CRÍTICA

Em Guerra de Ninguém, Sidney Rocha fala da substância da morte

Com 22 contos, obra traz linguagem depurada e um mergulho nas guerras e violências de seus personagens

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 29/11/2016 às 5:57
Anny Stone/Divulgação
Com 22 contos, obra traz linguagem depurada e um mergulho nas guerras e violências de seus personagens - FOTO: Anny Stone/Divulgação
Leitura:

A guerra não é a higiene do mundo, como acreditavam os artistas futuristas: parece muito mais ser o exame que confirma o diagnóstico de sua podridão. Não é a glória feita de sangue, é o sangue, antes de tudo. Ao mesmo tempo, o que resta da nossa ideia do homem e da humanidade sem ela? Não combatemos todos as nossas guerras, muito além das que são grandes e mundiais, nos frontes cotidianos, íntimos, imaginados?

Nos contos de Guerra de Ninguém, Sidney Rocha (leia entrevista com o autor) elenca conflitos reais, homens mutilados, assassinatos, balas perdidas, suicídios, figuras histórias, obsessões. Suas batalhas são protagonizadas por ninguéns, mesmo quando eles são homens famosos, como Ninjisky, Emiliano Zapata, Gandhi ou Frei Caneca. É o elemento de ninguém que cada um tem dentro de si que interessa ao autor.

Os dois primeiros contos da obra, Clara e Carmelita e Os Nehemy, são os mais longos do volume. No primeiro, duas garotas amigas de infância têm contextos familiares e políticos distintos. Já aqui é interessante notar como Sidney esconde, até o momento em que é quase insuportável manter oculto, o mundo que suas narrativas abarcam (ou inventam): mesmo ao falar da ditadura de Pinochet no Chile, sua preocupação é em contar o que há em duas mulheres diante dela. “O tempo passa para os ditadores também, todos morrem”, vaticina um trecho deste conto.

Os Nehemy, já publicado na revista Granta, é uma narrativa duro sobre dois irmãos, um deles banido do convívio familiar pelo pai severo. “Não estava acordado nem dormia. Nem estava morto nem vivo. Era um homem banido”, descreve. O restante da obra tem sua unidade na brevidades das histórias, dissecadas na linguagem até o momento fundamental, até o efeito buscado sem atalhos. Afinal, a prosa de Sidney na obra parece ter passado por uma contagem rigorosa, como se houvesse um exercício matemático que desse conta da literatura.

BALA

Mais do que a guerra, muitos contos estão conectados pelo rompante de uma bala – que já atingiu alguém, que vai atingir, que será disparada. Pode parecer um mecanismo repetitivo, mas, como a verdadeira violência, os tiros nas narrativas de Sidney sempre impactam de novo, são inesperado mesmo quando sabemos que ele podem vir a qualquer momento.

São vários contos fortes, como Os Três Exércitos (“Às vezes, um homem só necessita disto: retornar”), O Bailarino, O Rapto de Felícia e A Alva. Em outro, O Soldado Inválido da Casa Louca, o encerramento da narrativa remete a Kafka, com um terror mais cotidiano que o de A Metamorfose: “E quando acordou já estava devendo a primeira parcela da hipoteca de uma casa sem varanda na Geórgia”.

Em O Oceano Absoluto, com Hunter Thompson e Norman Mailer de protagonistas, o livro diz: “Os mortos estão morrendo de sede”. É essa sede que persiste mesmo após o fim, mesmo após a vida, essa guerra de ninguém e de todos, a substância que Sidney tenta evidenciar nos contos. Cada narrativa da obra, afinal, é uma tentativa de brechar um pouco isso.

O jornalismo profissional precisa do seu suporte. Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Últimas notícias