Carnaval 2019

Oséas já começou sua maratona de frevo

O maestro e sua orquestra são a cara da folia de Olinda

José Teles
José Teles
Publicado em 24/02/2019 às 10:28
Foto: Fernando da Hora/JC Imagem
O maestro e sua orquestra são a cara da folia de Olinda - FOTO: Foto: Fernando da Hora/JC Imagem
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O maestro Oséas é um dos mais requisitados maestros do Carnaval de Olinda. Aos 65 anos, tem saúde e fôlego invejáveis. Trinca de Ás, Ceroula, John Travolta, Cariri, Elefante, Mulher na Vara, Se Não Quer Tem Quem Queira, Boi da Macuca, Encontro de Bonecos Gigantes, alguns dos clubes, blocos e troças que ele anima com sua orquestra. Uma jornada que no sábado começa ao meio-dia e acaba na madrugada do domingo. Oséas Leão de Souza é um maestro à moda antiga. Ele não está preocupado com o futuro do frevo, ou em sua renovação. Não estudou em conservatório, aprendeu a ler partitura da mesma maneira que os músicos e maestros dos anos 20, 30, ou seja, numa banda de música.

 “Nunca estudei em escola, aprendi lá em Aliança, minha terra, com o mestre da banda 15 de Agosto. Aprendi trompa, pistom, bombardino. Com 15 anos, saí de lá e vim para a Henrique Dias”, resume Oséas que, pela idade, foi barrado na orquestrado Homem da Meia-Noite. Sendo necessária a intervençãp d o maestro, dizendo que o garoto estava com ele e que iria tocar. Há três décadas dirigindo orquestra, Oséas parece não fica muito à vontade com o “maestro” antes do nome. Não quer se comprar aos consagrados Duda ou Spok. “Eu não sei fazer arranjo. Pego os dos maestros, Guedes Peixoto, Formiga, Duda, Nunes, muita gente”.

Para ele, tudo corre naturalmente. Arregimentou um grupo de 40 músicos, que toca com ele o ano inteiro, sobretudo depois que se tornou a orquestra da Macuca, uma troça que seguiu o mesmo caminho de agremiações, que se desdobraram em companhia de eventos, realizando festas em recintos fechados, inclusive no São João. “Dos clubes com que a gente toca, o mais difícil é o da Macuca. Dá mais trabalho porque é o que arrasta mais foliões. Depois vem Elefante, Cariri e Ceroula”, diz Ró, filho do maestro, percussionista na orquestra.

 MARATONA

 Desde dezembro que Oséas e a orquestra espalham frevos pelas ruas e ladeiras de Olinda. Podem sair com a formação completa ou com apenas dez ou 15 músicos. Estão à disposição da alegria, mas a maratona começa para valer mesmo a partir do sábado de Zé Pereira. Logo cedo, os músicos se dividem em grupo e tocam com pequenas troças, bonecos gigantes – uma espécie de aquecimento para o que vem a partir do meio-dia, e aí é valendo.

 O primeiro arrastão do dia é a Troça Carnavalesca Mista Trinca de Ás, agremiação relativamente nova para os padrões etários de Pernambuco, tem “só” 39 anos. A saída está marcada para às 12h, meia hora antes o maestro Oséas e seus músicos estão na concentração, para um desfile que vai até mais ou menos três da tarde, por sinal nome de um dos frevos obrigatórios no repertório da orquestra, de Lídio Macacão, lenda do frevo que Oséas conta que chegou a conhecer em Olinda: “Ele cantava bem”.

 Às quatro da tarde é a quase sessentona Troça Carnavalesca Ceroula de Olinda, animada pela orquestra de Oséas há 25 anos, abrindo, claro, com o popularíssimo hino da troça (de Milton Alencar) que atira na folia olindense os americanos Collins, Aldrin e Armstrong, a trinca de astronautas que foi à Lua há meio século, citados na música do Ceroula (“Eu vou este ano à Lua/ Não é privilégio, Foguete já tem/ Eu quero ver se o Carnaval de rua/Collin, Aldrin e Armstrong falam que vai bem”).

