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Justin Bieber fala de casamento e amor em 'Changes', disco raso e sem personalidade

Após período conturbado na vida pessoal, canadense retorna com novo discurso

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 20/02/2020 às 15:30
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Após período conturbado na vida pessoal, canadense retorna com novo discurso - Instagram/Reprodução
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Changes, novo álbum de Justin Bieber, foi anunciado pelo artista como o marco de um novo capítulo em sua vida, um reflexo das mudanças pelas quais passou desde que lançou Purpose (2015), disco que marcou a mudança na sua imagem e sonoridade. Durante este hiato afastado dos holofotes, o canadense focou no cuidado de sua saúde física e mental, após anos de abuso de substâncias químicas e de transtornos psíquicos não diagnosticados.

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Ainda que se proponha como um trabalho confessional, quem escutar Changes em busca resquícios da montanha-russa emocional do artista nos últimos anos vai se frustrar. Ainda que o marketing do trabalho gire em torno da superação dos demônios pessoais, este é um disco sobre estar apaixonado pela modelo Hailey Baldwin, com quem casou em outubro do ano passado. A maior parte do disco é composta de declarações de amor incondicional e de como a união dos dois transformou a vida do canadense, como nas delicadas That’s What Love Is e At Least For Now.

A faixa título é outro destaque: uma balada focada na voz do artista, que é acompanhado apenas de um violão. Nela, ele pontua rapidamente suas luta contra a ansiedade e a depressão. Em sua maior parte, porém, o álbum é despido de densidade emocional, investindo na mescla de trap, r&b e hip hop que domina as paradas musicais. Talvez o maior exemplo disso seja o single Yummy, esquemático, sem alma e explicitamente feito para viralizar em aplicativos de vídeo como o TikTok. O desespero pelo primeiro lugar nas paradas parecia tamanho que ele postou nas suas redes sociais formas dos fãs burlarem as plataformas de streamings para ajudá-lo a conseguir o feito.

A comparação deste trabalho de Justin Bieber com Rare, de Selena Gomez, lançado em janeiro, não é justa, pois tratam-se de dois artistas com projetos e trajetórias distintas, mas é quase inevitável. O relacionamento deles ocupou por anos os tabloides internacionais e os problemas pessoais de ambos fomentaram narrativas densas. Se o cantor preferiu ficar na superfície com seu novo trabalho, Gomez criou um disco pulsante e com camadas emocionais que tateiam de temas pesados à emancipação emocional. O fim do namoro dos dois, inclusive, seria o tema do primeiro single dela, Lose You To Love Me, faixa sobre relações abusivas.

Enquanto obra, Changes não lembra nem de longe o brilhantismo de Purpose, que apresentou as vulnerabilidades de Bieber embaladas por produções inventivas e cativantes, como nas excelentes Sorry, What Do You Mean? e Love Yourself. As parcerias em faixas como Intentions, com Quavo, Running Over, com Lil Dicky, e Forever, com Post Malone e Clever, e Get Me, com Khelani, soam indistintas e pouco inspiradas.

MAIS DENSIDADE

O turbilhão vivido por Justin Bieber desde os 15 anos, quando explodiu mundialmente com o hit Baby (2010), foi acompanhado de perto pelos tabloides internacionais. A combinação de uma infância conturbada com súbita fama, dinheiro e a sensação de invencibilidade da juventude foi quase fatal. Ainda que vendesse cada vez mais discos (são mais de 105 milhões de cópias de álbuns e singles comercializados apenas nos EUA), a sensação é de que o a artista estivesse em um espiral de autodestruição.

O ponto de virada para que procurasse tratamento foi a exaustão emocional que levou a cancelar as últimas datas da turnê multimilionária do Purpose, em 2017, fato que é tratado com muita honestidade na série documental Seasons, disponível gratuitamente no Youtube. Em um dos capítulos mais crus do projeto, Bieber fala sobre seu vício em drogas, que começou aos 13 anos, o diagnóstico da doença de Lyme e da depressão.

O que se vê é um jovem de quase 26 anos com aparência envelhecida, exaurido por excessos e pela escuridão que tem efeito devastador depois que os flashes e os holofotes se apagam. Sua disponibilidade para tratar com franqueza de sua jornada de recuperação é louvável. Ao terminar a série, a sensação que fica é a de que Changes não é um disco sobre transformações consolidadas, mas sobre um processo. E, nesse sentido, ainda que não pareça um capítulo particularmente interessante, o álbum pode ser lido como um caminho para que Bieber reencontre sua paixão por criar e se apresentar.

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