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Gal Costa reúne gerações da MPB em A Pele do Futuro

Um disco que abre com Dani Black e fecha com Erasmo Carlos

José Teles
José Teles
Publicado em 03/10/2018 às 9:14
Foto: Bob Wolfenson/Divulgação
Um disco que abre com Dani Black e fecha com Erasmo Carlos - FOTO: Foto: Bob Wolfenson/Divulgação
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Dos medalhões da música brasileira, foi Ney Matogrosso, cinco anos atrás, quem primeiro sinalizou, em Atento aos Sinais, para a renovação de autores na MPB, gravando, entre outros, Criolo, Dan Nakagawa, Beto Böing e Dani Black. Gal Costa reconheceu isso em Estratosférica, – com canções de Junio Barreto, Lira, Mallu Magalhães, Jonas Sá, Céu, Pupillo – e consegue melhores resultados em A Pele do Futuro (Biscoito Fino), produzido pelo citado Pupillo, com direção musical de Marcus Preto. Melhor resultado a começar pela capa. Em Estratosférica exageraram em rejuvenescer a cantora na foto em preto & branco. Em A Pele do Futuro, uma foto de Gal Costa, por Bob Wolfenson, recebeu um tratamento por Fábio Arruda e Rodrigo Bleque, aproximando a capa de uma tela elegante e delicada, que reflete o conteúdo romântico que permeia o álbum. O de nº 40, meio século depois da estreia solo da cantora, em pleno auge do tropicalismo.

BATISMO

O título do disco foi pinçado dos versos: “A pele do futuro finalmente/imune ao corte, à lâmina do tempo/o tempo finalmente estilhaçado/e a poeira sumindo no horizonte”, de Viagem Passageira, feita por Gilberto Gil, especialmente para Gal Costa, mais uma composição de uma safra recente em que ele filosofa sobre o tempo e seus efeitos. Gravar novos autores não significa obrigatoriamente novos sons. A Pele do Futuro é aberto com uma batida de disco music setentista, em Sublime, de Dani Black, compositor paulistano (filho de Tetê Espíndola), que tem inclinação para fabricar hits. Sublime foi antecipado como segundo single do disco, uma das mais radiofônicas do álbum, ao lado de Cuidando de Longe, da cantora femineja Marília Mendonça (com mais
uma trinca de parceiros, Juliano Tchula, Junior Gomes e Vinicius Poeta).

Causou frisson nos fãs mais ortodoxos de Gal Costa a aproximação com o sertanejo, ainda por cima com uma canção que nem era inédita, ou seja, não foi composta para o disco. Foi lançada pelos sertanejos paraenses Israel Novaes e Jefferson Moraes, e com bastante sucesso. A canção não sai da fórmula do gênero predominante no país, mas com Gal Costa, e participação de Marília Mendonça, parece outra composição, revestida com um arranjo disco e a elegância da interpretação da baiana, que leva a sertaneja a cantar com moderação, evitando tons exageradamente altos, de concorrente do The Voice Brasil.

As diversas tonalidades de black music aparecem o longo de A Pele do Futuro, a exemplo da balada soul Palavras no Corpo, de Silva e Omar Salomão (filho de Waly Salomão, compositor muito presente na carreira de Gal Costa nos anos 70), que tem uma levada à Stax/Volt, com metais à Memphis Horns. Ou ainda em Vida Que Se Segue, balada soul tropicalizada, que fez sucesso no final dos anos 70, começo dos 80. O autor é o meio esquecido Hyldon, um dos expoentes do estilo soul brazuca. Outro astro da mesma época, Guilherme Arantes comparece com um dos seus pop de tiro certeiro, Puro Sangue (O Libelo do Perdão), que o diretor musical Marcus Preto pretendia que fosse uma parceria inaugural com Caetano Veloso, que achou a canção completa e “imexível”.

BAIANOS

A voz não alcança mais os tons muito altos com a mesma facilidade, mas Gal Costa sabe até onde ir, mesmo com acentuação nos graves, ela mantém o suingue e vive a canção, com a emoção certa para a música, nisto está perfeita na reflexiva Viagem Passageira, do velho companheiro baiano Gilberto Gil, como sempre com a melodia certa para as palavras exatas. O grupo baiano mantém uma admirável coesão, com um ou outro estranhamento menor. Raro é o disco de um que não tenha os outros, ou parte deles.

Em A Pele do Futuro, Gal traz para si Maria Bethânia, curiosamente pela primeira vez num disco da conterrânea. Até então era Gal que ia a Bethânia, como aconteceu há 53 anos, quando as duas gravam Sol Negro (Caetano Veloso), no álbum Maria Bethânia (1965) e, bem mais tarde, no disco Maria (1988), em que cantam O Ciúme (Caetano Veloso). Desta feita gravam um biscoito fino da lavra de Jorge Mautner e César Lacerda, Minha Mãe, referência e reverência às mães das
duas cantoras, Dona Mariah (Gal Costa) e Dona Canô (Maria Bethânia). Mãe de Todas as Vozes é uma inspirada composição de Nando Reis, e a mãe agora é a própria cantora, numa balada cerzida à guitarra, “Sou filha de todas as vozes que vieram antes/sou mãe de todas as vozes que virão depois”.

Mais e melhores baladas em Dentes e Unhas, de Paulinho Moska e Breno Góes, Livre do Amor, de Adriana Calcanhotto, e uma ijexá com clima de balada dolorida, Realmente Lindo, da revelação paulistana Tim Bernardes. Para não dizer que não tem samba no disco, Gal Costa djavaneia com Dentro da Lei, inédita do alagoano Djavan, dentro do conceito romântico do álbum, que é fechado com uma parceria entre Erasmo Carlos e o rapper Emicida, também em levada disco, Abre-Alas do Verão. Um dos melhores discos de Gal Costa, nesses anos 2000, pela despretensão, arranjos simples e objetivos, que destacam a voz, a canção e um repertório bem escolhido.

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