HISTÓRIA EM QUADRINHOS

HQ franco-brasileira celebra o legado do 14 de Julho

Uma dupla de ilustradores dos dois países juntam esforços para traduzir em traças, cor e movimento a festa nacional da França

Ernsto Barros
Ernsto Barros
Publicado em 14/07/2019 às 11:08
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Uma dupla de ilustradores dos dois países juntam esforços para traduzir em traças, cor e movimento a festa nacional da França - FOTO: Divulgação
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Entre as centenas de eventos em homenagem à festa nacional da França, o 14 de Julho – a data mais importante do País, simbolizada pela Tomada da Bastilha, em 1789, que marcou a unificação nacional e o fim da monarquia –, um deles tem participação tanto francesa quanto pernambucana. A partir deste domingo (14/7), internautas do mundo inteiro vão poder ler a HQ interativa Gemini – 14 Julliet no Nordeste, uma criação que juntou os talentos de artistas dos dois países, encabeçada pela francesa Clémence Bourdaud e o pernambucano Roger Vieira, que ilustraram a história. A HQ digital pode ser visualizada no endereço https://www.14juilletnonordeste.com/index.html.

O projeto nasceu de uma ideia do Consulado Geral da França para o Nordeste no Recife, com a colaboração do jornalista Paulo Floro, editor da Revista digital O Grito e da revista imprensa Plaf, especializada em histórias em quadrinhos. Para realizar a HQ digital, o quadrinista Roger Vieira fez uma residência de uma semana na cidade de Nantes, na região Oeste da França, que mantém uma já antiga relação cultural e econômica com o Recife, a partir de suas peculiaridades históricas e semelhanças físicas, como cidades portuárias e a presença de um rio cortando suas entranhas (o Loire, em Nantes, e o Capibaribe, no Recife).

Foi a partir dessas semelhanças que Clémence e Roger trabalharam na criação da história de Gemini. A estrutura narrativa não tem diálogos e é bastante livre, sem necessariamente ter uma trama como guia, mas com uma abertura para ser lida de várias maneiras. Temos uma personagem, uma mulher que sonha durante a festa do 14 de julho (transformada, naturalmente, num Carnaval). “ Foi muito importante fazer entender que também temos uma festa de rua, chamada de Bal de Pompiers, que tem fogos de artifícios e todo mundo sai para dançar. Acontece em cada cidade francesa, de Paris até os pequenos povoados perdidos no Sul do País. Era importantes ter esses valores presentes no quadrinho”, explica a assessora de comunicação do Consulado Geral da França, Margot Cherrid.

Nas suas duas partes, o tempo real e um sonho, percebemos características das duas cidades, quando a mulher reencontra o seu duplo numa atmosfera surreal digna do conto chinês, parafraseado por Borges, que diz não saber “se era um homem que sonhara que era uma borboleta ou uma borboleta que sonhara que era um homem”.

“Quando estava indo para lá, eu imaginei que poderia trabalhar esse tema de uma maneira mais subjetiva, não tão óbvia ou panfletária. Eu e Clémence inserimos elementos do Recife e de Nantes, mas ficamos livres para trabalhar os conceitos de liberdade, felicidade e diversidade. Quando a gente pensa na Revolução Francesa, pensamos logo em liberdade. Eles também me ajudaram muito com as coisas que representam, graficamente, a liberdade para o povo francês”, explica Roger.

INOVAÇÃO

Cabe alertar que a HQ digital não é uma obra gráfica estática, semelhante à fruição de um gibi impresso ou de uma cópia em PDF. Embora permaneça com sua base gráfica, o novo ambiente em que é apresentada permitiu a adição de técnicas de animação e uma trilha sonora. Entretanto, seu estatuto ainda pertence à Nona Arte, agora com o movimento e o som concedendo-lhes uma nova possibilidade de expressão para ser visto numa tela. O uso do movimento, tanto nas figuras quanto nos balões onomatopaicos, já é um recurso um tanto conhecido, mas a HQ traz uma sacada inovadora ao fugir da bidimensionalidade dos quadrinhos. Para a sua animação, que contou com profissionais da Escola de Design de Nantes, a adição de uma camada de desenhos com o efeito paralaxe (a base da animação 3D) cria uma nova experiência para os amantes das histórias em quadrinhos.

Os quadrinhos desfilantes podem ser lidos por meio das setas do computador ou com o uso do mouse (esta é a melhor maneira, pois permite ver em detalhe o efeito paralaxe). “Ainda não se achou um modelo finalizado de um quadrinho digital, mas este tipo talvez seja o mais inovador e o mais próximo da experiência de sua leitura, porque ela não é linear e muda de acordo com cada pessoa, que vai e volta”, analisa Paulo Floro, que também é professor da Universidade Maurício de Nassau e assina a edição de Gemini.

A residência de Roger em Nantes, em abril passado, apesar da curta duração, resultou numa troca bastante positiva. Mas esse encontro entre realidade e sonho, com o traço marcante do pernambucano e as cores ensolaradas da francesa, foi apenas o passo inicial da realização da HQ. Até chegar à conclusão, o trabalho demorou vários meses, depois de passar por um longo processo de digitalização, animação e sonorização. No final do ano, uma instalação com o material original será apresentado em Nantes e no Recife.

Segundo Roger, ele também está preparando o diário da residência, em que vai detalhar a experiência em Nantes com Clémence Bourdaud. Por enquanto, ele e Paulo ainda não sabem como o material será apresentado.

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