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Chico César mais Mutantes e menos Vandré

Cantor ressalta a importância de preservar a poesia

José Teles
José Teles
Publicado em 27/10/2019 às 9:46
Foto: Divulgação
Cantor ressalta a importância de preservar a poesia - FOTO: Foto: Divulgação
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Ainda com os ecos das batalhas de rua nos ouvidos, John Lennon compunha canções participativas e corria para gravá-las, lançando-as o mais rápido possível. Mais do que um músico popular, queria ser um cronista de seu tempo. Sem se arvorar a ser um John Lennon dos trópicos, o paraibano, de Catolé do Rocha, Chico César reassumiu a veia cronista a partir de 2015, quando deixou o cargo de secretário de Cultura do seu Estado, e voltou para São Paulo.

Parte dessas crônicas, em forma de música, formam o repertório do álbum O Amor É um Ato Revolucionário, lançado há poucos dias. O 12º de uma carreira que completa 25 anos em 2020 (contados a partir do álbum Aos Vivos). Em entrevista por telefone, Chico César conta o que o moveu a criar essa canções

: “Logo no dia seguinte à minha chegada em São Paulo, fui fazer uma visita a uma represa que estava abaixo do nível crítico, uma crise hídrica. Fui como cidadão, não tinha mais cargo público, participei de manifestações, de ocupações, observando a vida do Brasil ficando cada dia mais nervosa. Aquele movimento que acabou tirando Dilma, depois o ‘fora Temer’, a campanha presidencial que foi muito pesada”. Ele confessa que as canções foram surgindo, não para um disco, mas como uma espécie de comentário do momento que estava vivendo, e observando:

 “Tanto que publiquei quase todas elas nas redes. Fazia a música, e o primeiro registro era pras redes sociais. Um jeito de comentar, sem escrever textão, fazendo uma coisa mais angustiada, panfletária. Acho que consegui manter uma lucidez de enxergar o momento, e de me posicionar reivindicando, com uma alegria transgressora. Acho que, por causa disso, o trabalho acaba remetendo a discos dos anos 60, 70, que fizeram nossa cabeça”.

 Álbum com uma maioria de canções participativas e, admite Chico César, os tempos de hoje são propícios a inspirar este tipo de música, com uma ressalva: “De certo modo, me preocupa quando a abordagem do tema prevalece sobre a estética. Gosto quando a ética é contagiada pela estética. Quando há um desequilíbrio muito grande, não há uma diferença entre o panfleto e a música. Gosto quando se diz que a canção inquieta artisticamente, não só politicamente”.

 A onda conservadora que chegou ao poder em muitos países, mundo afora, a polarização que ela trouxe, mais os confrontos de rua que espocaram em consequência disto, têm forte sabor de déjà vu, um filme rebobinado. Em 1969, ditaduras militares eram maioria na América Latina. Nos Estados Unidos, o governo Nixon levava estudantes de volta às ruas. Quatro estudantes mortos, em 1968, numa manifestação na Kent State University, em Ohio, inspirou um clássico do rock de protesto: Ohio, de Neil Young, gravada pelo Crosby, Stills, Nash & Young. Como num ciclo, 1969 se repete nas recentes imagens dos conflitos em Santiago.

 “As imagens do Chile você não sabe se são de agora, ou da época de Allende, do Pinochet. É um tempo muito difícil para o mundo todo, de elementos belicosos, belicistas que assumiram o comando de nações importantes – Inglaterra, Estados Unidos, e aqui. O que sinto é que, por causa das redes, a resistência é maior. Se bem que a parte que apoia a opressão também se manifesta, com mais eficiência do que o nosso lado, porque não tem ética. Usam fake news para propagar o ódio gratuitamente. A gente se preocupa em mandar uma mensagem verdadeira, que tenha uma qualidade moral, do outro lado, não. É ódio puro e gratuito mesmo”, pondera Chico, que incluiu no disco duas faixas que aludem diretamente a internet, Like e History.

“Esta música que faço com Flaira era, inicialmente, muito pesada, o tema já era pesado. Aí fui procurando. Quero uma música que tenha mais a ver com Os Mutantes do que com Geraldo Vandré. Quero que a ironia apareça, um certo sarcasmo, aí pensei, puxa, a referência é Mutantes, eu precisava de uma voz feminina, que trouxesse a irreverência, a alegria de Rita Lee jovem, e disse: Flaira. Já havia visto show dela em saraus da Reverbo, até dividi uma noite com eles, num bar em Boa Viagem. Sinto esta força na música das pessoas mais jovens, algo que a gente visa não perder a atenção com esta beleza, para não ficar chato, sério demais”, comenta Chico César sobre Cruviana, um charleston que, por coincidência, há 50 anos tinha se tornado um modismo na swinging London. Uma interpretação muito Mutantes, que termina citando trechos de canções ufanistas.

 O disco tem um sabor de coisa boa do passado, a começar pela faixa que lhe dá nome, introduzida por sons assemelhados a cítaras indianas, meio Within Without You, do Sgt Pepper’s. Aliás, o próprio título remete ao “Faça amor não faça a guerra”, o slogan hippie do Verão do Amor”, em 1967, quando a juventude botou mochila nas costas e o pé na estrada. “Tem muito a ver, por isso chamei Luís Carlini (que pertenceu ao Tutti Frutti, grupo de Rita Lee), para tocar essa guitarra em O Amor É um Ato Revolucionário. Por isso toco todas as outras guitarras, mesmo não sendo guitarrista. Em Eu Quero Quebrar, uma versão é minha, outra tem a guitarra de André Abujamra.

BOB DYLAN

Nem tudo na rua é manifestação. Nem toda manifestação aponta para desgoverno. E aí pintar o quadro é tão ou mais importante que a denúncia pura e simples. O Homem do Cobertor Puído é a faixa que mais explicita a intenção da poesia sobrepondo-se à política. Os metais que a abrem lembram Stevie Wonder de Songs in the Key of Life, mas a canção está alinhada a Bob Dylan. Pinta em viva e sombrias cores as cracolândias espalhadas pelo País, e a indiferença a esta paisagem boschiana:

 “É menos mal a gente fingir que não está vendo, passar mais rápido. É uma canção inspirada nas coisas de Bob Dylan, principalmente na primeira fase, que vai de 1964 a 74. Muita gente vê a interpretação próxima de Raul Seixas. Pode ser, porque Raul, Belchior, Zé Ramalho, e Zé Geraldo são os nossos Bob Dylan, cada um a seu jeito. A música se inspira em Bob Dylan, mas eu queria o arranjo mais perto da gente, com pujança instrumental”.

Ele surpreende a cada faixa. Em meio a Peito Aberto, um reggae, surge uma voz feminina, bela, mas desconhecida. Paradoxalmente, a dona da voz já arrebanha dois milhões de seguidores no Instagram. Foi nesta mídia social que Chico César soube da paraibana Agnes Nunes: “Descobri quando ela estava com 16 anos, no Instagram de Baco Exu do Blues, cantando uma música dele. Achei parecida com Billie Holiday, com um coque na cabeça, muito bem arrumada”, conta. Ele conferiu o perfil de Agnes e mandou-lhe uma mensagem. Veio o convite, logo aceito, para a participação no disco: “Quando fiz De Peito Aberto, pensei que queria cantar com uma mulher, é um tema do cotidiano das mulheres. Acho que tem tudo a ver com Agnes, que considero um presente pra nossa época. Uma cantora jovem com tantas possibilidades”.

 E assim, mais Mutantes que Geraldo Vandré, Chico César vai por aí caminhando e cantando e seguindo a canção

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