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Agualusa conduz em livro uma viagem imaginária pelo céu

A Vida no Céu, novo romance do escritor angolano, une aventura à narrativa poética

Adriana Victor
Adriana Victor
Publicado em 19/07/2015 às 7:18
Rosa Cunha/Divulgação
A Vida no Céu, novo romance do escritor angolano, une aventura à narrativa poética - FOTO: Rosa Cunha/Divulgação
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A ficção literária atinge o seu objetivo maior quando consegue nos conduzir a um tempo e a lugares que, antes, só existiam na criação imaginária de seus autores. O escritor angolano José Eduardo Agualusa pode, então, comemorar: em A Vida no Céu, seu novo livro, ele nos transporta, com a maestria dos que sabem lapidar ideias, palavra a palavra, para um mundo estranho e crível – pelo menos nas páginas do livro cujo subtítulo é Romance para Jovens e Outros Sonhadores. Ao pressupormos que os “outros sonhadores” somos todos nós, sim, trata-se de um livro sem delimitação de idade. E dos bons.

“Depois que o mundo acabou, fomos para o céu. O Grande Desastre – o Dilúvio – aconteceu há mais de 30 anos. O mar cresceu e engoliu a terra. A temperatura na superfície tornou-se intolerável.” É nesse mundo imaginário de Agualusa que os sobreviventes vivem suspensos, abrigados em dirigíveis que foram transformados em cidades flutuantes. Cada um deles recebeu nomes de lugares que existiram em terra firme: Xangai, Nova Iorque, São Paulo, Tóquio... Os mais pobres moram em balões presos por cordas; balsas são meio de transporte.

O narrador, Carlos Benjamim Tucano, 16 anos, vive em Luanda, uma aldeia-biblioteca. “Livros são árvores que aprenderam a falar”, declara, em um dos trechos do romance. Mas o jovem precisa deixar Luanda quando decide procurar o seu pai, desaparecido durante uma tempestade. 

Carlos vai encontrá-lo no dirigível Paris. É também lá que se apaixona por Aimée, uma jovem destemida e louca para soltar as suas próprias amarras. Unindo as aventuras da dupla à poesia em estado sincero e cativante, Agualusa nos guia por seu universo entre nuvens: “As redes e os cabos de aço, pintados com tinta fosforescente – vermelhos, os cabos, amarelas, as redes –, brilhavam na escuridão. Poderia se dizer que as redes eram concebidas para capturar estrelas”. 

Segue inventando um mundo novo e fazendo, cada vez mais, com que mergulhemos nele. Aqui e ali, salpicam afirmações que servem à reflexão: “Sabemos que crescemos quando começamos a temer a morte”. Ou “meu pai ensinou-me que a violência é sempre uma capitulação da inteligência. Temos que nos defender com a cabeça”.

Com graduação em agronomia e silvicultura – ciência que se destina à recuperação de florestas – há que se esperar, no livro de Agualusa, ecologista confesso, críticas diretas à forma como temos tratado os nossos recursos naturais. Também há espaço para a crítica social: “Não invejo a vida dos ricos. Sim, eles se alimentam melhor do que nós. (...) Em contrapartida, padecem de um tédio infindo, o que se configura, a mim, a pior das condenações”, afirma o narrador. “Nós não sabemos como vivem os pobres. Acho que preferimos não saber”, admite Aimée. 

Os Estados Unidos levam uma ou outra bordoada. O tema da migração, fica claro, o instiga sobremaneira e ocupa parte da publicação. “Volte para a sua balsa. Paris é para os parisienses”, retruca um personagem “do mal”.

É encantador como o autor usa uma linguagem única para conduzir a sua teia de tramas, criando uma combinação precisa de prosa poética. “Guiado pelo coração, Júlio contornou tempestades e iludiu as correntezas do céu”; “Ninguém finca raízes nas nuvens”. Para cada abertura de capítulo, há uma definição de seu título: “Luz: é o que fica dos sonhos depois que nos atravessam”.

ANCESTRALIDADE

Com livros traduzidos em 25 idiomas e laços familiares luso-brasileiros, José Eduardo Agualusa viveu no Brasil, entre o Rio de Janeiro e Pernambuco, entre 1998 e 2000. O País está presente no romance: São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília e Recife são lugares do céu. A ilha verde, a terra firme perdida que todos passam a buscar, corresponde à Floresta Amazônica. Sabemos disso quando ela é, enfim, encontrada.

A aventura do universo suspenso deve agradar aos jovens, seu público primeiro: lá estão retratadas, por exemplo, a internet e as redes sociais. Mas, salvo engano, Agualusa não faz nada para agradar – o que faz é pela crença: na vida e na literatura. 

A Vida no Céu, de José Eduardo Agualusa – Editora Melhoramentos, 128 páginas, R$ 46 (E-book: R$ 29)

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