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João Cabral de Melo Neto, o poeta que levou Pernambuco para o mundo

O poeta e diplomata pernambuco completaria 100 anos neste 9 de janeiro. Nos anos 50, ele chegou a ser afastado do Itamaraty acusado de comunismo

Valentine Herold
Valentine Herold
Publicado em 05/01/2020 às 7:00
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O poeta e diplomata pernambuco completaria 100 anos neste 9 de janeiro. Nos anos 50, ele chegou a ser afastado do Itamaraty acusado de comunismo - FOTO: Foto:Divulgação
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Um poeta que não acreditava em inspiração, tido por muitos como um homem frio, que considerava a escrita um ofício difícil e muito conhecido pelo seu rigor na forma poética. Mas também – e talvez acima de tudo – , um artista que continua a fascinar gerações 20 anos após sua morte, que produziu uma extensa obra em que deu voz aos elementos da natureza e que inovou como poucos em seu conteúdo de forte cunho social. João Cabral de Melo Neto, se vivo estivesse, completaria 100 anos neste 9 de janeiro, uma data que merece ser comemorada com a mesma intensidade com que ele celebrou Pernambuco e sua gente em seus poemas. “Escrever é estar no extremo de si mesmo”, disse em certa ocasião.

Basta ler com um pouco mais de atenção seus versos para perceber, mesmo na ausência de lirismo, a força e emoção postas em contraponto à tão calculada métrica. Deste esmero com os versos e o avesso ao derramamento sentimental nasceu a alcunha de Poeta Engenheiro. Nascido em 9 de janeiro de 1920 no Recife, João Cabral de Melo Neto passou grande parte de sua infância no engenho do pai, em São Lourenço da Mata e, aos 20 anos, se mudou com a família para o Rio de Janeiro. Ele descobriu a paixão pela atividade literária ainda adolescente, quando frequentava o círculo intelectual recifense que se encontrava no Café Lafayette.

Também nessa época conheceu o pintor Vicente do Rêgo Monteiro, encontro que seria decisivo para a carreira artística do jovem João, assim como foram as amizades com Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira (seu primo, assim como Gilberto Freyre). Em 1942, ele lança seu primeiro livro, A Pedra do Sono, que surpreende pela sua aproximação com o surrealismo, caráter que seria logo afastado de sua escrita. “Sinto que não é esta a poesia que eu gostaria de escrever”, afirmou em carta a Drummond naquele mesmo ano. Incentivando-o a ir em frente com o lançamento dos poemas, o escritor mineiro responde: “Publique para o povo. Mas o povo não lê poesia… Quem disse? Não dão ao povo poesia. Ele, por sua vez, ignora os poetas.” Em pouco tempo João Cabral encontra seu estilo literário e desenvolve a incrível capacidade de dar voz a paisagens procurando sempre se distanciar de qualquer linguagem muito elitista. Retratar o abstrato através da objetividade.

Acusado de comunismo

Dos 79 anos de vida, 36 foram passados servindo ao seu país no exterior devido à atividade diplomática. Em 1945, aos 25 anos, foi nomeado para seu primeiro cargo no Departamento Cultural do Itamaraty. Dois anos depois, parte para Barcelona como vice-cônsul, marcando assim o início de uma longa jornada na Europa, África e América. França, Suíça, Portugal, Inglaterra, Senegal, Paraguai, Equador e Honduras também foram suas moradas, mas a Espanha, onde passou 13 anos, sempre teve um lugar especial em sua vida e em sua poesia.

Ao longo de quatro décadas como diplomata do Itamaraty, um episódio curioso que o levou a ser afastado das suas funções se destaca. Em 1952, quando o poeta estava em Londres como segundo secretário da embaixada, ele recebe a ordem de voltar imediatamente para o Rio de Janeiro. O motivo? A acusação de ser comunista, uma prática política considerada ilegal naqueles anos do governo de Getúlio Vargas. Foi outro diplomata, Mário Mussolini Calábria, quem incriminou João Cabral depois de ler uma troca de cartas em que o pernambucano pedia ao colega Paulo Cotrim para que o mesmo escrevesse um artigo sobre o cenário econômico brasileiro para publicação em uma revista britânica ligada ao Partido Trabalhista. O sobrenome compartilhado entre o delator e o ditador italiano é mera (infortunada) coincidência.

A recomendação de João era que Paulo assinasse sob o uso de um pseudônimo. Em 27 de junho daquele ano, o fato se transformou em escândalo com a manchete sensacionalista do jornal Tribuna da Imprensa: “Traidores no Itamaraty”. A absolvição pelo Supremo Tribunal Federal viria apenas em 1954 e sua reintegração à vida diplomática no ano seguinte, quando volta à Espanha.

Poesia georreferenciada

A histórica e bela Andaluzia, para onde se muda em 1956 com o objetivo de realizar pesquisas no Arquivo das Índias, foi determinante para sua poética e as “calles” desta “cidade que veste o homem sob medida” são protagonistas de muitas poesias. No livro Sevilha Andando, publicado pela primeira vez em 1989, quando já estava aposentado da carreira diplomática, João Cabral escreve no poema Lições de Sevilha: “tenho Sevilha em minha cama,/ eis que Sevilha se fez carne,/ eis-me habitando Sevilha/ como é impossível de habitar-se.”

A terra de Cervantes também o presenteou com a amizade do pintor Joan Miró, que rendeu o célebre ensaio de mesmo nome do artista catalão, através do qual o pernambucano relata a forma como Miró vivia sob a perseguição do regime fascista de Franco. E em 1997, dois anos antes de sua morte, é publicado o livro Entre o Sertão e Sevilha, que se volta para suas duas terras amadas, Pernambuco e Andaluzia.

A geografia é fundamental para qualquer análise da obra cabraliana. Todos os lugares em que ele morou o influenciaram, seja por meio de sua cultura, seja fazendo-o rememorar o Nordeste de sua infância através da saudade. Além de Sevilha e Pernambuco, João Cabral escreveu sobre a Paraíba e Alagoas numa série de poemas sobre cemitérios. “Não se consegue compreender um poeta visual sem os espaços”, pontua o escritor e diretor do setor de Memória, Educação, Cultura e Arte da Fundação Joaquim Nabuco, Mário Hélio, que conviveu com Cabral nos anos 1990. “A sua geografia se nutre da observação participante e também da história e da memória dos locais por onde passou.”

Em 1987, o poeta se aposenta do Itamaraty e volta ao Brasil, passando novamente a morar no Rio de Janeiro. Entretanto, sem nunca deixar de pensar e de escrever sobre a Zona da Mata de sua infância. Certa vez, uma amigo foi visitá-lo em seu apartamento localizado de frente para a Baía de Guanabara e se surpreendeu com o fato das cortinas estarem fechadas. Quando questionado, João respondeu que deslumbrante era, na verdade, poder estar em uma varanda com vista para um canavial. Em outra ocasião, afirmou que num contexto global de guerra, lutaria pelo Brasil, mas que se houvesse uma guerra civil, sem dúvidas lutaria por Pernambuco.

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