ENTREVISTA

Carlos Newton Jr: Teatro de Ariano Suassuna era uma arte da síntese

O pesquisador, responsável pelo volume Teatro Completo de Ariano Suassuna, fala sobre a mesa na Bienal do Livro de Pernambuco

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 13/10/2019 às 8:30
Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem
O pesquisador, responsável pelo volume Teatro Completo de Ariano Suassuna, fala sobre a mesa na Bienal do Livro de Pernambuco - FOTO: Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem
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Para Ariano Suassuna (1927-2014), o teatro era uma arte da síntese, como explica o organizador da sua obra, o professor Carlos Newton Júnior. Na programação do último dia da Bienal do Livro de Pernambuco, neste domingo (13), o pesquisador é um dos convidados, falando sobre a criação cênica de Ariano a partir das 15h, no auditório principal.

A conversa gira em torno do Teatro Completo de Ariano Suassuna (Nova Fronteira), lançado no final do ano passado. O box reúne as comédias, as tragédias, os entremezes (peças curtas) e traduções do autor paraibano, que morou grande parte da vida em Pernambuco. Confira a entrevista abaixo.

ENTREVISTA

JORNAL DO COMMERCIO – O que a reunião do teatro de Ariano, o trabalho de uma vida, com comédias, tragédias, entremezes e traduções, nos permite perceber sobre o modo do autor de pensar o teatro e a criação?
CARLOS NEWTON JR – Ariano pensava o teatro como verdadeira arte de síntese, isto é, não pensava apenas na parte literária do teatro, no texto da peça. Pensava o teatro enquanto espetáculo, e os maiores críticos teatrais que tiveram a oportunidade de acompanhar a sua produção são praticamente unânimes no reconhecimento do valor de sua dramaturgia, desde o texto à chamada carpintaria teatral. Muito de sua dramaturgia foi inspirada na cultura popular, no universo do romanceiro popular nordestino e dos espetáculos populares a este romanceiro relacionados, como o mamulengo, o bumba-meu-boi etc., sem contar a influência enorme que recebeu do circo. A importância dos entremezes liga-se ao fato de que muitas vezes Ariano parte de um entremez e o transforma numa peça maior, através de um processo de desdobramento. As traduções também são importantes, enquanto exercício de dramaturgia. Luís Reis, que apresenta o volume das traduções, chama atenção para o fato de que Ariano, ao traduzir, tinha uma preocupação mais dramatúrgica do que, propriamente, filológica.

JC – Quais são as grandes influências formadoras – em leituras e mentores – do teatro de Ariano?
CARLOS NEWTON – Ariano era um leitor compulsivo, e assim conhecia, e bem, os clássicos da literatura dramática universal, sobretudo em se tratando do teatro de tradição mediterrânica, dos gregos antigos ao dramaturgos do século 20, passando pelo teatro latino, pela commedia dell’arte, pelo teatro elisabetano (principalmente Shakespeare), por Molière etc. Federico García Lorca, o grande dramaturgo espanhol do século 20, foi uma influência decisiva para o jovem Suassuna, quando este se viu, na Faculdade de Direito do Recife, às voltas com o Teatro do Estudante de Pernambuco, em meados da década de 1940. Suassuna chegou ao teatro de Lorca através de Hermilo Borba Filho, seu primeiro mestre de Teatro. Como Hermilo era dez anos mais velho, já tinha uma bagagem invejável para o jovem estudante, no tempo em que se conheceram.

JC – É no teatro que Ariano tem suas obras mais populares, especialmente o Auto da Compadecida. Quanto da figura pública de Ariano, célebre também em entrevistas e aulas-espetáculos, se mostra nessa produção teatral, especialmente de comédias?
CARLOS NEWTON – Ariano era muito jovem quando escreveu o Auto da Compadecida. Pouca gente se lembra disto. O Auto da Compadecida é uma peça escrita por um jovem de 28 anos de idade. E antes dos 35 anos Suassuna já estava com a sua obra teatral praticamente concluída, à exceção da peça As Conchambranças de Quaderna, de 1987. Assim, a verve para a comédia que ele revelará depois, nas Aulas-Espetáculos, é algo que foi muito burilado ao longo dos anos.

JC – O livro reúne inéditos e também traduções. Como esses textos ajudam a compreender a trajetória da criação de Ariano?
CARLOS NEWTON – Ajudam na medida em que a obra, no caso o Teatro Completo, apresenta a produção em conjunto, subdividida por “gêneros” e, dentro de cada grupo, por ordem cronológica. O leitor, assim, poderá perceber aquilo que falei há pouco, ou seja, como Ariano partia de alguns entremezes para a construção de peças maiores, ou como criava uma peça como o Santo e a Porca através da “imitação” de uma peça clássica como A Panela, de Plauto. “Imitação” entre aspas, porque significa, de fato, um processo de criação através da recriação.

JC – Em que medida a ficção e o teatro de Ariano dialogam? O que mudava na criação desses dois lados da sua obra?
CARLOS NEWTON – São processos criativos inteiramente diversos. Mas Ariano conseguia exprimir, em qualquer gênero literário (teatro, romance, poesia), o seu particularíssimo universo interior, e isso é o que importa em termos de arte, seja qual for o gênero ao qual o artista se dedique. É importante lembrar que Ariano foi também um artista plástico de grande talento. Penso, por outro lado, que seu romance é muito devedor da sua dramaturgia, pois a grande riqueza do seu romance se encontra, a meu ver, nos diálogos. Veja que boa parte de A Pedra do Reino é um diálogo entre Quaderna e o Juiz Corregedor Joaquim Cabeça-de-Porco. Sem falar que no seu último romance, o Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores, ele conseguiu unir tudo isso, a poesia, o teatro, a prosa de ficção, mas, de fato, o romance é todo em diálogo, ou seja, o elemento teatral acaba predominando, de certa forma.

JC – Ainda há planos para novos volumes com a obra de Ariano de poesia ou outros textos?
CARLOS NEWTON – Sim. No próximo ano a editora Nova Fronteira deverá publicar, entre outras obras, a Poesia reunida, volume bem mais extenso do que aquele que organizei para a editora universitária da UFPE, em 1999. Antes, já no início do ano, deverá ser publicado o romance inédito O Sedutor do Sertão, de 1966, atualmente em fase de editoração. E assim por diante.

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