LGBT

No livro 'Boy Erased', autor relata horrores do tratamento de 'cura gay'

Obra de Garrard Conley foi adaptada para o cinema em filme com Nicole Kidman

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 20/01/2019 às 8:00
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Obra de Garrard Conley foi adaptada para o cinema em filme com Nicole Kidman - FOTO: Reprodução
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Garrard Conley tinha 19 anos quando foi estuprado por um colega de faculdade. Garrad lutava contra sua orientação sexual e, além de negá-la para si, a escondia do resto do mundo, principalmente de seus pais, fiéis fervorosos da Igreja Batista Missionária. A violência à qual foi submetido o colocou em um espiral de autodepreciação e culpa, amplificadas quando seu violador, sem contar o que havia feito, expôs a sexualidade do rapaz para seus genitores. Eles, então, lhe deram um ultimato: caso se assumisse como gay, seria excluído da família. Garrard, então, aceitou entrar em um programa de terapia para “reverter” sua sexualidade. Os traumas causados por esse processo são expostos no livro Boy Erased – Uma Verdade Anulada (Ed. Intrínseca, 320 páginas, R$ 49,90).

Natural do Arkansas, estado no sul dos Estados Unidos que integra o chamado Cinturão da Bíblia, de maioria conservadora e Protestante, Garrard é filho único e as expectativas de seus pais para que correspondesse aos ideais de heteronormatividade o acompanharam desde a infância – ou melhor, ainda na gestação, sua vida estava praticamente traçada por ele.

Sua narrativa começa no dia 7 de junho de 2004, quando sua mãe, Martha, o leva até a sede da Amor em Ação (AEA), organização fundamentalista cristã fundada em 1973, mesmo ano em que a Associação Americana de Psicologia retira a homossexualidade da lista de doenças mentais. A instituição, que chegou a ter unidade no Brasil, promete curar os “vícios sexuais” dos membros LGBT de sua congregação.

Na AEA, tudo que pertencesse ao “mundo secular” era proibido. Como descrever Garrard, estava proibido até iconografias cristãs, consideradas “idolatria, assim como a astrologia, o jogo Dungeons & Dragons, as religiões orientais, os tabuleiros de Ouija, o satanismo e a ioga”.

Ao narrar suas primeiras impressões do local, o autor ressalta o quanto desejava, desesperadamente, apagar sua “personalidade falsa”, termo que a organização usava para designar sua homossexualidade, a fim de se enquadrar socialmente e não “decepcionar” seus pais.

“Tinha saído do alojamento da faculdade em um dia de inverno e pulado no lago semicongelado do campus. Tremendo de frio, fizera a caminhada de volta para o dormitório com os sapatos encharcados, sentindo-me rebatizado. No banho quente, eu observara, hipnotizado pelo choque do calor em minha pele dormente, uma gota d’água percorrer a beirada do chuveiro. E rezara: Senhor, torna-me puro”, relata.

Intercalado com relatos sobre a sua experiência na AEA, o autor tece relatos sobre sua vida até então e a dificuldade de viver à sombra da hipermasculinidade exigida por sua comunidade. Como filho de um homem extremamente religioso, que iria se tornar pastor, ele vivia uma vida de restrições. A única pessoa gay que ele conhecia era o cabeleireiro de sua mãe. Todas as notícias e conversas que ouvia sobre homossexualidade envolviam questões como aids, dependência química e promiscuidade. Por isso,

Garrard tentou de tudo para passar a imagem desejada, inclusive namorar mulheres.
Uma passagem tocante, já na Amor em Ação, evidencia o conflito que pessoas fora da heteronormatividade precisam enfrentar em uma sociedade LGTBfóbica.

“Eu havia passado a vida toda me perguntando como era ter uma cabeça heterossexual (...) como seria me ver refletido em todos os filmes, ter amigos e parentes constantemente fazendo piadinhas sobre minha vida amorosa, ter o mundo aberto para mim em todo seu esplendor. Como seria não ter que pensar em cada movimento, não ser analisado em tudo que fazia, não ter que mentir todos os dias?”.

O estupro que sofreu também reforça como a culpa da vítima e a condenação da sexualidade dos indivíduos geram traumas quase indeléveis. Na Amor em Ação, Conley presencia – e vivencia – uma série de abusos emocionais e físicos. Em uma das cenas mais chocantes, um participante do programa de “conversão sexual” é obrigado a ficar em frente a um caixão enquanto familiares o espancam com uma bíblia por ele não ter “renunciado à sua vida homossexual”.

Ao todo, o autor passou duas semanas na AEA, além de um longo período em terapia individual. A experiência, ele relata, afetou profundamente sua vida e quase o levou ao suicídio. Hoje, Garrard é um ativista contra as terapias de “conversão sexual” e roda o mundo tentando combater o preconceito.

Seu relato em Boy Erased é impactante pela franqueza e ressalta os sofrimentos físicos e emocionais que as pessoas LGTB estão submetidas desde a infância. Uma leitura essencial em um momento político e social tão obscuro nos EUA e no Brasil, com o recrudescimento da intolerância e vozes enfáticas pedindo “cura gay”.

ADAPTAÇÃO

A história foi adaptada para o cinema pelo diretor Joel Edgerton, que também atua no projeto. O longa é protagonizado por Lucas Hedges (Lady Bird, Manchester à Beira Mar), que interpreta Garrard, papel pelo qual concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Ator. No elenco, estão ainda Nicole Kidman e Russell Crowe, como os pais do jovem, e o cantor pop Troye Sivan.
Cercado de elogios no exterior, o filme acumulou até agora 30 indicações nos principais prêmios da crítica americana e tem estreia prevista no Brasil para o dia 21 deste mês.

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