Disco/Perfil

Eliana Pittman na terceira fase de uma carreira de 60 anos

Cantora está com disco novo, um álbum duplo

José Teles
José Teles
Publicado em 25/01/2020 às 10:23
Foto: Murilo Alvesso/Divulgação
Cantora está com disco novo, um álbum duplo - FOTO: Foto: Murilo Alvesso/Divulgação
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“Recife se esqueceu de mim. Estou preocupada. A primeira gravação que fiz, foi com meu pai, Booker Pittman, na Mocambo, um disco maravilhoso. Em 1967, eu apresentava um programa na TV Jornal do Commercio, viajava ia todos os domingos ao Recife, o programa era ao vivo”. Quem externa sua preocupação é a cantora carioca Eliana Pittman, de muitos sucessos nos anos 60 e 70, e que está começando o que considera sua terceira fase, com o disco Ontem, Hoje e Sempre (Kuarup), produzido por Thiago Marques Luis. Ano passado, ela voltou a cantar em Pernambuco, mas não na capital, participou de um show tributo a Dalva de Oliveira, no Festival de Inverno de Garanhuns.

 O disco foi lançado no final de 2019, merecia a classificação de “deluxe edition”. Além do CD gravado no estúdio Parede e Meia, em São Paulo, o álbum traz como bônus, um show da cantora, em 1970, na boate Don Camillo: “Um disco de show feito na França, mostrado agora em 2019, vai ficar pra minha história. Você pode comparar minha voz, a minha dicção, eu falando em francês. Eu não me lembro o nome do pianista. Incrível mas não consigo visualizar a banda que tocava comigo nesse dia. Foi na época da Copa do Mundo. Eu morava aqui, e morava lá, em Paris. O Booker Pittman morreu em outubro de 69, no revéillon de 69 pra 70, eu estava cantando no cassino de Espinho em Portugal, fiquei uns dois anos e meio trabalhando na Europa inteira”.

A estadia na Europa aconteceu depois da primeira fase da carreira, quando se desligou das gravadoras e dos compromissos no Brasil. Ela diz que era estigmatizada porque achavam que ela só cantava bem em inglês e não vendia muito disco. Eliana fazia uma linha que foi uma tendência nos anos 60, a de se cantar em vários idiomas (ela tem fluência em inglês e francês). Era presença constante na TV, mas realmente não era boa vendedora. No disco de estreia, com o pai Booker Pittman, ela reconhece que não tinha ainda uma voz adulta:

 “Gravamos, em 1961, no estúdio da Mocambo, com uma orquestra de frevo, e o Booker fez com que eles tocassem jazz. Na época, minha voz era muito infantil, levei algum tempo para amadurecer. Eu também não tinha noção da grandiosidade de Booker Pittman”, comenta. O saxofonista americano, Booker Pittman estava em Paris quando conheceu a orquestra brasileira do Maestro Fon-Fon, e veio com ela para o Brasil. A primeira cidade que conheceu foi o Recife. Ainda existiam cassinos. Ele tocou por algum tempo nos cassinos da capital pernambucana, depois foi tocar nos cassinos de Santos e do Rio de Janeiro, de onde seguiu para Bueno Aires.

Voltou ao Brasil no final da década de 50, quando conheceu a mãe de Eliana Pittman, com quem casou. “Ele foi meu pai artístico, pai espiritual, uma pessoa muito forte que deus colocou na minha vida. Eu não cantava nada. O fato de cantar foi coisa que aconteceu, não foi planejado.

GERALDINHO

Na época em que apresentava o programa na TV Jornal do Commercio, a cantora Eliana Pittman conta que depois saía com os amigos recifenses para bares na Boa Vista, próximos ao hotel em que se hospedavam os artistas que vinham ao Recife, o São Domingos, na Praça Maciel Pinheiro. Numa dessas noites, ela viu um violonista que a impressionou. De volta ao Rio, montava um show no Teatro de Bolso do Rio, e precisava de um músico. Sua mãe, que a acompanhava nas viagens, sugeriu que convidasse o rapaz do Recife que tocava violão tão bem.

 “Eu ia fazer o show É Preciso Cantar, e tocariam comigo o pianista Antonio Adolfo, o baterista Vitor Manga, e baixista o Novelli. Telefonei pra todos os barzinhos daquela região em volta do hotel, de um por um. Até que consegui o endereço. Mandei um telegrama, e passagens para ele vir para o Rio. Na data da chegada dele, fui com minha mãe para o aeroporto. Ela não se lembrava da cara dele, eu também não. Eu disse que se chegar um cara magrinho, com um violão debaixo do braço seria ele. Aí chega aquele rapaz, muito magrinho, com um violão e uma sacola com roupas. O rapaz do violão era Geraldo Azevedo.

