Disco

John Coltrane em gravações realizadas numa fase de transição

Disco de inéditas de Trane é tido como seu álbum perdido

José Teles
José Teles
Publicado em 03/07/2018 às 11:20
Foto: divulgação
Disco de inéditas de Trane é tido como seu álbum perdido - FOTO: Foto: divulgação
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Um disco inédito de John Coltrane é mais ou menos como se fosse achado um Da Vinci desconhecido pelos especialistas na obra do artista. Do mestre italiano já se encontraram rascunhos, da maior importância, claro. No dia 29 de junho foi lançado um álbum de Coltrane, Both Directions at Once: The Lost Album (Impulse! Records), que nem é exatamente o álbum perdido, nem gravações feitas com a finalidade de serem lançadas como um produto concluído. A sessões que formam o disco, realizadas em 6 de março de 1963, certamente estavam catalogadas e guardadas nos arquivos da Impulse! Records.

Na versão oficial, porém, conta-se que os tapes originais foram incinerados pelo pessoal da Impulse! A fim de abrir espaço para outros tapes, e que este disco teria sido feito com uma cópia que estava no acervo de Juanita Naima Coltrane, primeira mulher do saxofonista. É quase impossível se acreditar que a gravadora fosse destruir gravações de Coltrane, em 1963, um dos mitos do jazz. Depois, segundo o biógrafo do saxofonista, Ben Ratliff, do New York Times (que já esteve no Recife cobrindo o Abril pro Rock), a Impulse! conservas registros de concertos do saxofonita equivalentes a 80 discos. Material que vem sendo lançado em doses homeopáticas, um por ano, portanto, até o final do século haverá discos novos de John Coltrane no mercado.

John Coltrane, com McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (baixo) e Elvin Jones (bateria), um dos melhores quartetos da história do jazz, gravaram os sete temas de Both Direction at Once, às vésperas de uma temporada no Birdland, em Nova Iorque, no estúdio Van Gelder em New Jersey. Gelder foi um dos mais notáveis engenheiros de som do jazz, trabalhou com todos os grandes, e com Coltrane em, entre outros, A Love Supreme. Na época dessas sessões, John Coltrane, já há dois anos enveredava por uma nova fase de sua carreira. Até o final da década de 1950, tornara-se mais conhecido pela caudalosa enxurrada de notas, batizadas de sheets of sound, que era uma continuidade do bebop de Charlie Parker, para se abrir para outras matizes sonoras.

A mais importante, a troca do sax tenor pelo soprano. Como o próprio Coltrane admite em uma entrevista concedida a Frank Kofsky, da revista Jazz & Pop, em agosto de 1966. Ele admite que a opção pelo sax soprano, lhe deu maior controle do instrumento, que conseguia tocar por inteiro, e explorar melhor ideias, que não conseguia realizar no tenor, sobretudo nos registros mais altos. Ao mesmo tempo que, ao dominar o barítono, conseguiu melhor performance no tenor. Ele começou a usar o sax soprano, até então muito pouco empregado no jazz, em 1960, quando fez a ultima turnê como músico de Miles David, que lhe presenteou com o instrumento.

Naquele mesmo ano, John Coltrane gravaria o álbum My Favorites Things (Rogers & Hammerstein II), sem a avalanche de notas, em compensação com uma exuberância de lirismo e acessibilidade, uma interpretação modal, deste tema do filme A noviça rebelde. Coltrane conheceu o sabor do sucesso, emplacando My Favorites Things nas paradas, um raro exemplo de um estrondoso sucesso popular de um músico de jazz. Em 1963, ele ainda estava na fase das baladas, e Both Direction at Once tem uma clássica, Nature Boy (Eden Ahbez), mas em pouco mais de um ano criaria um dos monólitos negros do jazz, A Love Supreme. Explica-se pois, o título do álbum, Both Directions (duas direções). Ao mesmo em que aparentava trilhar o convencional, Coltrane experimentava ritmos, modos, novos caminhos.

REPERTÓRIO

Nestas sessões ele gravou Vilia, uma canção da opereta A Viúva Alegre, de Franz Lehar, da maneira mais convencional que lhe poderia ser possível. Feito Jimi Hendrix, sua contraparte no rock and roll, John Coltrane dividia-se entre o palco e o estúdio, tocava muito pouco em casa. E aí há possibilidade de alguém da Impulse! ter realmente destruído o tape desta sessão, de algumas horas de John Coltrane. Ele gravava muito mais no que cabiam os dois discos anuais estabelecidos em seu contrato com a gravadora. Tão rápido que as duas melhores faixas do álbum não foram batizadas, ganharam números, tal como algumas peças da música erudita, Untitled Original 11383 e Untitled Original 11386, dois blues, com o formato tradicional do gênero, mas com sequencia de acordes inimaginável neste tipo de música.

Assim como os rascunhos mais despretensiosos de Da Vinci ou de Picasso, essas sessões de Coltrane, Tyner, Garrison e Jones, mesmo sem todo empenho na execução dos temas, são importantes. Mostra o Trane numa época em que ele procurava traçar novos caminhos para o jazz. Dezoito meses mais tarde, com os mesmos músicos, no mesmo estúdio, gravou o álbum considerado sua obra-prima, A Love Supreme. Mas seguiria em frente seus últimos trabalhos iam além do jazz, já se enquadravam no experimental.

 

 


 
 
 

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