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O amor cantado em Risoflora por Chico Science revela um segredo ainda 20 anos depois

Canção é a única de amor do disco Da lama ao caos. O mistério de Risoflora ficará para sempre guardado no mangue

Valentine Herold
Valentine Herold
Publicado em 06/04/2014 às 6:30
Foto: Heudes Regis/JC Imagem
Canção é a única de amor do disco Da lama ao caos. O mistério de Risoflora ficará para sempre guardado no mangue - FOTO: Foto: Heudes Regis/JC Imagem
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Em meio a tantos versos políticos de revolta social, Da lama ao caos abarca, em sua 11° faixa, uma das mais lindas mensagens de amor: Risoflora. Mas a flor que nasceu no meio do mangue e foi retratada por Chico Science como símbolo de carinho e arrependimento fez brotar uma curiosidade: o mistério de quem seria a verdadeira Risoflora.

Ex-namorada de Chico, a designer Maria Duda Belém acompanhou o início da Nação Zumbi, o antológico show da primeira edição do Abril Pro Rock e viajou com a banda para o Rio de Janeiro na época da gravação do álbum. A história de amor entre Duda e Chico teve início no começo da década de 1990. O compositor e sua flor tinham uma diferença de idade de cerca de sete anos. Ele morava na Rua da Aurora e foi no apartamento à beira do Rio Capibaribe que os dois se conheceram. O elo entre o mangueboy e a sua manguegirl foi uma amiga em comum que levou Duda à festa de inauguração da nova moradia de Chico e alguns amigos.

Mas é necessária uma volta no tempo para entender que, assim como as raízes entrelaçadas do manguezal, o amor e a paixão são complexos – vão e voltam, se misturam. Em 1991, Chico conheceu Renata Pinheiro. Também alguns anos mais nova do que ele, a jovem atriz foi a um show em Candeias do pouco conhecido grupo que se chamava Chico Science & Lamento Negro. “Fiquei impressionada com a qualidade das músicas, das letras políticas e poéticas. Nos conhecemos melhor naquela noite”, relembra Renata. A conexão ficou estabelecida e a relação entre os dois continuou de andada, que nem o caranguejo quando sai da toca para encontrar sua “cara metade” pelo mangue. Chegou o ano de 1992 – o mesmo da publicação do manifesto Caranguejos com cérebros – e com ele, o Carnaval. Uma festa que, nas palavras de Renata, “misturava suor, música, amor e despedida.” Na sequência, o espetáculo no qual ela atuava viajou para Portugal, onde ficou alguns meses em cartaz. 

Tempos depois, Chico e Maria Duda engatavam um namoro. “A gente terminou e eu fui passar cerca de um mês de férias na Bahia. Quando voltei, Chico me entregou a letra de Risoflora e cantou para mim. Foi muito bonito”, narra Duda, recordando também o pouco jeito do rapaz com o violão. Depois disso, começaram a namorar. “Ele era um cara muito atencioso e carinhoso. Tinha um caderninho e compunha no ônibus. Admiro muito a capacidade que ele tinha de colocar a marca dele com poucos recursos, e a fé em seu próprio taco.” 

Enquanto isso, Renata trabalhava em um café em Amsterdam, onde morou por um ano, após a temporada em Portugal. Foram 12 meses de muitas transformações e amadurecimento. Quando voltou ao Recife, Chico Science já estava acompanhado da Nação Zumbi e Risoflora vinha sendo tocada nos shows. “Perguntei se ele havia escrito para mim. Ele logo respondeu, num tom reativo: ‘Essa música fiz para todas as minhas manguegirls’.”

“Foi uma linda história de amor. Tenho muitas cartas de Chico.Risoflora é uma música que me sensibiliza muito ainda”, conta Duda, que, depois da morte de Chico, prometeu colocar o nome do filho de Francisco; filho este que realmente veio a parir anos mais tarde. O pai é um artista argentino cujo desejo também era ter um filho Francisco. Coincidências da vida.

O romance de Duda com o cantor durou pouco mais de dois anos. Segundo José Teles, crítico de música e testemunha ocular da cena mangue, durante este período Chico mostrou a ele a canção e disse que a tinha escrito para sua namorada. No caso, a própria Duda. 

Veja letra na íntegra:

"Eu sou um carangueijo e estou de andada/ Eu quero gostar

E quando estou um pouco mais mais junto eu quero te amar/  E aí te deitar de lado como a flor que eu tinha na mão/ E a esqueci na calçada só por esquecer

Apenas porque você não sabe voltar pra mim

Oh  isoflora ! Vou ficar de andada até te achar

Prometo meu amor vou me regenerar

Oh Risoflora ! Não vou dar mais bobeira  entro de um caritó

Oh Risoflora, não me deixe só

Eu sou um carangueijo e quer gostar /Enquanto estou um pouco mais junto eu quero te amar

E acho que você não sabe o que é isso não/ E se sabe pelo menos você pode fingir

E em vez de cair em tuas mãos preferia os teus braços/ E em meus braços te levarei como uma flor

Pra minha maloca na beira do rio, meu amor !

Oh Risoflora ! Vou ficar de andada até te achar

Prometo meu amor vou me regenerar

Oh Risoflora ! Não vou dar mais bobeira dentro de um caritó

Oh Risoflora, não me deixe só"

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