante ao invés de velar uma morte?, define Leão. Colunista do jornal, ele lembra que só a partir de 2007 a Folha de S. Paulo começou a ter uma sessão fixa para esse gênero jornalístico, buscando falar de pessoas inspiradoras. Existia, até então, um mito, que dizia que os brasileiros não se interessavam por histórias sóbrias sobre a morte, talvez por uma herança ibérica de relacionar a perda de alguém a um sofrimento incontornável. O fato é que, ainda agora, a seção Um dia, uma vida é uma das mais populares do impresso.

?Se dois amigos se encontram numa padaria um pouco depois da morte de um conhecido em comum, eles vão comentar aquela perda lembrando de uma história marcante, de um traço engraçado ou genial, de algo que aconteceu com a pessoa. O bom obituário se foca nessas histórias?, explica Leão. Em um dos clássicos do gênero, O livro das vidas ? Obituários do New York Times (Companhia das Letras), o editor Matinas Suzuki Jr. aponta que o obituário deve ser entendido uma ?ode à vida?.

No posfácio da obra, Matinas lembra da dica do editor de obituários do NY Times, Bill McDonald: ?de certa maneira, os melhores obituários são aqueles que nos falam de pessoas sobre as quais nós nunca tínhamos ouvido falar, e nos deixam chateados por não termos tido a chance de conhecê-las?. Gay Talese, no seu perfil famoso, brinca com o que as pessoas buscam em obituários; eles são procurados ?por leitores que têm uma curiosidade mórbida, leitores que procuram pistas para entender o mistério da vida, leitores que procuram apartamentos vagos?.

PAUTADOS POR DEUS
Um obituarista, Richard Pearson, cunhou uma frase que é tida como o lema da atividade: ?Deus é o meu pauteiro?. Alden Whitman, repórter da área no New York Times, imortalizado por Gay Talese, tentava se preparar para inconvenientes, a exemplos de mortes de figuras famosas já perto do horário do jornal ser impresso (a hora ideal para se morrer e ganhar destaque, o editor Abe Rosenthal dizia, era até as 14h, porque haveria tempo de reservar um bom espaço e apurar o material). Enquanto Whitman estava na função, o jornal nova-iorquino tinha um acervo com textos e informações sobre 2 mil pessoas.

Parece uma lógica cruel, mas se trata, em geral, de uma forma de respeitar figuras públicas, garantido que o que será falado sobre elas será justo, preciso e único. O curioso é que, apesar dos textos ficarem lá prontos, as pessoas retratadas não podem ler o que será publicado depois da sua morte ? talvez porque quase ninguém está preparado para contemplar a sua imagem e, pior, a sua ausência no mundo.

O escritor americano Ernest Hemingway foi um caso raro de homem que pôde ler dezenas de obituários seus. Dado como morto em um acidente de avião na África, pôde conferir o que todos falariam dele pelas suas costas (eram, em geral, elogios, claro). Brincava dizendo que criou o hábito de, vez ou outra, ler um dos obituários tomando uma taça de champanhe. Talese conta ainda outra história: ?Muitos anos atrás, quando um editor do Times se recuperou de um ataque do coração, o repórter que escrevera o obituário mostrou-o ao próprio, para que corrigisse os erros e omissões. O editor o leu. Naquela noite ele teve outro ataque do coração.?

Quem escreve obituários diariamente começa a conviver com um problema singular, uma espécie de astigmatismo: passa a achar que pessoas que já têm o texto pronto morreram de fato. Whitman, por exemplo, referia-se a alguns nome já perfilados no passado, mesmo que tivessem escapado temporariamente da morte. Além disso, o repórter confessava uma frustração secreta: ?depois de ter escrito um belo obituário com a pessoa ainda viva, seu orgulho de redator é tão grande que mal consegue esperar que a pessoa caia morta para poder ver sua obra-prima impressa?. Talvez não existe uma vontade de homenagear alguém que seja mais cruel que essa.

No filme Closer ? perto demais (2004), o personagem de Jude Law trabalha escrevendo sobre os mortes, na indesejada função apelidada pelos seus colegas de ?Sibéria do jornalismo?. Apesar do ambiente mórbido que se imagina para a área, ela alcançou certo prestígio, especialmente nos Estados Unidos, país em que os obituários foram ganhando certo status literário. Escrevê-los ? podendo focar-se em detalhes da vida de desconhecidos ou figuras ilustres ? tornou-se uma desculpa para escapar da aridez de outros textos.

Em Um dia, uma vida, é possível notar isso. Os textos têm uma limitação de tamanho ? em geral, ocupam só uma página ? mas se permitem fugir de uma famosa ?regra? do jornalismo: o lead, que obriga um texto a começar deixando claro as suas informações básicas (o quê, quando, como, onde e por que). Nos textos da coletânea, o ?padrão? é outro. Eles começam falando da vida das pessoas para, só no final, falarem das circunstâncias da morte e das informações de herdeiros. A vida, no fim de tudo, é o mais importante.

Outro traço característico dos obituários, aponta Matinas Suzuki Jr., é o uso de eufemismos. Eles eram comuns na época em que as próprias famílias amaciavam aspectos da vida do falecido, e passaram a ser usados em jornais por uma questão de respeito, especialmente nos jornais britânicos. Matinas conta que os eufemismos ? para a morte, traços de caráter ou seja lá o que for ? se tornaram com o tempo um mecanismo de linguagem do gênero, um pequeno prazer oculto. Não só é mais elegante falar que alguém com problemas de alcoolismo era ?festivo?; é também mais irônico e ainda abre mais de possibilidades para escrita.

?A língua dos obits passou a ser uma espécie de brincadeira de esconde-esconde?, conta Matinas no posfácio de O livro das vidas, dizendo que os obituaristas se gabavam da sua capacidade de servir ironias ?em bandejas de prata?. Hugh Massingberd, obituarista londrino e autor do Dicionário da maneira suave de dizer as coisas, vai até o extremo: diz que há como se amenizar (de forma irônica, claro) até a relação de um morto com o nazismo; basta descrevê-lo como uma pessoa ?sem entusiasmo perceptível pelos direitos civis?.

Os perfis de Um dia, uma vida, no entanto, buscam sofisticações, mas sem eufemismos. Como destaca Leão Serva, no perfil do jornalista Paulo de Carvalho Patarra, fundador da revista Realidade, o texto fala abertamente do tabagismo do personagem, uma das causas do câncer na garganta que matou o repórter. Mas, no final do texto, há uma frase que define bem o personagem, com precisão e poesia: ?Deu a última tragada entrando no hospital, onde retirou as cordas vocais?.

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