RAP NACIONAL

MV Bill: "Maior arma para o futuro da periferia é o conhecimento"

Um dos destaques do Groovin Festival, evento que reunirá proeminentes nomes do rap e reggae nacional, carioca conversou com o JC sobre o que o faz continuar

Nathália Pereira
Nathália Pereira
Publicado em 24/08/2019 às 6:00
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Um dos destaques do Groovin Festival, evento que reunirá proeminentes nomes do rap e reggae nacional, carioca conversou com o JC sobre o que o faz continuar - FOTO: Foto: Divulgação
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“O cotidiano me inspira, das coisas simples aos acontecimentos mais graves. Minha zona de conforto é escrever quando me dá inspiração, quando me sinto à vontade. Agora me propus compor de forma mais disciplinada, para contemplar com um som legal quem me ouve, porque é a resposta de quem me acompanha que me motiva”.

Um dos nomes a se apresentar hoje, no Groovin Festival, evento que reunirá proeminentes artistas do rap e reggae nacional no Clube Português, o carioca MV Bill conversou com o Jornal do Commercio sobre aquilo que o faz continuar. Veterano no rap brasileiro, escritor, ator e ativista social, ele segue demonstrando energia que não deixa dever aos mais jovens.

Fazendo jus a O Bonde Não Para, uma de suas músicas mais conhecidas, Bill tem lançado, desde março, singles que, ao final do ano, se juntarão a outras inéditas para compor um disco. Em uma delas, Vírus, versa sobre o racismo e como ele se manifesta em formato de incômodo quando pessoas negras conquistam lugares até então negados: “Racismo por aqui sempre teve sua dose de covardia / Ratos escondidos atrás de perfis / Ofendendo de maneira esdrúxula nossa raiz”.

“As redes sociais deram holofote para o que já existia, tornaram os racistas desinibidos”, observa. “Não que isso seja uma coisa boa, mas não sei se é tão ruim, porque a gente vivia com aquele mito da democracia racial, de que todo mundo é tratado igual, de que não existe racismo no Brasil. Com essa deselegância, principalmente virtualmente, fica muito claro que vivemos, sim, em um dos países mais racistas do mundo. Nosso racismo velado nos faz um povo diferenciado até na hora de lutar contra o que nos fere, porque o oponente é algo que muitos juram não existir. Mas quem é alvejado já sabe da existência dele há muito tempo”.

Ao considerar a discriminação mais agressiva e escancarada, MV Bill crê que a dose de combate também precisa ser maior e mais inteligente, abastecendo os atingidos com educação, informação, estímulo a ocupação de espaços plurais e qualificação. Reforça a importância da cultura de rua, mas destaca que ela, sozinha, não corrige o que há de errado politicamente e que é necessário oferecer às gerações mais novas incentivo para que estejam presentes em todos os caminhos capazes de somar à luta por equidade e emancipação.

“O maior combate não vai ser através de letra de rap, até porque não existe espaço para todo mundo, tem muita gente fazendo música. É importante ouvir quem está fazendo som, mas a periferia não precisa só de um exército de gente que sabe rimar. Precisa também de educadores, de médicos, advogados. A maior arma para esses garotos e garotas, no futuro, é o conhecimento, a possibilidade de ter uma vida diferente de ser um alvo fácil”, defende.

VIDA LONGA

Além das inéditas, MV Bill disponibilizou recentemente nas plataformas de streaming o Instrumental From Hell, álbum que compila as batidas de 14 músicas suas, formato bem explorado lá fora, mas pouco conhecido por aqui. O disco deve ganhar outros dois volumes, ainda sem data de lançamento.

Como de costume, sobe ao palco do Groovin Festival acompanhado por Kmila CDD, sua irmã e parceira de longa data, de quem dirigiu o EP de estreia solo, Preta Cabulosa (2017).

“É impossível fazer uma apresentação sem Kmila. Ter uma mulher na banda nos faz rever nossas conversas, nosso machismo. É com ela que tenho maior chamego, é um xodó. A gente se olha e já entende o que estamos pensando”.

Próxima semana, o rapper grava um especial, para o canal pago Music Box, no qual uma banda de jazz fará as bases para algumas de suas mais famosas. Finalizando, por enquanto, a bateria de projetos, está um EP acústico, com cinco músicas e videoclipes.

“Sou um cara simples, não penso em coisas grandiosas ou impossíveis. Num momento em que artista é visto como bandido ou partidário, tenho feito minha música acontecer, do jeito que quero, com o fruto do meu trabalho. Os mais novos me chamam de ‘Tio Bill’, de ‘Mestrão’, mas o reconhecimento não me envaidece. Ele me dá orgulho e me faz seguir”.

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