 No disco Ao Vivo, de 1968, Eliana Pittman incluiu a primeira composição dele, Aquela Rosa (em parceria com Carlos Fernando). Canta a marcha de bloco (lançada por Teca Calazans em 1967), a capela, até o fim: “Esta foi gravada na minha memória. Nunca mais saiu”.

 CARIMBÓ

 Na volta ao Brasil, participou de um projeto do governo federal, que levava caravanas de artistas da música popular para apresentações pelo país. Em 1972, estava estourada nas paradas com Esse Mar É Meu, de João Nogueira. Um acaso a levaria a sua segunda e comercialmente mais bem sucedida fase. O avião que levava a caravana para shows na região Norte sofreu uma pane e foi obrigado a pousar no aeroporto de São Luis (MA):

 “Fomos pra praia do Olho d’Água. Tinha uma mulher com uma vitrolinha lá, tocando o som do Pinduca. Quis comprar o LP, ela se recusou a vender. Tinha um namorado que morava em São Paulo. Pedi pra ele ir na Avenida São João, que era o ponto de todos os nordestinos. Pedi que ele comprasse todos os discos que encontrasse de Pinduca. Ele me mandou todos os LPs. Achei tão incrível que adaptei a batida, e foi incrível, um presente de Deus para mim”, comenta Eliana Pittman. Ela viajou ao Pará a fim de fazer um show:

 “O carimbó era uma música regional do areal de Belém. Fui me apresentar num clube da Assembleia de Belém. Estava lá o high society, a high elite, high não sei o quê da cidade. Quando eu falei que ia cantar carimbó. Deu um branco no salão. Pensei: ‘será que estou tocando a música no lugar errado? Será que o carimbó não é de Belém?’ Quando terminou o show, o presidente da assembleia veio para mim dizer que aquela era uma instituição sagrada: ‘E me vem você e traz o carimbó do areal? Nunca ninguém tocou carimbó no clube da assembleia’. Aí eu já havia cantado. Foi o primeiro tabu que eu quebrei”.

No álbum Tô Chegando Já Cheguei, de 1974, Eliana Pittman canta três carimbós, aprendidos nos discos de Pinduca, que deflagrou a onda do ritmo país afora: “Eu adaptei os arranjos, por isso coloquei Mistura de Carimbó, não coloquei pot-pourri, fiz uma junção das músicas. Não tinha noção que fosse agradar tanto”, comenta a cantora, que incluiria mais duas Misturas de Carimbó nos dois próximos discos, continuando a fazer sucesso, e levando outros artistas à música paraense, e tornando Pinduca um nome nacional:

“Depois da terceira mistura, ele queriam colocar coisas feitas aqui. Eu disse que só continuaria a gravar carimbó se fizesse uma pesquisa no Pará. Eles não deixaram. Queriam que eu virasse a Donna Summer brasileira”. O “eles” a que se refere são os produtores e executivos da RCA, que pretendiam que Eliana aderisse à moda da disco music.

TERCEIRA FASE

 Eliana Pittman completa 75 anos em agosto. Ela se preparando para circular pelo país como repertório de Hoje, Ontem e Sempre, no que chama de sua terceira fase. O álbum começou de um convite do Sesc para cantar com um balé da periferia de São Paulo. “Lógico que aceitei. Era voz, percussão e violão. O repertório é o que está no CD, só agregamos mais duas músicas, uma é o samba enredo da Portela, são coisa que fazem parte da minha vida, adoro escola de samba. Um repertório abrangente, que vai de O Morro Não Tem Vez (Carlos Lyra/Vinicius de Moraes), ao argentino Fito Paez (Yo Vengo a Oferecer MI Corazón), Chico César (Onde Andará o Meu Amor), Candeia (Preciso Me Encontrar), Ex-Amor (Martinho da Vila, e mais cinco canções, das quais a mais manjada é Drão, de Gilberto Gil.

Um ecletismo que se assemelha ao disco bônus, o registro do show de 50 anos atrás em Paris, aberto com Aquele Abraço, então sucesso no Brasil com Gilberto Gil (exilado em Londres), faz um apanhado da bossa nova (Garota de Ipanema, O Pato, Desafinado), passa pela era dos festivais (com Ponteio, de Edu Lobo e Capinam), e vai até 1964, com o inusitado sucesso Deixa Isso pra Lá (Alberto Paz/Edson Menezes), que fez a fama de Jair Rodrigues.. Um disco divertido, em que Eliana Pittman dialoga com a plateia em francês, puxa uns improvisos jazzísticos e mostra-se uma show woman.

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