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Chico Buarque deu outra vida a poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto

Compositor carioca musicou a peça de teatro baseada na obra do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina

Valentine Herold
Valentine Herold
Publicado em 05/01/2020 às 7:00
Especial
Foto: Reprodução
Compositor carioca musicou a peça de teatro baseada na obra do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina - FOTO: Foto: Reprodução
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Chico Buarque era um relutante estudante de arquitetura, de 21 anos, quando participou, em 1965, do I Festival da Música Popular Brasileira, promovido pela TV Excelsior, em São Paulo. Concorreu com Sonho de um Carnaval, interpretada por Geraldo Vandré. Um dos integrantes da comissão julgadora era o jornalista e psiquiatra Roberto Freire. Nos bastidores, Freire perguntou se Chico não toparia fazer um trabalho em cima de um “negócio” de João Cabral de Melo Neto. Convite aceito. “Foi um trabalho muito complicado, com a coreografia interferindo, mas creio que me saí bem”, comentou o compositor, em 1966, em entrevista à extinta revista Manchete. Até ali ele era conhecido por uma única música: Pedro Pedreiro. A partir de Morte e Vida Severina o público e a imprensa passaram a prestar mais atenção na sua música.

O próprio Chico reconheceu o impulso que o poema de JCMN deu à sua carreira, na citada entrevista à Manchete: “Meu contrato era de seis meses (com a TV Record) e lá pelo sexto mês eu já estava cheio de cantar Pedro Pedreiro. Fui falar com a direção da Record, tinha vergonha de estar ali recebendo sem fazer nada, só cantando a mesma música. Fui lá ver se dava para fazer música de novela, pois eu nem sabia que a Record não tinha novela. Aí apareceu aquela embalo de Morte e Vida Severina, botei música nos versos de João Cabral de Melo Neto, e a Record me deu uma mãozinha. Continuei assim fazendo jus aos meus quinhentos contos”.

Escrita em 1955, por sugestão de Maria Clara Machado, Morte e Vida Severina, sub-intitulada Um Auto Pernambucano, é um dos trabalhos menos pretensiosos de João Cabral de Melo Neto. Foi publicado em 1956, no primeiro livro reunindo suas obras completas, quando já era consagrado como poeta maior. Considerado um autor difícil, que não fazia concessões ao leitor, Morte e Vida Severina é uma de seus poemas mais acessíveis. O livro no qual está incluído, foi lançado pela Editora José Olímpio. Intitulado Duas Águas, título sugerido por Aníbal Machado, abrigava poemas para serem lidos em silêncio, com outros para serem lidos em auditório. Entre os primeiros, Uma Faca Só Lâmina, Paisagens com Figuras, O Cão sem Plumas, Psicologia da Composição, O Engenheiro e Pedra do Sono. Para serem lidos com plateia: O Rio, Os Três Mal Amados e Morte e Vida Severina.
João Cabral teve um prazo para entregar o poema, e ele não era de criar por impulso. Burilava, lapidava o texto até admitir que nada mais poderia mudar.

“Já disse que não tenho o dom de ser tomado. Acho que a poesia deve ser fabricada. Morte e Vida Severina é um poema com coisas que assisti na infância, sem nada de político. Apenas mostro aquilo, e quem quiser que tire suas próprias conclusões. Não dei receita política, e até o fim deixo em suspenso: Severino se suicida ou não? Quando reli vi que estava cheia de erros, porque poesia é trabalho e não explosão emocional”.

O poeta que alardeava não gostar de música, em entrevista de 1973, reconheceu que parte de sua projeção se devia a Chico, por ter musicado seu poema: “O que Chico Buarque fez com Morte e Vida Severina foi decisivo para a compreensão da obra pelo público. Sua experiência aplicada por outros compositores a textos de outros poetas, teria o mesmo efeito. O que acontece é que não vejo nos meus livros outros textos que pudessem ser assim ajudados. Não é qualquer texto que pode receber um tratamento musical adequado. Mas devo dizer que não sofro por me saber mais lido naquilo que não considero o melhor que fiz, Primeiro porque com estes dois livros (refere-se também a O Rio)dei minha contribuição possível à procura de uma linguagem mais popular para a poesia. Depois porque sei de muitos casos de leitores que tomando conhecimento dessa poesia mais acessível interessaram-se pela outra, e iniciados pela mais fácil foram capazes de entender a menos fácil.”

Parceiro

Chico Buarque gravou Funeral de um Lavrador no seu terceiro LP, que recebeu o título óbvio de Chico Buarque de Hollanda – Volume 3, de 1968. Aos 24 anos, a voz soa como a de pessoa idosa. A interpretação é sombria, o tom menor acentua a tristeza do tema. No mesmo disco foi gravado Tema de Morte e Vida Severina, com orquestra e coro RGE. Provavelmente porque a peça continuava badalada, e não por falta de composições de Chico, naquela época compondo fartamente. Funeral de um Lavrador, sem chegar a ser um grande sucesso, tocou bastante no rádio. A peça ganhou um LP, lançado no mesmo ano em que arrebatou prêmios na Europa, com o grupo do TUCA.

Mas Chico não foi o único autor de trilha para o poema. O pernambucano (de Bom Jardim) Airton Barbosa (que anos depois seria parceiro de Robertinho do Recife em Jardim de Infância) foi para o Rio, em 1960, com uma bolsa de estudos. Mais tarde, se tornou um dos fundadores do Quinteto Villa-Lobos e integrou a Orquestra Sinfônica Brasileira. Segundo Paulo Moura, ele foi convidado, em 1977, para criar a música do filme Morte e Vida Severina, de Zelito Viana, porque, apesar da formação clássica, dominava o sotaque modal da música nordestina. Ressalte-se que essa outra trilha é quase inteira de Barbosa. O bom-jardinense assina dez dos 12 temas da produção dirigida por Viana.

Chico Buarque é parceiro dele em apenas um (Mulher na Janela), e de Funeral de um Lavrador, a canção mais marcante de Morte e Vida Severina. A música entrou para o repertório do que se chamava então música participativa, e marcou Chico como cantor de protesto, rótulo recusado por ele e pelo parceiro João Cabral de Melo Neto. Airton Barbosa, que foi preso durante o governo Medici, morreu aos 36 anos. Em Pernambuco, só é lembrado em Bom Jardim.

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