Mapa afetivo

Rec-Beat 2020: Josyara é a primeira atração confirmada

Cantora baiana apresentará o show do belo disco 'Mansa Fúria'

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 14/01/2020 às 11:18
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Julia Rodrigues/Divulgação
Cantora baiana apresentará o show do belo disco 'Mansa Fúria' - FOTO: Julia Rodrigues/Divulgação
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Bebe das águas do São Francisco, mergulha no mar de Salvador e dança as batidas da noite paulistana a primeira atração divulgada pelo Festival Rec-Beat, que neste ano completa 25 edições. Josyara – artista nascida em Juazeiro (BA), maturada na capital baiana e há cinco anos vivendo em São Paulo – trará ao Recife, pela primeira vez, com banda, o show Mansa Fúria, derivado do álbum homônimo que lançou em agosto de 2018, pelo selo Natura Musical. A data ainda será anunciada.

Mansa Fúria não é o primeiro trabalho de Josyara – que, em 2012, lançou Uni Versos, quando ainda assinava Josy Lélis – mas é como se fosse. É nele em que está a identidade da artista: não só seu nome tal qual no RG, mas seu esqueleto musical constituído por voz e violão.

“Consegui sintetizar a minha trajetória nele – desde a saída de Juazeiro para Salvador até o momento de agora, morando em São Paulo”, conta Josyara, sobre o disco, em conversa por telefone, já ansiosa pelo show no Carnaval e com a lembrança da única vez em que se apresentou aqui, em outubro de 2018, pelo projeto Ouvindo e Fazendo Música, que era realizado nos fins de tarde de sábado, no Museu do Estado.

De fato, o som de Mansa Fúria percorre uma trajetória afetivo-geográfica; um mapa do percurso andado até aqui pela artista de 28 anos. Há de onde Josyara veio – na voz e no violão descobertos ainda em Juazeiro. Há por onde Josyara passou – no samba do Recôncavo Baiano, aprendido com Roberto Mendes, em Salvador. E há de onde Josyara está – no flerte do seu violão com a música eletrônica, depois que foi viver na capital paulista; harmonização que, no álbum, ficou sob o cuidado do produtor Junix 11.

Foi ele quem propôs as texturas eletrônicas que dialogam com o violão num casamento bem-sucedido. “Um risco que me ensinou muito do que posso fazer no futuro, dos meus gostos e do meu jeito se renovando”, avalia.

Com o violão, Josyara mantém uma relação de uns 15 anos. Começou estranhamente, ainda criança, quando, ao avistar o instrumento do avô em cima do guarda-roupa, pegou e quebrou. Tempo depois, recebeu as primeiras aulas de uma amiga da mãe. Tomou gosto. Continuou a escavar o violão sozinha, num processo quase autodidata. Em Salvador aprimorou a técnica em cursos de harmonia e violão erudito. E continua a estudá-lo e a desenvolver seu jeito próprio de tocar.

“Meu violão, basicamente, é isso: tenho uma ideia, e o estudo dela pode trazer alguma composição. Tenho necessidade do meu estudo ser uma criação; às vezes, vira canção, às vezes fica por isso mesmo.” Logo, cada composição – e, registre-se, Mansa Fúria é completamente autoral! – é resultado de um estudo da artista debruçada sobre seu instrumento.

A letra, diferentemente da melodia, baixa no fluxo – “Às vezes demora, escrevo um verso ali e vejo um mês depois... mas, normalmente, eu digo o que estou sentindo no momento. Seja do meu corpo, ou sobre o meu corpo em determinado lugar, como quando fui a Europa pela primeira vez e meu corpo era outro, porque os preconceitos eram mais escancarados. Essa reação desperta uma vontade de dizer, mas um dizer cantado. Meu negócio é o corpo e a minha palavra, corporal-musical. Se eu tenho necessidade de cantar, surge a letra, e o violão vem junto para reger”.

FLUXO CONSTANTE

Nas composições que formam Mansa Fúria há água num fluxo constante, sendo os movimentos dela metáforas para os sentimentos registrados no corpo da artista. “A solidão se desmanchou em chuva/ Ensopou as ruas do meu coração”, canta em Solidão Civilizada; “Feito um toró você caiu/ e me invadiu/ me alagou [...]/ Lavou toda a plantação”, entoa em Rota de Colisão; ou ainda “Calor só presta na beira de rio/ Calor sóm presta na beira do mar”, em Temperatura.

“Sou ribeirinha de Juazeiro e me apaixonei pelo mar, horizonte que eu reconheço necessário na minha vida. Mas também gosto de falar do mar que está em mim; essas águas com movimento, mais terrosas, Nanã, que estão na gente. É um olhar de dentro pra fora.”

Nanã, uma das faixas do disco, com nome em referência à orixá que é terra em contato com a água, a lama, parece falar das águas da saudade que invadem a vida dela em São Paulo. “Ouço a voz de minha mãe/ Dizendo filha olha/ Ao seu redor entenda/ Tudo é como deve ser”. “São Paulo tem suas águas mortas; que o progresso mata. Tem todos os rios submersos, soterrados. É muita água! Eu reconheci nesse momento a necessidade de falar delas. Coincidiu nessa trajetória essa correnteza. Concretamente, nada, mesmo, pode aparentar mais mansa fúria do que as águas – como são alguns sentimentos.

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