ARTE-EDUCAÇÃO

Zé Brown mostra que hip hop e embolada se aprendem na sala de aula

Músico do Alto José do Pinho precisou trocar Recife por Diadema (SP) para poder levar adiante o desejo de unir sala de aula a cultura de rua

Alef Pontes
Alef Pontes
Publicado em 10/03/2015 às 5:02
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Músico do Alto José do Pinho precisou trocar Recife por Diadema (SP) para poder levar adiante o desejo de unir sala de aula a cultura de rua - FOTO: Divulgação
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“Como os retirantes do passado/Saí da minha terra natal pra trabalhar em outro Estado/Trazendo a saudade na mala, mas vim pra ficar/Se é essa a missão, vou continuar/Eu sei que tenho responsabilidade/Tenho que aproveitar as oportunidades/É triste você na sua terra não conseguir trabalhar/É governantes: é bom se ligar/Peço desculpas Pernambuco, mas um dia vou voltar”. É com essa embolada que o compositor, rapper, embolador e arte-educador José Edson da Silva, o Zé Brown (ex-Faces do Subúrbio), se despede de sua terra para poder dar continuidade ao seu trabalho, agora em São Paulo.

Conhecido pelo projeto Zé Brown Apresenta, iniciativa social que une hip hop, cultura popular e educação no Alto José do Pinho desde os anos 1990, o músico se mudou no início do ano para dar vazão às suas atividades como arte-educador no projeto Matéria Rima, na cidade de Diadema.

Surgido inicialmente como um grupo de rap, o projeto une as rimas e o conteúdo para auxiliar na educação de crianças do ensino fundamental em 15 escolas do município.

“Eu percebi que a molecada gostava muito de rap, mas não curtia muito escola. E comecei a me perguntar como a realidade deles iria mudar se eles não se interessarem. Então, eu comecei a criar rimas a partir das matérias, das disciplinas da sala de aula, português, história, geografia etc.”, conta o rapper e idealizador do projeto, Jobson do Nascimento, o Joul, também pernambucano, que afirma ter encontrado no rap uma solução para sua própria mudança: “Eu me apaixonei e foi uma das fugas para não me envolver com drogas e violência, porque a situação da periferia é complicada.” 

Segundo ele, com o tempo o grupo percebeu que os professores também sentiam falta de uma proposta que unisse a educação com a cultura de rua. “O Matéria Rima nada mais é do que um grupo que incentiva a leitura e a pesquisa, utilizando o gancho que é o hip hop para chegar perto dessa criançada, trabalhando a valorização dos professores”, conta o MC Joul.

“A criançada está perdida nesse mundo da ostentação e do consumismo, e não valoriza muito o estudo. O Matéria Rima é essa ponte da rua pra escola, dando suporte para os professores”, complementa. 

Esse processo se dá através de letras que abordam os conteúdos que os alunos têm dificuldades dentro de sala. E é aí que entra Zé Brown: “A vinda de Zé Brown pra cá é fundamental, porque ele trabalha com o rap genuinamente brasileiro: a literatura de cordel e a embolada. Ele também trabalha o trava-língua e isso tira a inibição das crianças”. 

Segundo Jobson, que se diz fã no rap-embolador desde a época que integrava a banda Faces do Subúrbio, além de uma grande aposta para a ampliação do projeto, a ida de Brown para Diadema é uma vitória. “Eu estou feliz para caramba, ele é um ídolo, sabemos o valor que tem e precisamos mostrar isso”, afirma. Já para Brown, além de ser uma grande conquista, é uma oportunidade para aprender com o grupo. 

“Para mim, Matéria Rima é muito importante para mostrar meu trabalho, e principalmente para interagir com a escola. O hip hop está vencendo. É uma matéria de rua entrando num espaço onde a educação está vencendo. Era bom que existisse um projeto de lei que tornasse o hip hop obrigatório nas escolas e entrasse no Brasil todo”, afirma o músico do Alto José do Pinho.

“Hoje nós estamos muito felizes, porque estamos trabalhando como sonhamos: dentro da escola, junto com o professor, entendendo a dificuldade que eles têm e desenvolvendo esse trabalho em parceria. E tenho certeza que diversos Zé Brownzinhos vão surgir por aí”, brinca o idealizador do projeto. 

Além de rap, as oficinas abordam ainda dança, grafite e teatro. O grupo conta com cerca de 25 profissionais, entre MCs, DJs, dançarinos, grafiteiro, fotógrafos e uma coordenadora pedagógica que orienta as atividades, atingindo mais de duas mil crianças.

APESAR DAS DIFICULDADES, PROJETO CONTINUA LÁ NO ALTO

Residindo agora em São Paulo, onde pretende continuar tocando as atividades no Matéria Rima e finalizar seus próximos trabalhos, Zé Brown garante que o projeto Zé Brown Apresenta continuará a existir no Alto José do Pinho.

“Na minha vida, isso é a continuidade da missão. Eu comecei porque queria passar meu conhecimento, o hip hop e a embolada, e eu quero aproveitar essa oportunidade como um ímã, para atrair a gurizada para as atividades. Hoje, graças à Deus, a gurizada que começou comigo, que e tinha 14 anos nos anos 1990, hoje são multiplicadores e vão dar continuidade ao meu trabalho”, garante o rapper.

“Eu andei o Brasil dando oficinas e workshops, sempre utilizando a embolada e a literatura de cordel, juntamente com o ritmo e poesia do hip hop. Já estava para vir para São Paulo há um tempo. Porque eu sempre venho em aqui por causa da música”, conta. Ele lembra que gravou o último disco no Recife, mas finalizou em São Paulo, e mantém trabalhos com outros artistas, como a dupla Caju e Castanha.

“Aqui tem mais campo, o mercado é vasto e amplo, e tenho a oportunidade de fazer outros contatos. Só não vou falar o sotaque, vou continuar com o vixe do Nordeste, porque isso está no sangue”, brinca.

Apesar de esperançoso, ele não esconde a tristeza ao contar que, por enquanto, o projeto no Alto José do Pinho se encontra parado, devido à falta de apoio. “Todo o projeto sempre fui eu que banquei do meu bolso. E sempre foi muito difícil. Uma parte do dinheiro que recebo dos shows vai diretamente para o projeto. O que é mais complicado é você ter que parar por um período porque não tem grana”, queixa-se. 

“É complicado ter um trabalho contundente, bonito, de luta, de representação, e você ter que sair do seu Estado para trabalhar porque não consegue manter seu projeto”, conta, afirmando nunca ter recebido atenção do poder público no Estado, apesar de muita procura. Som, tênis, tablado para a dança e alimentação são alguns dos itens que, segundo Brown, o projeto precisa para ter continuidade. 

“Depois que a atividade acaba, a gurizada tem que se alimentar. É esforço físico, tudo é um conjunto. “Na verdade, eu acho que não acreditam na proposta. Porque, desde o início, eu nunca consegui um apoio que bancasse o projeto por um ano, seis meses. E não é que eu não coloquei projetos nos editais. Quantos Zé Browns vão ter que sair da sua cidade para trabalhar em outros Estados?”, questiona. “É legal fazer essa ponte, esse intercâmbio, mas seria mais importante ter um trabalho como o Matéria Rima no meu Estado”, complementa o raper. 

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