ENSAIOS

Silviano Santiago lança edição ampliada de 'Uma Literatura nos Trópicos'

Clássicos dos estudos sobre a literatura, a obra de ensaios completou 40 anos em 2018 e sai pelo selo Pernambuco, da Cepe Editora

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 31/03/2019 às 12:09
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Fábio Seixo/Divulgação
Clássicos dos estudos sobre a literatura, a obra de ensaios completou 40 anos em 2018 e sai pelo selo Pernambuco, da Cepe Editora - FOTO: Fábio Seixo/Divulgação
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Quando retornou ao Brasil depois de um período estudando e trabalhando fora, o escritor e crítico literário mineiro Silviano Santiago encontrou um país modificado – da ditadura militar aos novos fenômenos culturais –, mas também se percebeu bastante diferente. Não estava mais disposto a repetir uma visão que tanto marcou a pesquisa literária e cultural por aqui, com abordagens eurocêntricas, que observavam nossa produção através de noções como influência, dívida e imitação. Nosso romantismo, nosso realismo e nosso modernismo ainda eram medidos através da “álgebra do conquistador”.

Em parte, é desse incômodo que Uma Literatura nos Trópicos, clássico da crítica literária e do ensaísmo brasileiro, surgiu, há mais de 40 anos. O provocativo volume ganhou uma nova edição pela Cepe Editora, através do selo Pernambuco – a obra foi apresentada no Rio nesta semana, e outro lançamento acontece no dia 13 de abril em Minas Gerais.

Além de recuperar os ensaios de Silviano, que trazem a origem de um termo essencial para os estudos culturais brasileiros, “entre-lugar”, o livro faz um trabalho precioso ao reabsorver ao volume cinco textos cortados do projeto original. Na nova nota preliminar, Silviano – hoje em dia um romancista premiado, vencedor dos Prêmios Oceanos e Jabuti – explica a ambição da sua empreitada: “Ousava invadir o quase virgem período colonial para, com a ajuda da produção textual correspondente (...) estabelecer a literatura brasileira menos como disciplina iluminista, mais como discurso cultural — o do entre-lugar — em busca do seu começo na Terra de Santa Cruz”.

O primeiro ensaio de Uma Literatura nos Trópicos merece o adjetivo de clássico no seu sentido mais instigante possível. Ainda hoje, é uma leitura que propõe o deslocamento ao apontar, como diz no título, O Entre-lugar do Discurso Latino-Americano. No texto, Silviano ressalta o triste posto de repetidor que foi deixado para as colônias do Novo Mundo. “A América transforma-se em cópia, simulacro que se quer mais e mais semelhante ao original, quando sua originalidade não se encontraria na cópia do modelo original, mas na sua origem, apagada completamente pelos conquistadores”.

Sua defesa, portanto, é que justamente ao se desviar do gesto da cópia que o Brasil e outros países se estabelecem. “A América Latina institui seu lugar no mapa da civilização ocidental graças ao movimento de desvio da norma, ativo e destruidor”, escreve Silviano. “Sua geografia deve ser uma geografia de assimilação e de agressividade, de aprendizagem e de reação, de falsa obediência.” Aqui, escrever e falar devem ser, na verdade, “falar contra, escrever contra”.

O entre-lugar que Silviano percebe que habitamos – e, ao perceber, o reinstaura na crítica literária e cultural – é um território precário, mas, justamente por isso, também pulsante. O artista brasileiro cria “entre a prisão e a transgressão, (...) entre a obediência e a rebelião, entre a assimilação e a expressão”. É nessa “escrita contra” que a nossa literatura reafirma sua força, mesmo quando parece recontar as narrativas de fora: “As leituras do escritor latino-americano não são nunca inocentes. Não poderiam nunca sê-lo”.

