PROSA

Livro do Nobel da Literatura Ivan Búnin mostra tragédia do amor

O autor russo tem seu romance O Amor de Mítia lançado no Brasil com tradução de Boris Schnaiderman

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 08/05/2016 às 5:27
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O autor russo tem seu romance O Amor de Mítia lançado no Brasil com tradução de Boris Schnaiderman - FOTO: Reprodução
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Na primeira frase do livro, o leitor já sabe: o dia 9 de março foi o “último dia feliz de Mítia em Moscou”. Uma narrativa de ares trágicos nem sempre precisa de guerras, profecias incontornáveis e conspirações: basta uma tristeza, dessas corriqueiras, com vocação para um grande drama. O pequeno romance O Amor de Mítia (Editora 34), do escritor russo Ivan Búnin, primeiro Nobel da Literatura do seu país, poderia ser uma singela história de uma decepção amorosa de homem. Transforme esse homem num adolescente apaixonado pela primeira vez e você terá uma prosa sobre uma pessoa diante do seu próprio abismo íntimo.

Mítia é um jovem estudante em Moscou, bancado por sua rica família. O livro, traduzido por Boris Schnaiderman, já se inicia falando do relacionamento problemático dele com a aspirante a atriz Kátia, uma mulher dúbia nos seus sentimentos – ela se declara dizendo misteriosamente que, “apesar de tudo”, o jovem é o melhor de todos para ela. O conflito entre os dois surge tanto das evasivas da adolescente como da dissimulação imaginada (que o leitor brasileiro bem conhece em Machado de Assis) por Mítia, um ser possuído, como Búnin aponta com ironia sutil, pela “sensibilidade infalível dos ciumentos”.

Nas férias, Mítia precisa voltar para as vastas terras da sua família, que são administradas por sua mãe. Kátia ignora suas cartas, não importa o quanto ele escreva. Longe dela, seu amor encontra ainda mais espaço para se manifestar: está nos momentos vazios, nas idas aos correios, nas mudanças de estação. “Tudo no mundo passou a parecer desnecessário, doloroso e tanto mais doloroso e desnecessário quanto mais belo”, descreve o narrador na obra.

É na paisagem russa que Búnin derrama com mais beleza e força a sua linguagem. Mesmo depois de se estabelecer em Paris com sua mulher em 1920, quando já era um autor consagrado, que tinha admiradores como Rilke, Nabokov e Thomas Mann, ele ainda faria dos cenários um personagem intenso das duas narrativa. Em O Amor de Mítia, não há aquela relação romântica de equivalência de sentimentos e natureza: a natureza, insistindo em ser bela diante de um homem triste, chega a ser opressora.

Mítia tenta se distrair lendo ou procurando uma camponesa para perder a virgindade, mas os esforços são vãos. No fim, Búnin descreve, o jovem se sente “um sonâmbulo”, alguém que segue em direção ao abismo mesmo sabendo da morte. O amor adolescente e a desilusão são banais; mas só um grande escritor sabe mostrar o lado trágico disso sem cair no patético.

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