Tropicália 50 anos

Tropicalismo provocou racha na música popular brasileira

Chico Buarque tornou-se símbolo involuntário da tradição

JOSÉ TELES
Cadastrado por
JOSÉ TELES
Publicado em 15/07/2018 às 11:20
foto: reprodução
Chico Buarque tornou-se símbolo involuntário da tradição - FOTO: foto: reprodução
Leitura:

“Chico é apenas um menino de olhos verdes que encanta as meninas, e faz música fácil para o povo aprender. Só isso”, disse Caetano Veloso sobre Chico Buarque, no auge do tropicalismo, à revista Intervalo (Caetano, em Verdade Tropical, escreveu que essa foi sua primeira lição sobre as armadilhas da imprensa). Porém, não foi o comentário que deflagrou a guerra entre a ala nacionalista da MPB e a que pretendia acabar a blindagem às influências externas.

 Até Caetano Veloso e Gilberto Gil acenarem abertamente para o iê-iê-iê, a MPB vivia em relativa paz. Músicos de estilos e ideias diferentes participavam de concursos musicais e assinavam parcerias. Quando a Tropicália se firmou como movimento, a imprensa, sobretudo ela,passou a confrontar Caetano Veloso com Chico Buarque, como se fossem os dois lados de uma moeda chamada MPB. Por sua vez, Chico e os baianos bateram de frente durante uma eliminatória do festival da Record de 1968, no Teatro Paramount.

Chico foi recebido sob pesadas vaias por uma parte da plateia. De uma frisa no teatro, Gilberto Gil levantouse para pedir que cessassem as vaias. Saiu na imprensa: “Gil incentivou os apupos”. Chico Buarque acreditou. Dois anos depois, a ferida ainda não estava sarada. Ele a extravasou numa longa entrevista ao semanário O Pasquim. Um trecho:

 “Depois dessa confusão toda que deu, da época desse festival e tudo, eu perdi o contato com eles, eu perdi a amizade deles. Então eu não entendo mais se o Caetano é o mesmo que eu conheci, que saía comigo e a gente cantava imitando João Gilberto, ele bebia e tinha mania de subir em árvore e tal. E o Gil, que eu conhecia mais ainda. Eu tinha realmente uma amizade muito grande com eles, contato mesmo. Foi uma coisa de um mês, dois meses que eu não os vi e que, de repente, apareceu todo esse movimento de tropicalismo que me assustou um pouco, porque veio um pouco em cima de mim, a imprensa toda me pegou pra bode expiatório”.

 Chico seria o defensor da tradição, o velho, Caetano, defendia mudanças radicais, o novo. A dicotomia se instalou MPB afora. Porém a guerra contra a música gringa remontava aos anos 1930 e 40, quando os boleros, rumbas e mambos invadiram as ondas do rádio brasileiro. Um dos mais ferrenhos adversários da música importada foi o embolador (pernambucano do Cabo) Manezinho Araújo, em catilinárias na Revista do Rádio, uma delas intitulada Roteiro de Vigaristas:

 “Depois que o Brasil se tornou roteiro de vigaristas, tem aportado cá nas nossas plagas audaciosos elementos que, em nome da arte, tem cometido uma série de salafrárias afoitezas”, e aí não sobrava apenas para os astros do bolero, como também para os chansoniers franceses, também com generoso espaço no Brasil, nomes como Charles Trenet e Jean Sablon. Manezinho Araújo chegou a espalhar que o espanhol Gregório Barrios, um dos maiores ídolos do bolero, estaria ficando cego. A notícia circulou e recebeu negações de médicos e protestos indignados do empresário do cantor. O próprio Barrios fez questão de posar para a Revista do Rádio, enfiando uma linha no fundo de uma agulha de costura a fim de provar que continuava enxergando.

 GAIATO SEM VOZ

 A bossa nova, com a interpretação cool, sem vibrato, de João Gilberto, as letras leves de Vinicius, as melodias requintadas e acessíveis de Tom Jobim, soaram como uma heresia para boa parte dos brasileiros. Adelino Moreira, fornecedor de sucessos para estrelas do rádio, expressou sua desaprovação à bossa nova no samba-canção Seresta Moderna (lançada por Nelson Gonçalves). Vale a pena transcrever a letra, uma claríssima indireta a João Gilberto: “Um gaiato cantando sem voz/um samba sem graça/desafinado que só vendo”.

