Homenagem

Um ano sem Chester Bennington e sua potência incendiária

Em 20 de julho de 2017, os fãs do rock e do rap recebiam com impacto a notícia da morte súbita do vocalista do Linkin Park

Luana Nova
Luana Nova
Publicado em 20/07/2018 às 11:58
Ilustração: Ronaldo Câmara/JC
Em 20 de julho de 2017, os fãs do rock e do rap recebiam com impacto a notícia da morte súbita do vocalista do Linkin Park - FOTO: Ilustração: Ronaldo Câmara/JC
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Há um ano, o mundo se despedia de Chester Bennington, eterno vocalista do Linkin Park, grupo americano de metal alternativo que nos anos 2000 marcou uma geração com seu feeling pop apurado, misturando rock e rap, o que ajudou a fundar e popularizar o estilo nu metal (por mais que Chester não gostasse da classificação, embora reconhecesse, como disse à Billboard em 2007). O grupo — que se completava com Brad Delson, Dave Farrell, Joe Hahn, Mike Shinoda e Rob Bourdon — conquistou uma legião de fãs ao redor do mundo, sobretudo adolescentes e jovens que se identificavam com as emoções deprimentes e revoltantes provocadas pelo som pesado e pelas composições pungentes e lacerantes do então sexteto. Muitas dessas letras que, inclusive, falavam sobre os problemas que Chester enfrentou na infância.

“A história dele me chamava a atenção porque ele veio do nada, era pobre. Sofreu abuso sexual na infância, tinha pais separados. E ele conseguiu realizar o sonho dele, ser alguém. Ele era meu favorito, eu admirava muito a pessoa dele, principalmente como ele havia conseguido superar as dificuldades. Mas aí veio a notícia e vimos que na verdade ele nunca conseguiu se curar da depressão. Infelizmente os traumas da infância o levaram ao suicídio”, relatou Amanda Nascimento, 25, analista de sistemas e ex-redatora do site LP Inside, em entrevista realizada em seu quarto, em um apartamento em Jardim Brasil I, em Olinda, onde guarda com carinho um arsenal da banda.

A fã Amanda Nascimento segurando seu DVD autografado | Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem

Entre pôsteres, CDs, DVDs, livros, camisetas, bottons, recortes de revistas e outros objetos relacionados à Linkin Park, banda que conheceu em 2001 através da MTV, Amanda tem um apreço especial pelo DVD Frat Party at the Pankake Festival, o primeiro do grupo, lançado em 2001. É que ele foi autografado por todos os integrantes da banda durante o SWU Festival, onde fizeram show em São Paulo, em 2010. “Fui uma das selecionadas pelo fã-clube oficial deles para um Meet & Greet, entre centenas de pessoas, mas infelizmente não pude ir ao show porque não consegui tirar férias do trabalho. Foi um amigo meu quem pegou as assinaturas pra mim”, lamentou. Apesar dos pesares, a analista teve a oportunidade de ver ao vivo uma das melhores fases do Linkin Park, logo após o lançamento do apoteótico Meteora (2003), o segundo álbum de estúdio. “Eu devia ter uns 11 anos na época, mas aperreei tanto minha mãe que ela me levou para o primeiro show deles no Brasil, no Morumbi (2004)”, contou.

Até hoje, Meteora é o disco favorito de Amanda. E talvez o da maioria dos fãs, com Mike Shinoda atacando mais de MC. Com relação à música, ela diz que não há nenhuma que a emocione como In The End, que integra o Hybrid Theory (2001), debut mais bem-sucedido do século 21, com mais de 30 milhões de cópias vendidas.

Para Mayara Castro, técnica em edificações, 27, In The End e Somewhere I Belong (Meteora) serviram de porta de entrada para a esfera “linkin maníaca”, nome que usava na adolescência em seu e-mail pessoal. “Conheci a banda através da MTV. Hoje, uma das minhas canções favoritas é a versão de With You do DVD Live In Texas, por causa da interação entre Chester e Mike ao vivo. Ela marcou uma fase bem complicada da minha vida”, contou.

Em 20 de julho de 2017, quando Bennington foi encontrado morto em sua residência em Palos Verdes, no Sul da Califórnia, foi um trecho de In The End que ecoou pelas redes sociais em tom uníssono de homenagem: “I tried so hard and got so far (eu tentei tanto e cheguei tão longe, em livre tradução)”, reproduzido amplamente na terceira pessoa do singular.

Chester nunca escondeu os fantasmas do passado. E as veias que saltavam do seu pescoço a cada vez que ele soltava a voz (indo facilmente do canto melódico ao gutural, e vice-versa) eram um exemplo claro da força que ele fazia para tentar expurgar todos eles. Em entrevista à Rolling Stone americana, em 2002, ele falou sobre Crawling (Hybrid Theory): “É sobre eu ser o motivo de estar como estou. Tem alguma coisa que me agarra e me puxa para baixo”. Não é por acaso que acumulou tantos admiradores. Não eram só os seus problemas pessoais que dialogavam com as angústias da juventude, mas a energia e a potência dramática que acionava para lidar com eles. Por isso, para tanta gente, a sua morte foi desconcertante. Revoltante até, como sua música.

“Estava chegando em casa do trabalho quando soube. Uns amigos estavam comentando no WhatsApp, mas achei que fosse boato. Fui imediatamente procurar na internet e vi que o Mike [Shinoda] tinha confirmado no Twitter. Chorei muito. Parecia que um parente meu havia morrido”, contou Amanda. Hoje, além da memória de um show marcante, ela carrega consigo duas tatuagens, uma com o logo LP que fez no pulso, aos 18 anos, e outra que tatuou após a morte do frontman. “É a arte do One More Light (sétimo e último álbum de estúdio, de 2017), que traz os braços de cada um dos integrantes dados na forma de círculo. No braço de Chester, acrescentei as chamas que ele tinha tatuado”.

Tatuagem de Amanda Nascimento em homenagem à LP| Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem

Assim como Amanda, Mayara tomou ciência da morte pelos comentários de colegas nas redes sociais. “Fiquei chocada e triste, me lembrei de um episódio em 2004, quando divulgaram uma notícia falsa da morte dele e fiquei devastada na escola. Com a notícia real da morte, eu recordei dessa adolescente que sentia um carinho tão intenso por alguém que nem conhecia, e lamentei muito por ela e por todos os fãs que sentiram essa perda apesar de não o terem conhecido”, contou, compartilhando da vontade de homenagear a banda também com uma tatuagem. “Pretendo fazer um trecho de alguma das músicas em algum momento”.

Homenagem no Recife

Para celebrar o legado do músico, está marcado para amanhã, às 14h, no Marco Zero, o evento “Celebrando a Vida – 1 Ano Sem Chester Bennington”, organizado por fãs do Recife. Amanda é uma das mais de 100 pessoas interessadas no evento. Mayara, apesar de ser recifense, hoje mora em João Pessoa. Em 2017, um dia após a fatalidade, jovens se reuniram na mesma praça e entoaram juntos seus versos preferidos. Assim fica difícil de compreender como tem gente que diz que o rock morreu com o grunge quando existiu (e existe) Linkin Park.

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