ÁLBUM

Sid3 lança disco-síntese da resistência cultural na Mata Norte

"Sacrifício e fé" retrata a vivência na cidade de Tracunhaém e une elementos da cultura popular a referências mundiais

Alef Pontes
Alef Pontes
Publicado em 03/01/2015 às 13:46
Divulgação
"Sacrifício e fé" retrata a vivência na cidade de Tracunhaém e une elementos da cultura popular a referências mundiais - FOTO: Divulgação
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Nascido na Vila da Cerâmica São Joaquim, em Tracunhaém, na Zona da Mata Norte pernambucana, local marcado social e culturalmente pela cultura canavieira e produção artesanal por meio do barro, o músico e produtor Sidclei Marcelino, conhecido como Sid Batera, lança o álbum autoral Sacrifício e fé, no qual mostra a vivência em sua cidade, além de representar a religiosidade afro-indígena da região.

No disco, Sid aborda os ritmos que permeiam a vida na Zona da Mata como maracatu rural, coco, ciranda e frevo e mistura com suas referências mundiais como ska, cumbia, jazz e rock. Tarefa fácil para ele, que cresceu acompanhando os grupos da região e que, há 15 anos, levanta a bandeira da produção independente e resistência na cidade com o Tipoia Festival. A exemplo da música que abre o trabalho, Atenção pagés, um ska recheado de elementos da musicalidade indígena, pelos sopros de Felipe Silva, Haroldo César e Biu da Tuba.

A terceira faixa do disco, 1975 filhos da revolução, ganha um gás com as guitarradas de Fernando Catatau e se transforma em uma cumbia dançante sob os moldes do teclado de Bactéria, que participa de quase todas as músicas e ainda se juntou à equipe do Estúdio Casona para mixar o trabalho.

Caminho do feiticeiro faz referência aos maracatus rurais de Tracunhaém e ao fervor de suas apresentações no Carnaval pernambucano, assim como a religiosidade presente na manifestação, com a percussão (ilú e congas) e voz de Toca Ogan.

Baseada na versão da música de Geraldo Barbosa, gravada por Expedito Baracho no álbum Vamos cirandar, lançado pela Rozenblit em 1972, a música Lavadeira traz Cila do Coco e Zé Brown em um diálogo entre a ciranda e o rap, com direito a um trecho da versão de Baracho. “Ela lavou na folha da cana, na cana caiana, no canavial”, diz a letra.

Um detalhe curioso é que, para demonstrar a estreita relação que a música da Mata Norte tem com a cultura agrária, Sidclei se apropria de ferramentas do dia a dia, como enxadas e arado, para compor as sonoridades em seu set de bateria.

Como não poderia faltar, a música Vila da Cerâmica São Joaquim faz referência ao lugar onde o músico nasceu, e traz uma rabeca noise de Siba Veloso. Já na canção que encerra o álbum, Rio Tracunhaém, a bateria se une à rabeca nervosa de Cláudio da Rabeca, à viola de Caçapa e ao contrabaixo de Yuri Queiroga em uma bela criação instrumental que soa como manguebeat e, ao mesmo tempo, um maracatu psicodélico.

Mais do que um excelente baterista, Sid se mostra um profundo conhecedor dos ritmos e das manifestações culturais de seu lugar reverenciando e valorizando a cultura de sua terra.

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