MÚSICA

Amaro Freitas renova estruturas do jazz em 'Sangue Negro'

Pianista trabalha seu álbum de estreia em quatro shows no Vivo Open Air. Ele trata a música de forma mais ampla e livre

GGabriel Albuquerque
GGabriel Albuquerque
Publicado em 29/11/2016 às 10:03
Foto: Rafael Medeiros/ Divulgação
Pianista trabalha seu álbum de estreia em quatro shows no Vivo Open Air. Ele trata a música de forma mais ampla e livre - FOTO: Foto: Rafael Medeiros/ Divulgação
Leitura:

 “Às vezes a gente fica preso às formas de melodia e harmonização, mas o som já existe. Essas são apenas formas esquematizadas de organizar a música – e a música europeia, não é nem a nossa música. O som é muito mais do que isso. O som pode ser ruído, pode ser qualquer coisa que eu possa trabalhar dentro da minha cabeça”, diz o pianista e compositor pernambucano Amaro Freitas em entrevista por telefone.

A concepção de Amaro da música como uma expressão mais ampla e livre permeia Sangue Negro, seu álbum de estreia, que ele apresenta em quatro shows no Vivo Open Air – são dois shows na semana: ele toca amanhã, às 19h30, seguido da exibição de Café Society, filme de Woody Alen lançado este ano, e show de Pepeu Gomes. E também na sexta-feira, antes de Aquarius e do show de Otto.

Amaro explica que a “ideologia” de Sangue Negro é “trazer elementos da música pernambucana para instrumentos eruditos”. No caso, a formação instrumental é o clássico trio jazzístico de piano, baixo acústico (pelas mãos de Jean Elton) e bateria (Hugo Medeiros, professor do Conservatório Pernambucano de Música e integrante das bandas Rua e Mojav Duo). 

“As composições foram sendo criadas antes desse pensamento de gravar um disco. Fui compondo e elas iam surgindo, não só através de melodias ou ritmos mas sempre estavam ligadas a um conceito”, conta. “Eu sempre pensei mais em uma história. Norte eu fiz num momento mais calmo, me lembra o norte como a parte mais fria do planeta, um clima invernal. E você consegue entrar nesse clima de relaxamento. Já Sangue Negro é uma musica altamente quente e com essa identidade do negro trabalhador”. 

Misturando maracatu e bebop, a energizante faixa título é a síntese do projeto musical de Amaro. “O maracatu e vários elementos rítmicos daqui são uma herança africana. Eu pego a clave (do ritmo) e, além de botar na bateria, eu faço isso no piano. Nessa música a gente também coloca o bebop, que é o jazz mais acelerado, e muito improviso”, detalha. “No fim, tá todo mundo suado!”.

O álbum conta com produção e direção musical do renomado pianista e arranjador Rafael Vernet, que já trabalhou com Roberto Menescal, Chico Buarque, Zé Renato, Hermeto Pascoal, entre outros. “Eu fui fazer um show no Rio de Janeiro e peguei umas aulas com ele. As aulas foram um divisor de águas pra mim, ele junta filosofia com musica como fosse uma coisa só. Depois consegui trazer ele pro Recife em parceria com o Conservatório e convidei ele pra produzir o disco”.

Estudante de produção fonográfica, Amaro coproduziu o recém-lançado Arsênico, de Romero Ferro. Porém ele sentia necessidade de alguém para pilotar a gravação de seu próprio álbum, é aí que entra Vernet. “Quando se trata de seu trabalho, você fica muito apegado ao que você quer. Se não fosse por Vernet o disco seria 50% do que é porque eu não tinha experiência. Às vezes eu me via tão perdido no que achava que era correto. Essa produção dele foi uma aula pra mim”, avalia.

Trajetória

Amaro Freitas, 25 anos, começou a tocar piano na igreja aos 12 instruído pelo seu pai. Estudou com diversos professores e passou pelo Conservatório, mas não concluiu (“estudei piano popular por seis meses, nem peguei em instrumento”).

Na busca pela cena pernambucana de pianistas de jazz, ele passou a frequentar e tocar em diversos restaurantes do Estado – desde 2014 é músico residente do Mingus, em Boa Viagem. Nessas apresentações em restaurantes ele conheceu o baixista Jean Elton. 

O encontro com o baterista Hugo Medeiros foi posterior. “Eu procurava um baterista de jazz. Me falaram: ‘tem um doido do Conservatório que faz umas músicas em (compasso) 7/8 e 6/4’. Eu queria gravar uns standards com ele, mas ele disse: “Mermão, eu não vou gravar standard que todo mundo já gravou, mas se for pra tocar suas músicas eu quero. Essa implicância dele incentivou as composições. Me fez parar e arranjar as músicas pro baixo, pra bateria e montar todo programa”, admite Amaro.

Sai reverência e entra renovação

O frevo-jazz de Encruzilhada, faixa que abre Sangue Negro, logo nos remete à música da SpokFrevo Orquestra. Mas há uma diferença notória: enquanto Maestro Spok é um músico de frevo que flerta com jazz, Amaro Freitas, ao contrário, é um jazzista interessado em revolver o gênero sob um prisma moderno da música regional e do afro-brasileira.

No mundo inteiro há uma força de renovação do jazz, promovida por nomes como Kamasi Washington, Flying Lotus, BadBadNotGood, Esperanza Espalding e outros que rompem com a tradição reverente dos standards e sua infinita repetição dos clássicos de Chet Baker, Bill Evans e Miles Davis. Inserido em um contexto local e de forma particular, Amaro é cria e vetor deste mesmo movimento.

“Eu vejo muito como um processo natural das pessoas, dos novos músicos”, reflete Amaro. A gente compõe frevo, compõe samba naturalmente e sem ser da mesma forma, entende? A gente pensa no jazz – me refiro a essa nova cena com Hugo Medeiros, Jean Elton, Henrique Albino, Ítalo Sales – e é diferente, já se renovou. E acredito que as próximas gerações também vão vir com novas perspectivas”.

O início do álbum, com Encruzilhada e Norte, é um tanto morno, previsível, sem muitas surpresas. Mas conforme as faixas avançam, a experiência se adensa. Em Estudo 0 (de Hugo, única composição não assinada pelo próprio Amaro), baixo, piano e bateria criam uma base fluida, abrindo o espaço para a entrada dos convidados Fabinho Costa (trompete) e Eliudo Souza (Sax), que instauram uma paisagem esfumaçada e enigmática. Uma música inclassificável e fascinante.

Em Samba de César, há um deslocamento intrigante. É o baixo que segura a estrutura e dá o groove, enquanto a bateria está em conversa com o piano. A faixa-título é um free jazz a Ornette Coleman com uma narrativa vertiginosa de oito minutos e meio. Começa com o ritmo frenético no baixo acústico e vão insurgindo os ataques de bateria, baixo, sax e trompete. As diversas reviravoltas rítmicas vão conduzindo a epifania final, encerrando o disco em clima apoteótico.

Sangue Negro é um álbum de procedimentos simples, mas extremamente provocativo. E o melhor de tudo é que deixa a sensação de que este é apenas o primeiro passo e que Amaro Freitas ainda tem muito para mostrar. 

O jornalismo profissional precisa do seu suporte. Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Últimas notícias