MULTIPLICIDADE

Esse primeiro ensaio é a base para os demais, que mostram a desenvoltura de Silviano em vários tópicos. Primeiro, parte logo para falar de Machado de Assis, fazendo uma deliciosa crítica da verossimilhança como instrumento de convencimento em Dom Casmurro. O discurso de Bentinho no livro não precisa de provas, não precisa ser verdade: soar como possível é sua estratégia de argumentação, sua retórica silenciosamente cínica. Ali, Silviano ressalta com o Machado quis “desmascarar certos hábitos de raciocínio, certos mecanismos de pensamento, certa benevolência retórica”, mirando em um dos seus alvos preferidos, o bacharelismo.

Os textos seguintes se debruçam sobre Eça de Queiroz, os romances O Ateneu, de Raul Pompéia, e A Bagaceira, de José Américo de Almeida, a poesia de Waly Salomão e Gramiro de Matos, a persona pública de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Sobre a geração da poesia mimeógrafo e da Tropicália, Silviano diz que ela seria responsável por deslocar “o eixo linguístico luso-brasileiro para uma espécie de esperanto nova geração, cristalizado em palavras poucas que se tornaram senhas entre os iniciados”.

O crítico defende que termos como desbunde e curtição são chaves para se entender essa então nova proposta de criação artística. São expressões que soam um pouco datadas hoje, mas revelam um crítico em busca de entender o que lhe é contemporâneo. Uma frase de Décio Bar, citada por ele no ensaio Os Abutres, define bem seu fascínio: “Glauber Rocha não parou para se perguntar o que era bom gosto. Entre uma usina hidrelétrica e o luar do sertão, não há dúvida possível — fica-se com os dois”.

Uma Literatura nos Trópicos, como a Tropicália e o Cinema Novo, não opta por apenas um lugar de observação ou campo do conhecimento: mergulha em vários, conecta-os e tenta bagunçá-los. Um dos artigos dos livro se dedica a ver Caetano Veloso como superastro; outro traz as entrevistas dele e de Gil em comparação com as de Chico Buarque. Até o fim, com o ensaio Análise e Interpretação, o livro continua provocante.

SUPLEMENTO

Os cinco textos adicionais, reintegrados ao corpo de Uma Literatura nos Trópicos na parte intitulada como Suplemento, ampliam ainda mais a gama de assuntos. Silviano agora fala dos sermões do Padre Vieira, das alegoria de Iracema, de José de Alencar, de peças teatrais e da máquina do mundo de Carlos Drummond de Andrade.

Alguns dos textos são preciosos. Quando fala de Iracema, por exemplo, o autor destaca o caráter alegórico do livro, que transforma o indianismo em uma forma de reação política e um retorno à “verdadeira fonte do Brasil”. Também encontra aqui alguns traços, ainda delicados, de uma “escrita contra”, que utiliza termos indígenas repetidamente. Ainda assim, também reconhece que é justamente esse aspecto alegórico que faz o romance sofrer com uma “superficialidade no tratamento psicológico das personagens”.

O ensaio sobre Drummond não só traça um bom paralelo entre um trecho de Camões com a criação do poeta brasileiro e sua máquina do mundo, como também traz outros bons vislumbres da sua obra. Estabelece, por exemplo, a diferença entre a postura do mineiro e a dos poetas da Geração 45: “Ele queria domar uma explosão dentro da sua própria poesia, da sua poesia passada, enquanto os outros freavam uma fase anterior da poesia, e começavam a sua obra com uma atitude pensada, medida, clássica”. É uma descrição delicada e precisa da poética drummondiana, com sua contenção sempre singular.

O volume ainda conta com três depoimento sobre Uma Literatura nos Trópicos 40 anos depois de seu lançamento, feitos por Fred Coelho, André Botelho e Eneida Leal Cunha – esta última ressalta os ensaios como um “curto-circuito” no pensamento sobre a literatura no Brasil. A atualidade dos ensaios de Silviano é palpável e, talvez por isso, ele continue afirmando seus espantos: “O brasileiro não existe. Existe esse constante movimento em constante esforço de agregação e desagregação”.

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