 A agenda precisa ser bem sincronizada. Ceroula leva muita gente com ela, mas às 20h, o maestro tem de estar em Guadalupe para animar a Troça Carnavalesca Mista John Travolta, outro americano que acabou no frevo. Este ano, o “trupé” vai ser pesado, porque a John Travolta está completando 40 anos, e em 2019 será um embalo de sábado à noite, título do filme que inspirou o nascimento do bloco. Oséas está com a John Travolta há três décadas.  

Seguir a orquestra de Oséas é passear pela história do Carnaval de Olinda. Ele e seus músicos emendam o sábado com o domingo, até pegar o sol com a mão, acompanhando a troça Cariri, a decana da folia da Marim dos Caetés, a dois anos do centenário, que sai pelas ruas e ladeiras de Olinda a partir das 4h da manhã: “Entre uma e outra a gente come alguma coisa. Antigamente eu tomava um negocinho, hoje eu não bebo mais. Vou só no pique da música”, diz Oséas.

 O filho dele, Ró, lembra que é uma cervejinha de leve o combustível dos músicos. Franzino, agalegado, olhos puxados, herdados do pai, conhecido como “Japonês”, Oséas diz que não faz nenhuma preparação física para tantas horas de frevo e ladeiras, tampouco tem uma dieta especial para aguentar o trampo: “Como nada diferente não, o que não dispenso é uma sopinha. Basta isso para segurar o frevo”, garante . O filho confirma a predileção pela sopa, aliás, também o “fortificante” dos músicos, mas revela que, de três anos para cá, Oséas sai cedo de casa, quase todos os dias, para uma caminhada.

 REPERTÓRIO

 Daria para animar a festa apenas com os hinos das troças e clubes, mais um capítulo da história do Carnaval olindense. “Lá vem o Cariri aí/com saco de pegar crianças”, os versos iniciais do hino do mais antiga agremiação de Olinda é de domínio público. Há versões de que seria de Lídio Francisco da Silva, o Lídio Macacão (o apelido, de tempos politicamente incorretos, porque ele era negro e alto). Ou o clássico Hino do Elefante, de compositores conhecidos, Clídio Nigro e Clóvis Vieira, e letra que todo pernambucano sabe de cor: “Ao som dos clarins de Momo/ o povo aclama com todo ardor”.

 Os dois hinos, entre as músicas cantadas. Mas embora Oséas toque sucessos como Tropicana, de Alceu Valença e Vicente Barreto, feito os maestros do passado, ele gosta mesmo é do frevo de rua, o frevo rasgado, como se dizia em outros tempos. “Tem uns frevos novos por aí, mas eu sou mais o frevo antigo. Admiro o que Spok faz, o que Forró faz, mas este frevo de agora é tá muito acelerado. Procuro tocar frevos que o pessoal quase não toca hoje, na orquestra a gente tocam Luzia no Frevo (Antonio Sapateiro), Duas Épocas (Edson Rodrigues), Perguntas e Respostas e Chapéu de Couro (ambos de Zumba), Cocada (Lourival Oliveira)”.

Saindo do desfile do Cariri já com o sol alto e quente do verão, Oséas dispensa a orquestra. Vai para casa, tirar um cochilo. Ainda tem o restante do domingo, segunda, terça e a Quarta de Cinzas para tocar frevos para, entre outros, Elefante de Olinda, Mulher na Vara, a Se Não Tem, Tem Quem Queira (troça relativamente jovem, fundada há 15 anos), a boneca gigante A Vaidosa, Macuca, que a cada ano atrai mais gente (Oséas está com ela há cinco anos).

 Num intervalo é forrar o estômago com uma sopinha de ossobuco, e voltar para o batente. É de se imaginar que, depois de animar tantos blocos, troças, o maestro se garante financeiramente, e viaje para recuperar as forças numa praia. Não é bem assim, pelo menos com ele. “O Carnaval está muito animado, muita gente brincando, mas a gente ganha pouco. Muito pouco. Eles trazem estes artistas de fora, botam palco, pagam cem, duzentos mil reais a cada um. Nem se compara com o se paga a uma orquestra que toca na rua”.

 

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