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Geraldo Maia cantando um outro Capiba

O show ressalta que o compositor não era só do frevo

José Teles
José Teles
Publicado em 26/09/2019 às 7:04
Foto: Tereza Maia/Divulgação
O show ressalta que o compositor não era só do frevo - FOTO: Foto: Tereza Maia/Divulgação
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Geraldo Maia levou o show Noites Sem Fim, com repertório inteiro de canções de Capiba, para Surubim, a cidade natal do compositor, no Agreste pernambucano. No dia anterior à apresentação, no Sesc local, ele fez uma espécie de aula-espetáculo em duas escolas de referência da cidade:

 “Falei e cantei músicas de Capiba, me acompanhando ao violão. Numa escola havia uns cento e poucos estudantes do ensino médio, na outra, uns 80. Arredondando, 200 alunos, com idade entre 15 e 19 anos. Dez ou onze sabiam quem era Capiba. Perguntei quem conhecia alguma música dele. Um único levantou o braço, para dizer que sabia de uma que falava de frevo e depois de ciranda. Quando cantei umas músicas, aí eles se lembraram das mais óbvias, porque mesmo sem querer escutam”.

Geraldo aprovou o espetáculo em edital do Funcultura, o que lhe garantiu a circulação por quatro cidades pernambucanas: Taquaritinga, Arcoverde, Surubim e Recife, onde se apresenta amanhã, às 20h, no Teatro de Santa Isabel. Falecido há 21 anos, cada vez menos se fala em Capiba. Porém, a intenção de Geraldo Maia ao dedicar um show às músicas de Capiba não foi apenas a de chamar a oportuna atenção sobre a sua obra:

 “Escolhi essas músicas porque acho que me caem como uma luva. Assim como Maria Bethânia é a intérprete de Chico Buarque, me acho o intérprete de Capiba. Tem Claudionor Germano, Expedito Baracho que cantaram tão bem Capiba. Mas suas músicas se harmonizam comigo, com meu canto”. Tampouco Geraldo é um neófito na interpretação de Lourenço da Fonseca Barbosa.

 Em Samba de São João, de 12 anos atrás, ele gravou Serenata Suburbana e Começo de Vida. A primeira foi a composição de Capiba que recebeu mais regravações, lançada há 60 anos por Paulo Molin, então criança prodígio do rádio pernambucano. Curiosamente, Serenata Suburbana foi lado B de um 78 rotações da Mocambo, que traz no lado a esquecida A Prece do Perdão (Fernando Borges/Antenor Arôxa). Já Começo de Vida foi lançada por Carmem Costa, em 1955, pela Copacabana, e foi esquecida com o tempo. A canção volta aos palcos, desta vez com a participação de Tonfil, cantor da nova geração, digamos, da MPB pernambucana:

“Não estava programado, mas, trocando mensagem pelo whatsapp, fiz o convite e ele topou. Tonfil é maravilhoso, dono de uma voz e uma interpretação personalíssimas, e a música que escolhi pra cantarmos juntos tem tudo a ver com o tom que ele imprime às canções que escolhe pra seu repertório”, elogia o convidado.

MELANCOLIA

Capiba foi campeão de muitos carnavais, dos anos 30 a0s 80, somando meio século de folia. É quase sempre lembrado pelos frevos-canção, que nem o Carnaval multicultural conseguiu fazer com que sejam cantados. Porém Capiba já era multicultural desde o começo da carreira. Sua obra não se atém a frevos, vai do samba ao erudito, e é permeada por tristeza, melancolia, mesmo nas carnavalescas. É o compositor que mais fez frevos em tons menores: “Mesmo na alegria, ele tem uma coisa melancólica”, concorda Geraldo Maia, que até aqui deu preferência ao Capiba das músicas de meio de ano:

“O que canto dele é o que o pessoal deve achar que é o lado B, mas pra mim é tudo lado A. Capiba é muito sofisticado, tem harmonias que são muito Tom Jobim. Se ele fosse baiano seria tão reverenciado quanto Dorival Caymmi, e Capiba nada fica a dever a Caymmi, Tom Jobim, Ary Barroso. Não é também porque optou por permanecer no Recife. Se tivesse se mudado para o Rio a história seria diferente”.

POESIA

 Está presente em Noites Sem Fim (frase pinçada de Recife Cidade Lendária), o Capiba das canções, dos sambas feito a bossa nova A Mesma Rosa Amarela, outra composição com dezenas de versões. Em algumas canções são acrescentados poemas, citações de outras músicas. Com ele no palco estarão Alberto Guimarães (violão de 7 cordas), Beto do Bandolim, Bráulio Araújo (baixo), Júlio César (acordeom), Renato Bandeira (guitarra semi-acústica).

 Show Noites Sem Fim, com Geraldo Maia e banda – Teatro de Santa Isabel, amanhã, às 20h. Ingressos: R$ 10 (preço único)

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