PLURALIDADE

Morro da Conceição tem muitas histórias dedicadas à cultura

Nem só de eventos religiosos vive o bairro, que tem uma grande tradição em manifestações que vão além do Carnaval e festas juninas

Nathália Pereira
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Nathália Pereira
Publicado em 07/12/2019 às 17:00 | Atualizado em 18/02/2022 às 9:04
Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Por NATHÁLIA PEREIRA

Quando se invoca a memória coletiva sobre as simbologias que circundam o Morro da Conceição é esperado que, além dos elementos religiosos, manifestações culturais se sobressaiam. Berço de grupos como o Grêmio Recreativo Escola de Samba Galeria do Ritmo e a Quadrilha Junina Tradição, o bairro também é chão firme para movimentações que vão além do Carnaval e festas juninas. O Clube do Samba, por exemplo, completou dez anos em agosto, com cortejo que partiu da sede da Galeria do Ritmo em direção ao Bar da Geralda, abrigo da placa que avisa: “Aqui nasceu o Clube do Samba do Recife”. 

Dos muitos nomes que articulam a vida cultural do Morro, um soa unânime entre os moradores. O da filha de Dona Jandira, que trouxe do interior do Estado a devoção por Nossa Senhora da Conceição. “Minha mãe saía em romaria para pagar promessas aqui. Hoje sou parte dessa comunidade e, todos os dias, passo pela imagem e peço proteção”, conta Ana Paula Guedes, comunicadora, musicista, produtora e fundadora do Bloco Obirin, primeiro grupo de samba reggae formado exclusivamente por mulheres no Recife. “O bloco é ferramenta para usar a música e a dança como construção da identidade de empoderamento de mulheres. Mães solo, lésbicas, trans, trabalhadoras, que buscam nele um momento de lazer, integração e fortalecimento”, detalha.

As integrantes se encontram semanalmente em dois momentos. Às terças-feiras, com instruções para quem ainda não sabe manejar os instrumentos, e aos sábados, nos ensaios, na praça do bairro. Tanta dedicação é voltada para a estreia no Carnaval 2020, no qual desfilarão com o tema Mulher, O Útero do Mundo. “Mulher gera, cria, por isso o desenho da árvore como nossa logomarca, um símbolo da força que traz de baixo para cima esse equilíbrio que existe na terra e que, quando recebe sementes, desenvolve bons frutos”, diz Ana Paula.

Além do Obirin, Ana Paula Guedes também está à frente do No Meu Morro Dá Samba, projeto que já na primeira edição, em novembro de 2018, reuniu mais de 700 pessoas na quadra poliesportiva do Morro da Conceição. O evento tem o intuito de reafirmar a resistência do samba popular e integrar mais ainda a comunidade à vida cultural local. A entrada custa 2 kg de alimentos não perecíveis, depois distribuídos a instituições e moradores da comunidade – 160 pessoas receberam os recolhidos na edição de aniversário, no mês passado. A música fica por conta de uma mesa formada pelo Grupo Canto da Madeira e cantores convidados, que se apresentam voluntariamente. “Quando se fala em samba, tende-se a pensar na imagem de um homem. Nosso projeto é desenhado, dirigido, cantado e recepcionado por mim, mulher negra, mãe solo e que adora fazer cultura. Isso me move. Fazer com que as pessoas sejam mexidas pela cultura, não tem preço”, encerra Ana Paula.

Homenageado em 2019 com o Troféu Abebé de Prata Mãe Dadá pelos feitos em prol da cultura afro pernambucana, o percussionista Valdemir Irineu, conhecido como Mestre Pinha Brasil, é outra figura inquieta residente no Morro da Conceição. Foi lá que passou a desenvolver trabalhos de ação social, com foco na prevenção ao envolvimento de crianças e jovens com o tráfico de drogas e a violência. É sob comando dele que o grupo Coco Virado, o Afoxé Omo Inã e o projeto Black na Lata, que utiliza instrumentos fabricados com material reciclado, permanecem ativos durante todo o ano. “O Morro da Conceição é uma árvore imensa onde qualquer parte agitada ‘derruba’ um Gilberto Gil, um Djavan, um Milton Nascimento. É um berço da cultura popular pernambucana. Nos morros existe muita música, muita vida”, analisa o Mestre.

Fora os projetos contínuos, ele encabeça, anualmente, a Sambada Coco no Morro. A desse ano foi realizada ontem, no Bar do Tonho. “A melhor coisa para um artista não é o dinheiro, é o reconhecimento, respeito e carinho da comunidade. O Morro da Conceição é minha base, foi e continua sendo minha escola, um impulso para acreditar na mudança através da juventude”.

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O dia 8 de dezembro é dedicado a Nossa Senhora da Conceição - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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O Morro da Conceição é símbolo de luta e resistência - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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A Praça do Morro da Conceição é um espaço público usado por todos - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"As pessoas podem, sim, celebrar da maneira que achem mais bonito", disse o religioso Maílson Régis - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"É um convívio muito respeitoso. A prática do Evangelho é o amor", disse Anderson de Santana - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"Nasci e cresci no Morro. Somos todos filhos do mesmo Deus", lembra Pai Bonfim - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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O Morro da Conceição é um lugar onde se come bem - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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No quesito culinária, Dona Geralda é a sensação do Morro - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"Nas segundas-feiras, a minha sopa faz sucesso", garantiu Jacilene da Conceição - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Lula Lanches faz sucesso no Morro com seu hamburguer gourmet - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Ana Paula Guedes é uma das idealizadoras do grupo de samba reggae Obirin - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"O Morro é minha base. Foi e continua sendo minha escola", disse o Mestre Pinha Brasil - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Suelane e Anderson são totalmente ligados às manifestações no Morro da Conceição - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"Nunca fomos um lugar isolado no Recife", afirma dona Severina Paiva de Santana - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"Aprendi a cozinhar com uma senhora que trabalhava para os patrões", disse Geraldina dos Santos - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"Meu sonho como empresária é montar uma doceria na Zona Norte", disse Viviane Assis - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Nascido no Morro, Valmir Ferreira gosta de cozinhar para muita gente - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Surgimento de novos negócios, como o de Thiago Barbachan, dinamiza a economia do Morro - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"Hoje tenho seis funcionários na minha empresa, todos moradores do Morro", disse Paulo Manoel - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"Minha casa vira uma festa durante a Festa do Morro", disse Célia Mamede da Silva - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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A calmaria toma conta entre as ruas estreitas - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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O Morro da Conceição é de todos, para todos - Foto: Leo Motta/JC Imagem

Do lírico ao brega-funk

De blocos líricos, como o Utopia e Paixão, passando ainda por iniciativas plurais como o Coletivo Quebra Kabeça, o Morro da Conceição tem espaço também para articulações culturais mais recentes, como Os Lobos do Passinho, grupo de dança que é sucesso nas plataformas de vídeo. Em um deles, as coreografias dos garotos para hits do brega–funk acumulam mais de 900 mil visualizações. São prova de que cultura se faz em movimento e a partir de variadas vivências.

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