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Conheça o lado emotivo de João Cabral de Melo Neto, o Poeta Engenheiro

Para perceber a emoção nos livros do poeta pernambucano talvez seja preciso ler os versos mais de uma vez, focar no conteúdo e não na forma, sem se deixar enganar pela ausência de palavras subjetivas ou óbvias

Valentine Herold
Valentine Herold
Publicado em 05/01/2020 às 7:00
Foto: Thiago Lucas/ Jornal do Commercio
Para perceber a emoção nos livros do poeta pernambucano talvez seja preciso ler os versos mais de uma vez, focar no conteúdo e não na forma, sem se deixar enganar pela ausência de palavras subjetivas ou óbvias - FOTO: Foto: Thiago Lucas/ Jornal do Commercio
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Um mito, sabe-se bem, não é uma representação fiel da realidade e sim uma idealização, um estereótipo criado com o passar do tempo acerca de um fato ou de uma pessoa. Muito se falava sobre a personalidade contida de João Cabral de Melo Neto e é compreensível que tenha surgido esse mito do poeta frio. O próprio Cabral deixou claro diversas vezes que era avesso ao sentimentalismo e aos excessos de linguagem.

Os 40 anos exercendo a atividade diplomática com certeza também contribuíram para formar essa personalidade mais contida e séria, assim como a aparência sempre impecável, bem penteado e elegantemente vestido. “Sua emoção aparecia nos seus poemas, mas é que sua poesia é extremamente precisa e seu ritmo não é o da respiração, portanto dificílima de ler. Ele ficou com essa fama de erudito e difícil. Além do mais, como morava fora, era de difícil acesso para entrevistas e só falava de poesia, não respondia a perguntas pessoais”, descreve sua filha Inez.

Para perceber a emoção nos livros do poeta pernambucano talvez seja preciso ler os versos mais de uma vez, focar no conteúdo e não na forma, sem se deixar enganar pela ausência de palavras subjetivas ou óbvias. O amor e a saudade estão ali, mesmo sem estarem escritos com todas as letras. “Ele bebe de uma tradição moderna mas a atualiza, inova a partir dela com um caráter de concisão. É uma poesia do menos”, ressalta a pesquisadora em literatura brasileira e professora da UFPE, Raíra Maia. “Uma de suas marcas é a preocupação com a construção complexa e o rigor da linguagem, mesmo em A Pedra do Sono. Depois, em suas obras posteriores, vemos uma preocupação que é típica da arquitetura, percebemos uma influência do Le Corbusier e aspectos caros a ele como a ideia de construção, concisão e sobriedade.

Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, a noção de ordem e equilíbrio na obra de João Cabral de Melo Neto não é oposta à sua potencialidade melódica. É bem verdade que ele não gostava de música e fazia questão de deixar isso bem claro, mas sua poesia possuía ainda assim um caráter melódico quando lido em voz alta. É uma musicalidade e outra ordem, como bem explica Raíra. “Se você pegar Morte e Vida Severina, por exemplo, vai perceber essa potencialidade melódica. Há um gosto pela rima toante também ao longo de sua obra. Mas, claro, sempre dentro da perspectiva da poesia do menos.”

Fragilidade emocional

Nas entrelinhas da solenidade dos seus versos, há muito dos anseios e da fragilidade de João Cabral, deste homem de “pouca resistência interior”, como o definiu José Castello. Por que esta fixação em eliminar qualquer excesso de seus poemas? Ao analisar sua velhice, a doença que aos poucos o cegava e a tendência depressiva que se mesclava ao sentimento de solidão, é fácil perceber que o sentimentalismo que ele não suportava era também o que ele relutava em aceitar nele mesmo. Uma possível desordem emocional não poderia ser percebida pelos outros. O abismo que vive rondando os grandes artistas não estava tão longe de João Cabral, afinal.

“A poesia era um freio, uma maneira de organizar seus pensamentos”, pontua Castello. Em carta enviada para seu editor em 1979, ele já demonstra o início desse fastio. “Eu não tão bem: cansado, deprimido. Efeitos de sete anos na África Negra. Sete anos de um posto qualquer é demais”, escreve enquanto se mudava de Dacar para Quito. Essa fragilidade emocional também se revelava na maneira com a qual ele analisava a própria obra, sempre crítico a respeito do que escrevia. “Ele gostava muito de ler o que escreviam sobre ele, mas não gostava quando interpretavam seus poemas diferentemente do que ele tinha planejado”, revela o pesquisador Antônio Carlos Secchin.

Dentre os tantos caminhos possíveis para escrever um poema, João Cabral de Melo Neto escolheu um que seria inverso a seus sentimentos mais íntimos. Uma direção solar, acessível, objetiva, resgatando em suas memórias imagens da natureza e das suas experiências de vida, sem jamais deixar de lado críticas sociais. Mas na solidão da escrita deste diplomata viajante havia um indivíduo complexo, que lidava de forma difícil com a vida prática.

“A obra dele passa muito por um lugar de carência, é uma escrita que está o tempo todo ao ponto de explodir, como um vulcão quase em erupção, só que sempre cerebral, feita com o pensamento e muita elaboração”, acrescenta o jornalista Mário Hélio, que conviveu com ele. A poesia, portanto, assume na vida de João Cabral de Melo Neto um lugar de contraponto, uma fuga talentosa que revelaria muito de como ele gostaria de ser visto, mas nem sempre de como de fato se sentia. Há muita sensibilidade e emoção na obra cabralina, basta estar aberto para percebê-la. É preciso eliminar o mito para conhecer de fato o homem e entender que nem tudo que parece ser é.

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