HIP HOP

O poder do rap para as mulheres da periferia recifense

Novatas e veteranas do hip hop se unem para conseguir respeito e espaço onde a agenda feminina ainda é pouco debatida

Nathália Pereira
Nathália Pereira
Publicado em 10/04/2016 às 5:33
Foto: Sérgio Bernardo/JC Imagem
Novatas e veteranas do hip hop se unem para conseguir respeito e espaço onde a agenda feminina ainda é pouco debatida - FOTO: Foto: Sérgio Bernardo/JC Imagem
Leitura:

Há cerca de um mês, Elaine Silva, conhecida no movimento hip hop como Laay, fundadora do Poder Feminino Crew (PFC), junto com outras duas MC’s, criaram a banca Rimatitude Di Mina. O projeto é prévia de um coletivo que terá como função principal viabilizar eventos, apresentações e espaços para gravação de músicas de artistas e grupos femininos. “Estamos nos organizando e a tendência é ficarmos cada vez mais fortes”, antecipa, confiante, Laay.

Dentre as muitas garotas que dão continuidade à luta das primeiras Mestres de Cerimônia locais, as meninas do PFC têm se destacado pelas letras recheadas de recados diretos avisando que elas chegaram sem intenção de ir embora. Na letra de Todo Poder a Elas, entoam: "Nossa arte é nossa munição / Arrombo portas fechadas com coragem e determinação". A ideologia das seis garotas dos bairros do Curado, Santo Amaro, Vila Dois Carneiros, Vila Rica e UR-11 está presente também nas redes sociais, onde é possível ler: “Enquanto tivermos voz vamos representar Marias, Ritas, Martas, entre outras que ainda vivem e sofrem. Não aceitamos mais papel de figurante”. 

Já integrei grupos com homens, mas sentia que eu funcionava como um enfeite, não tinha o mesmo protagonismo que eles.

Laay Silva, MC do Poder Feminino Crew

Para ganhar espaço, de fato, Laay percebeu que só haveria um caminho:se unir a outras mulheres. “Já integrei grupos com homens, mas sentia que eu funcionava como um enfeite, não tinha o mesmo protagonismo que eles. Se estar do hip hop já é difícil, quando se é garota, precisamos ser três vezes melhor que um cara para conseguir o mesmo respeito”, dispara a jovem de 23 anos, habituada a representar o feminino em muitas áreas da vida. “Sou analista de sistemas e já era a única mulher do setor em que trabalho. Na universidade, minha sala era composta por quarenta alunos. Havia apenas eu e uma colega”, lembra. 

O reconhecimento que vem recebendo do público de dentro e fora de Pernambuco tem sido o combustível para entrar em lugares onde a agenda feminina ainda é pouco debatida. “Queremos abrir caminho para que outras meninas também possam mostrar o que estão compondo e cantando. Precisamos falar para as mulheres menos esclarecidas sobre seus direitos, para as muitas donas de casa que vivem apenas para o lar. O feminismo tem que estar nas periferias porque nelas ainda se reproduz muito o machismo”. 

O movimento do rap feminino, vale lembrar, é anterior à geração do PFC. E quem chegou antes, precisou fazer um trajeto longo. Fabiana Coelho tinha 13 anos quando conheceu, através dos amigos dos bairros da Torre e da Madalena, Zona Norte do Recife, o inconformismo com as injustiças sociais retratadas através das letras dos MC’s na cultura de rua. Aos 15, casada com um frequentador assíduo dos bailes de hip hop da cidade, viu pela primeira vez um grupo só de mulheres empunhando microfones em cima de um palco. Nunca mais esqueceu aquele dia.

Passaram-se vinte anos. Fabiana descobriu que mulheres também poderiam usar rimas e poesias como instrumento para expor seus anseios e questionamentos. Neste tempo, aprendeu a escrever as próprias músicas, integrou grupos importantes da cena rap do Recife – como o Donas, com as também MC’s Ana Talita e Mariana Oliveira (MJ)– e tomou para si o papel de levar na arte que produz questões ligadas ao machismo cotidiano, o racismo e o fortalecimento do poder das garotas. “Sempre estive perto de comunidades como Vila Cardoso e Santa Luzia, locais onde presenciei muitas mulheres submissas e diminuídas dentro de suas próprias casas. Era inevitável fazer desses testemunhos temas para o que eu cantava. O hip hop tem caráter de formação política e uso esse espaço para tentar modificar a realidade”, recorda Fabiana. 

Confira entrevista com Ya Juste, uma das MCs do projeto Arrete.

Hoje, mãe de dois filhos, ela cursa a graduação em Serviço Social e sempre que pode insere na rotina corrida as oficinas de rima que ministra como educadora. Nelas, estimula meninos e meninas a pensarem uma sociedade mais igualitária. Mas o gênero musical, nascido entre as ruas das comunidades latinas e africanas de Nova Iorque, ainda abriga muitos olhares enviesados quando a figura atrás do microfone é uma mulher. É aí que entra a atuação das novas gerações e das pioneiras, de mulheres vindas dos subúrbios da capital e cidades vizinhas. 

