LANÇAMENTO

Correspondência entre Jorge Amado e José Saramago é reunida em livro

Amizade entre os dois escritores é celebrada no livro organizado por Pilar Del Río e Paloma Amado

Valentine Herold
Valentine Herold
Publicado em 09/08/2017 às 7:00
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Amizade entre os dois escritores é celebrada no livro organizado por Pilar Del Río e Paloma Amado - FOTO: Imagem: Divulgação
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O título e a primeiríssima página do livro – em representação gráfica de uma bússola – já anunciam que a amizade entre Jorge Amado e José Saramago foi também uma história que esteve atrelada, para além do amor pela literatura, às águas do Oceano Atlântico. Com o Mar por Meio – Uma Amizade em Cartas reúne fax, cartões, cartas e bilhetes trocados não só pelos escritores entre os anos de 1992 e 1998, mas também por Zélia Gattai e Pilar Del Río, respectivamente as esposas de Amado e Saramago. E foi justamente a partir da iniciativa de Pilar e de Paloma Jorge Amado, filha do escritor baiano, que o livro tomou vida e foi lançado há cerca de duas semanas na Festa Literária de Paraty, Flip.

A amizade entre Jorge e José teve início tardiamente, quando ambos já estavam com suas carreiras consolidadas e na casa dos 70 e 60 anos. Mas mesmo antes de se conhecerem pessoalmente e de iniciarem a convivência que seguiria por anos, os dois escritores já eram grandes admiradores mútuos. Com a relação quase fraterna que surgiu no início da década de 1990, os dois se tornaram o que Paloma descreve na introdução do livro “dois amigos, dois grandes nomes da língua portuguesa, que se queriam bem, que de tudo conversavam e que marcaram o século XX com seus talentos.”

Na ocasião do lançamento – que ocorreu na Casa Amado e Saramago, uma parceria entre a Fundação Jorge Amado e a Fundação José Saramago – Pilar e Paloma se reuniram para conversar sobre a importância de celebrar a obra desses dois autores e sua amizade. A troca de cartas partilhada na obra começa em dezembro de 1992 e tem como principal conteúdo um pedido de aconselhamento por parte de Saramago em relação ao Prêmio Nonino. Como que encerrando um ciclo, a última carta faz também referência à uma premiação, mas desta vez em clima de vitória e celebração: era outubro de 1998 e José Saramago tinha ganho, naquele dia, o Nobel de literatura. “VIVA SARAMAGO!!! Zélia, Paloma e eu estamos aqui brindando a vossa – nossa – felicidade, com este prêmio tão bem concedido”, revela trecho da carta.

É assim, com muito carinho e preocupação pelas questões pessoais do outro, que dois dos maiores nomes da literatura de língua portuguesa se correspondiam. Em diversas ocasiões os amigos se despediam com dizeres de “todo o carinho”, “grande e fraternal abraço”, “todo o afeto” ou ainda “vosso, devoto”. Entre as temáticas mais abordadas estão ainda questões relativas à saúde de Jorge Amado (e do infarto que ele sofreu em 93), os aniversários - “(...) viveremos pois este dia como o de uma festa que também é nossa”, escreveram Pilar e Saramago em ocasião aos 81 anos do brasileiro –, eventos literários ao redor do mundo, comentários sobre livros, tentativas de encontros ou ainda as angústias desabafadas pelo casal baiano em relação às questões políticas e sociais do Brasil.

Uma pequena parte da correspondência retratada no livro já era conhecida pelo público leitor de Saramago desde a primeira metade da década de 1990, quando o português lançou seus Cadernos de Lanzarote. Nas publicações – que seguem um formato de diário – é possível acompanhar por três anos o dia a dia do escritor e de Pilar. Entre os trechos dos livros estão várias citações à sua amizade com Jorge Amado e Zélia Gattai e alusões às suas trocas de cartas. “Assim são as coisas. Ainda há dez dias eu aqui escrevia umas linhas acerca de Jorge Amado, e acabo de saber que teve um infarto. (...) Se não puder antes, voltaremos a estar juntos em Roma, no Prêmio da União Latina”, escreveu em maio de 1993, por exemplo. É assim, então, 16 anos após o falecimento de Jorge Amado e sete do de José Saramago que os leitores estão convidados a compartilhar da intimidade dos grandes escritores e amigos através da curiosa leituras de suas correspondências.

Projeto Gráfico

Antes mesmo de abrir o livro é perceptível o cuidado estético que os organizadores tiveram. A capa dita os tons que serão empregados até a última página: o azul do mar que separava os dois amigos é a cor principal da publicação, enquanto o vermelho que destaca o título é retomado na linha de costura aparente e na contracapa. Além da reprodução dos conteúdos das cartas, o leitor vai se deliciar com fotos e fac-símiles – mas pode ser que fique com um gosto de “quero mais”, uma vez que não há uma grande valorização de imagens ao longo da obra.

Serviço: Com o mar por meio- uma amizade em cartas. Companhia das Letras, 120 páginas, R$ 59

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