 Artistas badalados, que não rezavam pela cartilha do que se considerava de bom tom segundo os padrões estabelecidos na Zona Sul carioca ou que não pertenciam a determinadas turmas, eram alvos de críticas, ou esnobadas. Quando Luiz Gonzaga era o maior vendedor de discos do país, Dorival Caymmi sapecou-lhe uma alfinetada, num comentário publicado na Revista de Música Popular (em janeiro de1955):

 “A nossa música popular recebe em cada fase muitas influências exóticas e de um caráter extremamente comercial. Há muitas falsidades feito o baião e a música do morro” . Elis Regina, em 1966, a voltar de uma de suas primeiras viagens internacionais, horrorizou-se com a popularidade do iê-iê-iê, que se tornara o gênero musical mais consumido no Brasil. A cantora teve uma de suas habituais explosões de ira:

 “Esse tal de iê-iê-iê é uma droga, deforma a mente da juventude. Veja a música que eles cantam: as músicas têm pouquíssimas notas e isso as torna fácil de cantar e de guardar. As letras não contêm qualquer mensagem, falam de bailes, palavras bonitinhas para os ouvidos, coisas fúteis. Qualquer pessoas que se disponha pode fazer música assim, comentando a última briguinha com o namorado. Isso não é sério nem é bom, então por que manter essa aberração?”

 Em 1968, Elis Regina, depois de um estrondoso sucesso em Paris que incensou o ufanismo nacional, eximiuse de entrar na briga. Anunciou que não cantaria mais em festivais. Sabia-se que estava ao lado dos “tradicionalistas” pelo repertório que escolhia para seus shows. Mas tradicionalistas, feito o violonista Baden Powell, não escondiam que não aprovavam o movimento liderado por Caetano e Gil: “Tropicalismo é uma promoção pessoal. Pra mim a maior fonte de inspiração ainda é o candomblé. Tem muitas raízes a serem exploradas. Há sempre coisa nova”, comentário de Baden.

 Na coluna Música Popular, da revista A Cigarra, em 1968, Nelson Motta arvorou-se a arbitrar os imbróglios entre alas musicais: “A música popular brasileira está vivendo um clima de guerra. É bala de tudo que é lado e desunião maior do que nunca ... Chico Buarque é da maior importância com a poesia que faz. Mas para exaltar Chico não é preciso criticar Caetano Veloso só porque esse procura encontrar sua música em outros caminhos, e por outros métodos, mas com igual talento”.

VANDRÉ

 “Tropicalismo? Acho que piorou um pouco. Tem uma história da guitarra, de que fiz declarações contra a guitarra elétrica. Não fiz. O Quarteto Novo, que organizei e criei para fazer o meu programa na TV Record, contava com um dos maiores músicos do Brasil, Heraldo do Monte, que tocava guitarra elétrica. Eu não sou contra guitarra elétrica, o problema é a guitarra à frente de tudo”, de Geraldo Vandré, em entrevista concedida em março de 2018, em João Pessoa. Cinquenta anos atrás, ele foi pivô de um episódio constrangedor na guerra de secessão da MPB. Ao ser apresentado à recém-composta Baby, de Caetano Veloso, gravada por Gal Costa, Vandré disse que achava a música uma merda. Em Verdade Tropical, Caetano conta que caiu em cima dele, nos seus célebres esculachos.

 A briga. No entanto, foi curta, e Caetano e a Tropicália saíram-se vencedores. Em 1970, Chico Buarque fez o álbum Construção, com arranjos de Rogério Duprat, principal maestro do tropicalismo. Em 1972, ele e Caetano fumaram o cachimbo da paz, no show Caetano & Chico, no Teatro Castro Alves, em Salvador. Em 1970, Elis, a inimiga das guitarras, era acompanhada por uma guitarra (de Roberto Menescal), cantando o hit pop americano Can’t Take My Eyes Off You (disco de show no Teatro da Praia, no Rio). Depois do tropicalismo, nada foi como antes na MPB.

Últimas notícias