Disco

Ayrton Montarroyos canta o Brasil da delicadeza perdida

Cantor faz do repertório arma de resistência

José Teles
José Teles
Publicado em 19/02/2019 às 9:13
Foto: Luan Cardoso/Divulgaçao
Cantor faz do repertório arma de resistência - FOTO: Foto: Luan Cardoso/Divulgaçao
Leitura:

Ayrton Montarroyos é um raro exemplo de artista da música no Brasil. Ele é cantor e intérprete. Não um compositor que canta. Também uma peculiaridade de Ayrton. Com 22 anos, ele não se curva ao hype, às tendências da vez. É um apaixonado pela tradição da música popular brasileira, no mais amplo sentido do significado da palavra. Canta, por exemplo, Francisco Alves (1898/1952), o Rei da Voz, e Elizeth Cardoso, mas não é um passadista, como prova em seu segundo álbum Um Mergulho no Nada (Kuarup), lançado no final de janeiro, produzido por Thiago Marques Luís. São dez canções, a voz de Ayrton e o violão de 7 cordas de Edmilson Capelupi. O disco é o registro de show no Teatro Itália, em São Paulo, acontecido em 1º de abril de 2018.

 “Eu vejo como se fosse um disco político não panfletário. A gente trabalha com a memória, com a manutenção de um Brasil que tá meio esquecido, que é visto como coisa menor, que já acabou. O título é extraído da música de Capiba (com Décio e Carvalho), Sem Pressa de Chegar, que tem o verso ‘talvez seja um mergulho no nada’. Exatamente o que eu queria dizer, parece que o nada é um vazio, mas, pelo contrário, a gente tem uma coisa acontecendo aí. É o mergulhar no nada para entender suas sutilezas”.

 Neste mergulho, Ayrton vai até a Grécia Antiga e recorre ao poeta Hesíodo (do século VIII A.C), transcrevendo seus versos na capa, logo acima dos títulos das canções do disco. “Assim falaram as virgens do grande Zeus verídicas/por cetro deram-me um ramo/a um loureiro viçoso/colhendo-o admirável/e  inspiraram-me a um canto divino/para que eu glorie o futuro e o passado/impeliram-me a hinear o ser dos venturosos sempre vivos /e a elas primeiro e por último sempre cantar”.

 REPERTÓRIO

 Um repertório em que reafirma sua predileção por Ylana Queiroga (com Yuri Queiroga), de quem canta Pé na Estrada. Canta também Djavan (Açaí), Tom & Vinicius (Brigas Nunca Mais) e, das mais recentes, Jabitacá, lançada por Gal Costa no disco Estratosférica (Lira/Junio Barreto/Bactéria). Voz e violão são um artifício tão banalizado, que gravar um disco inteiro assim é um ato de coragem. Ayrton Montarroyos se entrega a cada uma dessas canções. E Edmilson Capelupi desdobra-se no violão, com arranjos que procuram distanciar-se do lugar comum.

Um Mergulho no Nada é forte concorrente a entrar no rol dos grandes trabalhos nesse formato. Montarroyos procura uma canção como se não fosse cantar mais nada depois dela: “Sou cada vez mais apaixonado pela música popular brasileira de todos os tempos. Desde Francisco Alves até as coisas que estão acontecendo agora. Tenho me interessado muito, eu busco encontrar o ponto de apoio da canção. Essa coisa fina que tem em Sodade Matadeira, de Dorival Caymmi, que parece ser uma coisa tão simples, mas se abre a imagem de um Brasil gigante, lidando com imagens simples. Ao mesmo tempo, tem uma canção muito forte como Cálice, de Gil com Chico Buarque”, comenta Ayrton. Ele confessa que hesita em cantar Cálice: “Quando canto é como se aquelas palavras fossem ditas por mim pela primeira vez”.

 PRESSÃO

 Ayrton Montarroyos participou do The Voice Brasil, em 2015, depois continuou a tocar a carreira, gravou disco, fez turnês. No entanto, a força da TV ainda leva a maioria das pessoas a reconhecê-lo não como o intérprete exigente que é, mas como a celebridade de TV. Sua participação no programa foi marcante, por ter ido até a final sem se curvar ao hits popularescos, nem abusar do alcance das cordas vocais:

 “Se eu disser que pra mim não foi difícil, vou estar mentindo. Porém não consigo estar em nenhum lugar sem fazer o que eu quero, e ache que deva ser feito. Sou muito claro aonde quero chegar. Não foi diferente na Globo, eu sofri de imediato uma pressão muito grande da produção, gostaram muito da minha voz, mas ficaram com medo que eu cantasse uma coisa elitizada, que distanciasse o público. Acho que a TV trata pessoas igual a macaco, a imprensa trata as pessoas igual a antas. Eu nunca me baseei pelo menor. Tenho 23 anos, talvez seja coisa da idade, mas acho que as pessoas têm que ser expostas ao melhor, que é o que posso oferecer pra elas”, argumenta, afirmando que tentou despertar no público a memória deste repertório de um outro Brasil.

Curioso é que meio século depois de a MPB clássica dominar a programação das TVs no país, em que Chico Buarque, Nara Leão, Elis Regina, Geraldo Vandré tinham horários próprios nas emissoras, chegou-se a uma época em que essa mesma música entra com parcimônia nas grades da TV, e só é tocada em rádios especificas. Ayrton Montarroyos revela que tem dificuldade em ser convidado para entrevistas em emissoras feito a TV Globo, alegam que a música que ele canta é muito lenta e prejudica a audiência, as pessoas se acostumaram a outro andamento:

“É terrível ligar a televisão toda hora e ter vergonha do país, fico extremamente triste. Tenho vergonha dos artistas que vivem fazendo coisas vulgares para ganhar dinheiro, ganhar likes no Instagram. Tenho vergonha deste jeito que a gente adotou de ser burro. Eu queria exatamente mostrar que não é isso. Eu conheço o outro mundo, o Brasil de Dorival, de Tom Jobim, de Jackson do Pandeiro, de Clementina de Jesus, de Vitor Araujo, Zé Manoel, Ylana Queiroga, gente com coisas lindas para oferecer. Cantar é meu alento, faço porque amo, não sei fazer outra coisa, se eu não fizesse isso eu morreria”.

 

 

O jornalismo profissional precisa do seu suporte. Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Últimas notícias