GRAFITE E DANÇA

Quando ganhou a oportunidade para participar de um curso de cinema de animação, ainda durante a escola, Rafaela Fagundes, 24 anos, não imaginou que os personagens que ganhavam vida nas técnicas aprendidas em sala de aula poderiam parar nos muros da cidade. Habilidosa com os desenhos desde criança, era a única mulher entre os mais de dez alunos da turma. Com eles, descobriu o poder das latas de tinta e a arte que vai às ruas. O encantamento foi imediato.

Hoje, com alguns anos de experiência e sob a alcunha de Strega, assina grafites inspirados pelo que vivencia no bairro de Santo Amaro, onde mora. Os debates com as companheiras do grupo Poder Feminino Crew e o desejo de que as garotas sejam vistas além das curvas de seus corpos entram na pauta. “Somos negras, nordestinas, da periferia. Existirmos já é resistência. Nossa arte é reflexo disso”, enfatiza.

Dentro da cultura hip hop, o grafite equivale à música, em força, para as artes visuiais. Sair dos bairros de periferia e colorir as fachadas de centros urbanos faz com que o recado atinja um público maior. “Nem todo mundo ouve rap, mas é difícil não se encantar com linhas e cores. Já fui abordada, enquanto grafitava, por gente que não entende muito da cultura de rua, mas gostaram do trabalho. Pude falar a elas sobre o que eu havia retratado, na maior parte das vezes, represento a violência contra a juventude negra e as mulheres.” 

Assim como Rafaela, Maria Eduarda Serafim, a b-girl (as garotas do breakdance) Duda, descobriu no meio da diversão dos garotos uma nova paixão. Em 2007, aos 16 anos, notou que nos intervalos da escola onde estudava, em Prazeres, Jaboatão dos Guararapes, os meninos ensaiavam passos de dança de rua. Ouviu de um deles que aquilo era coisa de homem, interpretou a afirmação como afronta e decidiu que seria tão boa na dança quanto eles. Começou a participar de ensaios três vezes por semana. No mesmo ano, saiu vice-campeã da batalha de breakdance realizada no Esporte do Mangue, encontro voltado para a arte de rua, que era realizado pela Prefeitura do Recife.

Atualmente integrando o projeto Arrete e o grupo de dança Girls Domination, ambos compostos só por mulheres, ela utiliza elementos da cultura popular, como o xaxado, para traduzir em movimentos a delicadeza e a força da nordestina. “Quando estou dançando, viro personagem, uma Maria Bonita, encarando o que vier”. Aprovada para o curso de Licenciatura em Dança da UFPE, a bgirl pretende intermediar o diálogo entre academia e cultura de rua. “Quero levar minha vivência para a universidade e mostrar aos companheiros e companheiras de breaking que lá também é nosso lugar”, conclui.

DIVULGAÇÃO

Foi a partir da observação do acervo de fotos e vídeos que produziu ao acompanhar batalhas de rima nos bairros da Região Metropolitana do Recife que a estudante de publicidade e propaganda Rebecca Vilaça, 24 anos, teve a ideia de desenvolver um trabalho que ajudasse a impulsionar as atividades do movimento hip hop local. Junto às colegas Maria Eduarda, Claudiane Souza e Rafaela Barbosa, ela formou o Coletivo Soul Di Rua. Em atividade desde 2014, o grupo tem como uma das bandeiras dar visibilidade à produção feminina no rap em Pernambuco.

Primeira produção audiovisual encabeçada pelo Coletivo, o projeto Rima Delas apresenta, desde janeiro, minidocumentários com relatos de Mc’s pernambucanas contando suas histórias com o rap. Todos os vídeos são produzidos e editados pelas integrantes do Soul di Rua. A intenção é publicar 12 vídeos, um a cada mês, até o fim do ano. Nas duas primeiras edições, as Mc’s Lets e Bellator, de 17 e 18 anos, respectivamente, compartilharam a visão da nova geração de mulheres do hip hop pernambucano a respeito de cena.

“Mulheres de dentro e fora da cultura de rua têm lutado por representatividade e nós temos usado a internet para fortalecer essa luta. Já ouvi relatos de Mc’s com trabalhos muito bons que não conseguem apoio para gravar as músicas, por exemplo, porque a parte burocrática ainda está em mãos masculinas e muitos desses homens não conseguem lidar com o fato de uma mulher ser tão boa ou melhor do que eles”, revela Rebecca.

Em março, a protagonista do Rima Delas foi Skull, grafiteira e tatuadora com mais de dez anos de experiência na cena hip hop recifense. O vídeo está disponível no site do Rap Nacional Download (rapnacionaldownload.com.br), onde também é possível assistir às edições anteriores. O portal é um dos mais relevantes dedicados à promoção da cultura hip hop do país.

Sobre a cena rap, de maneira geral, Rebecca acredita que ainda há muito sendo feito de homens para homens e que vem da união entre as mulheres o caminho para a mudança. “Trabalhamos para ampliar nossa voz. Cada uma de nós tem suas particularidades, mas somos muito mais sensíveis ao lidar umas com as outras porque sentimos na pele as mesmas opressões de gênero. Nosso olhar em relação ao que elas estão falando acaba sendo muito mais detalhista do que o de um homem”, finaliza.

O jornalismo profissional precisa do seu suporte. Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Últimas notícias