LIVROS

Com raridades brasileiras, Biblioteca Oliveira Lima reabre nos EUA

Criada pelo diplomata pernambucano, a biblioteca tem mais de 58 mil títulos, dos quais 6 mil são obras raras

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 17/02/2018 às 18:00
Leandro Mockdece/Divulgação
Criada pelo diplomata pernambucano, a biblioteca tem mais de 58 mil títulos, dos quais 6 mil são obras raras - FOTO: Leandro Mockdece/Divulgação
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Na lápide do historiador e diplomata pernambucano Oliveira Lima (1867-1928), em Washington, não aparece o seu nome, mas, sim, uma frase: “Aqui jaz um amigo dos livros”. Para quem não o conhece, pode parecer um exagero, afinal, é difícil imaginar algum embaixador que não tenha algum apreço pela leitura. O caso de Oliveira Lima, no entanto, foi de uma paixão e dedicação bem mais extensa: junto com sua esposa, Flora de Oliveira Lima (1863-1940), ele foi responsável por reunir pelo menos 58 mil títulos.

Depois de uma vida a serviço da diplomacia, Oliveira Lima se estabeleceu em Washington, nos Estados Unidos. Lá, começou a juntar os seus livros, espalhados por Recife, Lisboa e Bruxelas, em um processo que durou anos – e impressionou o casal, assustado com o tamanho do próprio acervo. Antes de morrer, os dois oficializaram a doação que criaria a Biblioteca Oliveira Lima dentro da Universidade Católica de Washington, formando o maior acervo sobre o Brasil no exterior.

Nos últimos dois anos, desde a saída do último curador e a aposentadoria da bibliotecária responsável, o espaço esteve fechado. Agora, reabriu suas portas, esperando receber pedidos de consulta e residências de pesquisadores brasilianistas. São cerca de 6 mil títulos raros, além de incontáveis (e inestimáveis) correspondências com intelectuais, políticos e escritores, quadros e panfletos históricos.

“É essencial divulgar esse acervo, que cobre muito bem os períodos da história do Brasil. A biblioteca esteve fechada porque não havia fundos suficientes para a contratação de pessoal”, conta Nathalia Henrich, que atualmente faz o seu pós-doutorado no local. “Queremos transformar o espaço em um centro de estudos brasileiros, pois a biblioteca está muito além das possibilidades físicas da sua sede.”

O acervo ocupa atualmente quatro salas, que não dão conta da função de biblioteca, centro de estudos e museu. Um dos planos é captar recursos para ganhar um edifício próprio, além de criar bolsas para pesquisadores em parceria com outras instituições. “Ela sempre foi muito procurada e é bem conhecida entre os acadêmicos e pesquisadores. Nos últimos anos, ela não podia recebê-los, só realizava atendimento por e-mail. E, antes, para receber alguém, era preciso um horário marcado, ou seja, ela não tem um horário aberto para o público. A demanda e o potencial existem, mas sempre esbarram na falta de recursos”, comenta a pesquisadora.

ACERVO

É um trabalho complexo definir a importância do acervo reunido por Oliveira Lima. Alguns livros, como o Rervm per Octennivm in Brasilia (História dos Feitos Recentemente Praticados Durante Oito Anos no Brasil, de 1647), de Gaspar Barleus, que narra os feitos de Maurício de Nassau em Pernambuco, só possuem uma cópia além da adquirida pelo diplomata. É o mesmo caso do Relaçam Verdadeira de Tvdo o Svçcedido na Restauração da Bahia de todos os Sanctos, de 1625, documento que descreve a reconquista portuguesa da Bahia.

Nas obras raras, ainda se destacam edições iniciais de Camões e uma das principais coleções de narrativas de exploradores sobre a América do Sul. Ainda está lá um panfleto essencial para a história pernambucana: O Preciso, de 1817, que divulgava os acontecimentos da Revolução Pernambucana.

Nem tudo de mais valioso que pertence à biblioteca pode ficar no espaço. Brazilian Landscape, Probably Pernambuco (Índios na Floresta), de 1669, quadro feito pelo holandês Frans Post, está atualmente emprestado para a National Gallery of Art, em Washington, porque não há como exibi-lo ao público na Biblioteca Oliveira Lima. “Temos várias obras de artistas brasileiros do século 19, mas precisamos de um lugar adequado para elas”, explica Nathalia.

As correspondências ainda merecem destaque. Ali, é possível entender a extensão da rede de diálogos de Oliveira Lima no Brasil, na Europa e nas Américas. O diplomata trocou cartas com mais de 1,4 mil destinatários, muitos deles ilustres, como Machado de Assis, José Verissimo, Euclides da Cunha, Barão do Rio Branco e Olavo Bilac – vários deles colegas de Academia Brasileira de Letras (ABL). Nas correspondências, é possível ver como o colecionador pernambucano foi um dos grandes incentivadores da literatura de Lima Barreto.

O acervo também dá uma visão panorâmica dos debates da diplomacia brasileira. A longa troca de missivas (e os intensos debates) com Joaquim Nabuco são o melhor exemplo disso. Por discordâncias de visões, os dois acabaram por romper a amizade através de uma carta. “Oliveira Lima achava Nabuco demasiadamente pró-Estados Unidos. Nabuco se sentiu atacado por um amigo, e terminou a conversa entre eles por escrito”, relata Nathalia, que estudou o Pan-Americanismo na obra de Oliveira Lima no seu doutorado.

BIBLIOTECÁRIO

Quando começou a organizar sua biblioteca, o diplomata recebeu em Washington a ajuda de um jovem pernambucano que havia, quando tinha 17 anos, batido na porta da casa em que estava com Flora para se apresentar. Era Gilberto Freyre, que via em Oliveira Lima uma espécie de figura paterna. “Oliveira Lima deu dicas a Freyre quando ele foi viajar pela Europa e o aconselhou quando partiu para fazer o mestrado em Columbia. Eles chegam a discutir o tema juntos”, aponta Nathalia.

Apesar de nascido em Pernambuco, Oliveira Lima foi criado em Lisboa – seu pai era português e sua mãe pernambucana. “Ele deixava clara a sua ligação com Pernambuco, pois sempre cresceu com as memórias afetivas da sua cidade natal. Oliveira Lima tem artigos muito bonitos da volta dele ao Brasil. Com Flora, ele voltou várias vezes a Pernambuco. Eles ficavam no Engenho Cachoeirinha, que era de amigos. Passaram longos períodos, mas nunca moraram no Brasil em definitivo”, conta a pesquisadora.

Aliás, é o papel de Flora na construção desse acervo que Nathalia destaca. “Ela morreu depois dele e não só ficou cuidando da biblioteca, como a ampliou. Flora editou as memórias dele e sempre teve um papel fundamental na carreira e vida de Oliveira Lima. Eles eram um casal atípico para a época, porque ela participava da vida profissional dele. Tanto que faço questão de frisar que a doação do acervo foi um gesto do dois”, ressalta a pesquisadora.

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